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Denúncia: célebre arqueólogo 'descobria' murais que ele mesmo pintava

O falecido James Mellaart fez descobertas consideradas importantíssimas, mas suas falsificações, reveladas por colegas, põem tudo em dúvida

quarta 17 outubro, 2018
Omar Hoftun
Omar Hoftun Foto:Wikimedia Commons

O sítio arqueológico Çatalhöyük, na Turquia, é uma das mais espetaculares descobertas do século passado. Uma proto-cidade neolítica, de 9 mil anos, que mostra como as pessoas viviam na transição do modo de vida caçador-coletor para o agrícola e urbano. Algo insólito nela é que as ruas não tinham sido inventadas ainda: as pessoas circulavam por cima dos telhados. 

Um Mellaart mais jovem em Çatalhöyük Omar Hofton

Por essa descoberta, em 1958, e a escavação em 1961, o arqueólogo britânico James Mellaart foi justamente celebrado até o fim da vida, em 2012. 

Mas, por alguma razão, Mellaart parece ter achado que não era o bastante. Acaba de sair a denúncia que ele vivia 'descobrindo' artefatos de sua própria criação, inclusive murais em Çatalhöyük.

Evidências incriminadoras

É o que afirma o geoarqueólogo Eberhard Zangger, presidente da Fundação de Estudos Luvitas. Ele examinou o apartamento de Mellaart em Londres entre 24 e 27 de fevereiro, e encontrou protótipos de murais e inscrições que o arqueólogo afirmava serem reais.

"Ele usou o mesmo método por mais de 50 anos", Zangger contou à Live Science. "Primeiro ele adquiria enorme conhecimento sobre o assunto. Depois, tentava usar esse conhecimento para desenvolver um panorama histórico coerente". Até aí, é o procedimento arqueológico padrão. A diferença é que, depois disso, os pesquisadores costumam procurar por evidências que confirmem ou refutem suas ideias. Em vez disso, "Mellaart fabricava desenhos de artefatos e traduções de documentos para reforçar suas teorias".

Em 1995, Mellaart escreveu para Zangger, contando sobre uma série de inscrições, supostamente da vila de Beyköy, em idioma luvita, um tipo de hieróglifo raro. Luvitas eram uma etnia indo-europeia algo misteriosa, geralmente identificados com os troianos dos épicos gregos.

Mellaart afirmou que ele não sabia ler ou escrever em luvita, mas que estava planejando descrever sua descoberta em uma publicação científica. Em uma nota que Zangger encontrou no apartamento, Mellaart afirma que a descrição das incrições de Beyköy não deveriam ser publicadas antes de sua morte — outros pesquisadores deveriam publicar para ele.

Eberhard Zangger e o pesquisador Fred Woudhuizen assumiram o projeto e publicaram os detalhes da descoberta em dezembro. (E a AH publicou.) A inscrição supostamente tem 3.200 anos e conta sobre um príncipe troiano chamado Muksus. Alguns estudiosos suspeitam que se trata-se de uma fraude, e a suspeita só aumenta com a denúncia de Zangger.

Um dos achados (ou "achados"?) do arqueólogo Fundação de Estudos Luvitas

Zangger é enfático. Acredita que muitas das — se não todas as — inscrições são fraudes. Mas diz não ter certeza de a descoberta publicada em dezembro ter sido inventada, ou não totalmente. Documentos encontrados no apartamento de Mellaart mostram que, longe de não saber ler luvita, como afirmava, o arqueólogo era habilidoso no idioma. Em outras palavras, seria perfeitamente capaz de forjar uma inscrição nele. 

No apartamento, Zangger também encontrou peças de xisto gravadas com os rascunhos dos murais que Mellaart afirmava ter encontrado em Çatalhöyük. As primeiras descrições dos murais foram publicadas em 1962, na revista Archaeology. Nas décadas seguintes, Mellaart publicou outras. Ainda não se sabe quantos murais de Çatalhöyük são falsos. "Mellaart produziu uma mistura de fatos publicados, informações não publicadas e imaginação. É impossível desembaraçar tudo isso", afirma Zangger.

Letícia Yazbek


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