Almirante em campo

Heleno Nunes, o militar que comandou o futebol brasileiro

José Renato Santiago Publicado em 29/06/2016, às 08h44 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Heleno Nunes (sentado à esq.) ao lado de João Havelange, então presidente da Fifa
Heleno Nunes (sentado à esq.) ao lado de João Havelange, então presidente da Fifa - divulg.
Com a eleição de João Havelange à presidência da Fifa em 1974, o cargo de presidente da Confederação Brasileira de Desportos, CBD, foi ocupado pelo almirante Heleno Nunes. A eleição de Heleno fez parte da estratégia do governo militar de usar o esporte como forma de suportar o poder pelo país. Ao assumir o cargo, o almirante, apaixonado e declarado torcedor do Vasco da Gama, deixou claro que centralizaria todas as decisões da entidade. Sob sua administração, o lema “Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional, e onde a Arena vai bem, mais um time também”, pró-partido do governo, a Arena, se tornou uma regra tácita. No primeiro ano de seu mandato, em 1975, o Campeonato Brasileiro teve 42 participantes, na edição de 1979, a última sob sua administração, chegou a 94 equipes. 
Em 1977, após um empate sem gols contra a seleção colombiana em Bogotá, válida pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1978, a CBD trocou o técnico da seleção, Osvaldo Brandão, pelo ex-preparador físico da seleção na Copa do Mundo de 1970, o também militar e capitão Cláudio Coutinho. Meses depois, após a difícil vitória brasileira contra o Peru, por 1 a 0, em Cali, Heleno Nunes foi abordado no vestiário pelo atacante Paulo César Caju, que reivindicava aumento na premiação dos jogadores. Ao ser ignorado, Caju disse ao dirigente “Vá cuidar de seus navios e armas, pois de futebol você não entende nada”. Afastado devido a um problema no joelho direito – motivo oficial –, o campeão mundial de 1970 jamais voltou a vestir a camisa da seleção brasileira.
O almirante voltaria a agir nos bastidores em 1978. Em partida disputada entre São Paulo e Botafogo, em Ribeirão Preto, válida pelo Campeonato Brasileiro, após ter um gol anulado, o que seria o de empate, aos 45 minutos do segundo tempo, o atacante tricolor Serginho Chulapa agrediu o bandeirinha, Vandevaldo Rangel, com um chute na canela. Expulso, foi punido com uma suspensão de 14 meses. Serginho e o atacante do Atlético Mineiro Reinaldo eram considerados os melhores centroavantes do Brasil naquele ano. Mesmo com o grande apelo para que a suspensão fosse reduzida, para que fosse à Copa do Mundo, Heleno Nunes nem considerou a hipótese, porque queria convocar o vascaíno Roberto Dinamite. 
Reinaldo também vivia um grande momento, fora artilheiro do campeonato nacional com incríveis 28 gols em 18 partidas, uma média de 1,55 por jogo, até hoje imbatível. Quando marcava seus gols, tinha como hábito levantar o braço com o punho fechado, em gesto similar ao do grupo americano Panteras Negras, que defendia a resistência armada contra a opressão aos negros. O atacante do Atlético Mineiro justificava seu ato como forma de protestar contra a ditadura no país, afinal “era preciso mostrar resistência ao regime militar para acelerar o processo democrático”. Às vésperas da última partida amistosa da seleção brasileira antes da estreia na Copa do Mundo, realizada em Porto Alegre, diante de uma seleção gaúcha, o então presidente da República, Ernesto Geisel, recebeu a delegação brasileira no Palácio Piratini. Ao lado de Heleno Nunes e Ney Braga, ministro da Educação, Geisel se dirigiu a Reinaldo e comentou em tom sério que ele não devia falar de política, que era coisa sobre a qual não entendia, e que deveria “pensar em futebol, jogar bola”. André Richer, chefe da delegação brasileira na Copa, pediu para Reinaldo não repetir o gesto, porque parecia “meio revolucionário”. 
Em junho, em Mar de Plata, no jogo de estreia da Copa do Mundo, a Suécia abriu o placar, e Reinaldo empatou. Na comemoração, o atacante repetiu o ato, e seu futuro parecia estar traçado. Após o empate sem gols na partida seguinte, contra a Espanha, Heleno Nunes chamou a comissão técnica e ordenou a Claudio Coutinho duas substituições: Zico por Jorge Mendonça e Reinaldo por Roberto Dinamite. Reinaldo só voltaria à equipe na decisão pelo terceiro lugar, substituindo o ponta-direita, no segundo tempo da vitória por 2 a 1 contra a seleção italiana. Depois, só voltaria a vestir a camisa amarela em 1980, quando Heleno Nunes não estava mais na entidade. Coutinho continuaria no comando da seleção até o empate por 2 a 2 com o Paraguai, em 1979, resultado que eliminou o Brasil nas semifinais da Copa América. Heleno Nunes perdeu, no mesmo ano, para Giulite Coutinho as eleições para a presidência da recém-
criada CBF, Confederação Brasileira de Futebol, entidade que passou a gerir exclusivamente o futebol brasileiro. Já falecido, empresta seu nome ao Centro de Treinamento inaugurado pelo Vasco da Gama em 2006 na cidade de Duque de Caxias.