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3 décadas de mistério na França: o polêmico caso Grégory Villemin

De 1984 para os dias atuais, seis familiares já foram acusados ou detidos, um magistrado responsável pelo caso se suicidou e outro fala de erros judiciais

Ingredi Brunato Publicado em 27/08/2020, às 18h39

Fotografia de Grégory Villemin
Fotografia de Grégory Villemin - Divulgação/ Netflix

No dia 16 de outubro de 1984, Cristine Villemin olhou pela janela e descobriu que seu filho de quatro anos, Grégory, não estava mais brincando no jardim na frente de casa. Ela denunciou seu desaparecimento para a delegacia. Apenas meia hora depois o tio do menino disse que recebeu uma ligação anônima alegando que o corpo do menino havia sido jogado no rio Vologne. 

Policiais iniciaram buscas no local, e o pior se confirmou: depois que a noite caiu, eles encontraram o corpo da criança no rio local, com mãos e pés amarrados, e um chapéu cobrindo o rosto. 

Mais estranho ainda é que não foi a primeira vez que a família Villemin recebeu mensagens anônimas. Durante anos os pais de Grégory, Jean-Marie e Cristine Villemin, assim como seus avós paternos, Albert e Monique Villemin, se depararam tanto telefonemas quanto cartas anônimas de um homem misterioso que jurava vingança contra Jean-Marie, pai de Grégory. 

O mistério

A família, no entanto, não sabia dizer pelo quê, exatamente, aconteceria a vingança. O que deixa a história realmente sombria é que no dia seguinte da morte da criança de quatro anos, os pais do menino receberam uma última carta sem remetente, que dizia apenas “Eu me vinguei”. 

A mídia francesa deu repercussão ao caso, na época, chamando o autor desconhecido da carta de “Le Corbeau”, ou “O Corvo”. A investigação para tentar encontrar o Corvo, no entanto, continua infrutífera até os dias atuais. 

Rio onde Grégory foi encontrado. Crédito: Wikimedia Commons 

 

Os acusados 

Já em novembro daquele ano ocorreria a primeira prisão decorrente do assassinato de Grégory. O acusado não era ninguém menos que o primo do pai do garoto, um homem chamado Bernard Laroche. 

A pessoa a incriminar Laroche havia sido Murielle Bolle, sua própria cunhada. Aparentemente, uma análise de caligrafia posterior, comparando com as cartas anônimas, teria ajudado a confirmar as suspeitas. 

No entanto, a primeira reviravolta da investigação veio quando Bolle retirou seu depoimento, alguns meses depois, mudando sua versão da história e dizendo que, na verdade, havia sido coagida pela polícia a acusar Laroche. 

Uma curiosidade é que, em 2018, Bolle viria a publicar um livro chamado “Breaking the Silence” (“Quebrando o Silêncio” em tradução livre) em que conta mais sobre seu envolvimento com o caso Grégory, ainda mantendo a narrativa da coação. 

O pai do garoto, Jean-Marie, no entanto, já estava convencido que Laroche era o assassino do seu filho. Tomado pela fúria, ele baleou o primo quando o mesmo estava saindo para trabalhar. Depois disso, o pai de Grégory acabou sentenciado a cinco anos de prisão pelo assassinato. 

Um pouco depois, a mãe do menino, Cristine, foi acusada pela morte do próprio filho, supostamente porque teria sido identificada como a autora das cartas. Embora estivesse grávida na época, ela entrou em greve de fome durante onze dias. Eventualmente, Cristine Villemin foi inocentada, porém isso apenas aconteceu oito anos depois. 

Desenrolares recentes 

O caso já foi reaberto três vezes desde então, em 2000, 2008 e 2017. Nessa primeira data, foram realizadas análises de DNA que, no entanto, retornaram com resultados inconclusivos. Em 2008, mais itens foram analisados, porém novamente sem resultados. 

Foi em 2017 que o caso do assassinato de Grégory voltou à mídia, diante de novas evidências - que, no entanto, não foram divulgadas. O que de fato foi divulgado foi a prisão de outros três familiares do menino: uma tia, uma tia-avó e um tio-avô. Murielle Bolle também foi detida por 36 dias, com os investigadores acreditando que ela só retirou seu depoimento em 1984 por conta de pressões familiares. 

Um mês depois, o magistrado que foi responsável pelo caso em seu início, Jean-Michel Lambert, foi encontrado morto com uma sacola de plástico em sua cabeça. Ele já havia dito em entrevista que cometera erros na conduta do caso de Grégory, até por ter sido o primeiro em sua carreira como juiz, e também que a investigação inconclusiva sobre a morte do garoto o havia perseguido durante toda a sua vida. 

Por conta da ausência de sinais de violência no local onde Jean-Michel foi encontrado, acredita-se que tenha sido um suicídio.  O magistrado teria sido substituído ainda em 1987, por outro juiz, chamado Maurice Simon, que criticou duramente o trabalho do primeiro.

"Estou em meio a um erro judicial em todo o seu horror", teria escrito ele sobre as acusações contra a mãe de Grégory Villemin, segundo divulgou canal francês de notícias BFMTV.  Simon teria ainda dito em suas anotações pessoais que Lambert tinha algum tipo de “desordem intelectual”. 

E a morte de Grégory continua sem respostas, com todo o seu mistério de cartas anônimas, vingança, intrigas familiares e erros judiciais. Mais de 30 anos se passaram, porém o caso todo prossegue sendo um mistério criminal.

Justamente  por causar tanto espanto, o caso do assassinato do menino francês virou inclusive inspiração para uma série documental de três capítulos na Netflix, chamada simplesmente de "Grégory". 


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