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Opinião: A masculinidade tóxica promovida pela má interpretação dos clássicos

Professor da Universidade de New Brunswick fala sobre o uso dos clássicos como suporte a uma masculinidade nostálgica

sexta 27 abril, 2018
Cena do filme Troia, livremente baseado em Ilíada
Cena do filme Troia, livremente baseado em Ilíada Foto:Reprodução

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A Ilíada de Homero tem sido usada por alguns homens para exaltar as virtudes da masculinidade tradicional no século 21. Tipicamente, a famosa obra serve como uma espécie de manual de masculinidade.

Estudiosos não são imunes a essa tendência de privilegiar determinada visão do sexo masculino. Por exemplo, no agora infame vídeo do YouTube de outubro de 2017, Jordan Peterson, o controverso professor de Psicologia da Universidade de Toronto e queridinho dos defensores da liberdade de expressão, lamenta que os homens não podem “controlar mulheres loucas” porque, se o diálogo entre um homem e uma mulher fracassa, o homem é “proibido” de resolver a disputa com violência física.

Esse sentimento de controle representa a visão de Peterson a respeito dos papeis de gênero. Mais recentemente, ele culpou o aumento de alegações de conduta sexual imprópria contra figuras proeminentes, como Louis CK, pelo colapso do casamento, principal instituição na qual o sexo ocorre.

Parece que Peterson está defendendo o assédio sexual, sancionado pelo Estado, dentro do casamento (levando em conta a verdadeira história do casamento e das relações de gênero). Vamos ser caridosos e considerar que o que ele tem em mente é o tipo de relação conjugal apresentada nos clássicos: formada por homens heroicos e suas esposas e baseada no amor, sim, mas que também representa o homem como um campeão altruísta que afasta as ameaças dos outros machos e provê o sustento da família enquanto luta contra os perigos diários.

Uma rápida olhada na conta abundantemente financiada de Peterson no Patreon deixa claro que reivindicar as tradicionais ciências humanas ocidentais e suas lições de moral é um de seus principais objetivos. Ele começa listando os 100 “grandes livros do mundo”, se concentrando nos “clássicos do cânone ocidental”. Se ele é qualificado para fazer isso é uma questão aberta a debates; um artigo recente no The Walrus acusa Peterson de charlatanismo.

A apropriação de clássicos pela supremacia branca

Como professor de estudos clássicos, sou assombrado por essa apropriação da minha disciplina pela “direita alternativa” e pelos autointitulados “defensores da civilização ocidental”. Minha colega Donna Zuckerberg argumentou que nós estudiosos temos muita responsabilidade quando se trata de enfrentar os demônios da nossa disciplina, que “para muitos, é o estudo de um homem branco da elite depois do outro.”

Além de desejar pelos (brutalmente mal compreendidos) gloriosos dias de uma triunfante Europa Cristã que traçou o seu patrimônio para os Gregos e Romanos, os novos campeões do ocidente estão obcecados por uma versão idealizada do passado que tem pouca semelhança com as reais Grécia e Roma.

Outra colega, Sarah Bond, fez um trabalho maravilhoso ao apontar o racismo e a supremacia branca inerentes em continuar a destacar o mármore branco de esculturas antigas e negar sua realidade multicolorida.

Cabeça de um jovem homem, exposta no museu Centrale Montemartini, em Roma Reprodução

O mundo clássico nos fornece exemplos de virilidade, masculinidade e heroísmo que inspiraram alguns homens a reagir contra a suposta feminização da cultura ocidental, especialmente no cenário universitário.

Os Gregos e Romanos realmente devem ter conhecido o significado de ser homem, e eles celebravam a masculinidade descaradamente.

Quando eu desafio as noções tradicionais de masculinidade ocidental ou civilização ocidental, eu frequentemente recebo respostas pelo Twitter que colocam em questão minhas próprias masculinidade e aptidão para ensinar sobre o mundo clássico.

Mesmo a mais clássica e ocidental de todas as obras, a Ilíada de Homero, oferece uma representação da masculinidade muito mais sutil do que a oferecida por homens como Peterson. A Ilíada, que também se baseou fortemente em precursores orientais, é uma história que, em grande parte, entra em desacordo com a masculinidade tóxica de hoje.

A Ilíada: um poema épico e complexo

Quando eu estava na faculdade e li Ilíada, um poema épico sobre a Guerra de Troia, pela primeira vez, achei o confronto final entre os heróis Heitor e Aquiles uma decepção total. Heitor, de fato, foge em vez de enfrentar seu oponente.

Foi só depois de Aquiles ter perseguido Heitor três vezes pelas muralhas de Troia que Heitor o enfrenta, e só porque a deusa Atena o engana, fazendo-o pensar que um aliado troiano estava ao seu lado. Uma covarde, e tão diferente da versão cinematográfica com Eric Bana! Aos 21 anos, eu percebi que, na Antiguidade, as pessoas não gostavam das mesmas coisas que os espectadores modernos.

Eu li Ilíada muitas outras vezes depois disso. Ao ensinar o poema, no idioma grego original, para uma classe cheia de alunos brilhantes, aprecio novamente a profundidade do retrato de Heitor, feito pelas mãos de um poeta que trabalhou há mais de 2.500 anos.

Eu não acho que os leitores de Ilíada estão destinados a defender ou sentir uma simpatia acrítica pela excessiva masculinidade de Aquiles (apesar de que alguns discordam disso), que respondeu a um insulto de Agamemnon com fúria assassina.

Usando diferentes palavras gregas para masculinidade, Homero fez a distinção entre a masculinidade tóxica de Aquiles e expressões apropriadas sobre o sexo masculino.

No entanto, os leitores tendem a reconhecer em Heitor, o maior guerreiro troiano, uma figura bem mais simpática, que incorpora a masculinidade clássica lutando bravamente e altruisticamente por sua cidade e família contra inimigos implacáveis.

O filme Troia (2004), de Wolfgang Petersen, livremente baseado em Ilíada, perde a complexidade da masculinidade retratada na obra original. No filme, Heitor é o real herói da Guerra de Troia. Apesar das falhas e distorções do filme em relação à obra, a audiência não pode deixar de torcer pelo galã Heitor, principalmente da forma como é interpretado por Bana.

Eric Bana no filme Troia Reprodução

Quando Heitor duela com Aquiles (Brad Pitt), nós sabemos que ele vai perder, mas nós gostamos dele muito mais do que do violento e enfurecido Aquiles, e nós admiramos seus princípios.

Heitor tenta se entender com Aquiles, dizendo que o vencedor dará ao derrotado os rituais de enterro adequados, ideia que é friamente rejeitada pelo campeão grego. Heitor luta mesmo assim, conforme dita sua honra.

É assim, afinal de contas, que os homens lidam com os problemas, não é?

Um herói complicado

Mas o Heitor de Homero é muito mais complexo do que a caricatura de Peterson, e é um modelo pobre para os novos campeões da masculinidade “tradicional”.

Não só a coragem de Heitor falha com ele na aproximação final de Aquiles, o grego em chamas em sua armadura como uma estrela brilhante e mortal, como também o príncipe troiano espera do lado de fora da segurança das muralhas, não por causa de qualquer princípio ou coragem.

Em vez disso, ele espera porque cometeu o erro de não levar seus soldados à cidade mais cedo, o que teria poupado a morte de incontáveis homens nas mãos de Aquiles. Heitor, portanto, deve manter sua dignidade.

Antes de fugir, Heitor também pondera se deve abaixar as armas e tentar chegar a um acordo. Em vez de lutar até a morte, Heitor considera oferecer a Aquiles não só Helena e os tesouros que ela havia levado a Troia, mas cada grama de tesouro que havia em todas as casas da cidade, vendendo efetivamente todos os troianos em vez de enfrentar a própria morte.

Apenas depois de deliberar sobre essas duas opções é que ele se volta para correr, talvez frustrando as expectativas de muitos universitários.

Demorou alguns anos, mas agora eu vejo em Heitor uma humanidade profunda e empática. Nós todos não agimos por interesse próprio com mais frequência do que gostaríamos de admitir? Nós todos não somos culpados por nos posicionarmos quando é fácil fazer isso e quando estamos entre amigos, mas não empacamos diante da chance de falar quando pode haver repercussões reais?

No verão passado, outro queridinho dos defensores da liberdade de expressão masculina, James Damore, ganhou as manchetes.

Ele foi demitido do Google por divulgar um memorando de 10 páginas no qual argumentava que as mulheres, com seus "níveis mais altos de neuroticismo", são menos adequadas para atuar em áreas tecnológicas do que os homens, frios, calculistas e racionais.

A ciência por trás do discurso de Damore foi derrubada.

Para acrescentar: A Ilíada seria uma péssima escolha para fornecer evidências em favor de Damore.

Do medo angustiante e da indecisão no peito de Heitor, aos lamentos melancólicos de seu pai, Príamo, enquanto implora ao filho que venha para dentro das muralhas da cidade, e até mesmo à reação chorosa e hiperemocional de Aquiles ao insulto de Agamemnon, heróis do épico grego são terríveis para justificar a masculinidade tóxica afirmada por Peterson, Damore e seus fãs.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Matthew A. Sears – Professor associado de Estudos Clássicos e História Antiga na Universidade de New Brunswick. Artigo publicado por licença Creative Commons, permitido a reprodução integral, sem alterações, citando a fonte. 

 

 

 

 

 

 

 

Matthew A. Sears

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