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Com larvas de moscas: a curiosa história do queijo mais perigoso do mundo, segundo o Guinness

O alimento controverso é considerado uma iguaria para habitantes da ilha de Sardenha

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 14/05/2022, às 08h00

Trecho de vídeo mostrando fabricação do queijo citado
Trecho de vídeo mostrando fabricação do queijo citado - Divulgação/ Youtube/ Culture Trip

Existem muitos queijos com processos de fabricação excêntricos: enquanto a grande maioria necessita da atuação de bactérias para chegar a seu ponto final, outros, como o gorgonzola e o roqueforti, utilizam fungos para obter seu sabor único.  

É possível argumentar, todavia, que nenhum passa por um método de confecção tão extremo quanto o casu marzu, alimento tradicional da ilha italiana de Sardenha, que fica localizada no mar Mediterrâneo. 

Esse queijo de aspecto cremoso tem um gosto tão forte que é capaz de persistir na boca por horas depois de ter sido ingerido, é considerado uma verdadeira iguaria por diversas famílias da região.

Nem todos, contudo, terão uma opinião tão elevada a respeito do item: isso porque a produção dele é realizada com a ajuda de nada menos que larvas de mosca. 

O alimento é servido ainda com as hóspedes presentes — o que levou o governo da Itália a torná-lo proibido ainda no ano de 1962, uma vez que a lei do país não permite o consumo de comidas infestadas com parasitas, de acordo com uma matéria de 2021 da CNN. 

Foto de pedaço de cazu marzu de perto mostrando uma larva / Crédito: Divulgação/ Youtube/ Culture Trip

Recorde intimidador

O Guinness Book, por sua vez, concedeu à iguaria o título de "o queijo mais perigoso do mundo" em 2009. Isso, pois, enquanto alguns passam o casu marzu por uma centrífuga antes de devorá-lo, de forma que larvas e queijo viram uma coisa só, outros preferem desfrutar dele enquanto os vermes ainda estão vivos. 

Infelizmente, caso aconteça de alguns deles serem capazes de sobreviver à mastigação e aos ácidos estomacais, chegando ilesos ao intestino do indivíduo, podem provocar microperfurações no órgão e até mesmo um quadro de miíase intestinal (em que o parasitismo é generalizado). 

"Vômitos, dor abdominal e diarreia sanguinolenta" são consequências possíveis dessa experiência desagradável, conforme o portal do Guinness Book. 

De acordo com Roberto Flore, um chef de cozinha de Sardenha entrevistado pela CNN, o alimento é seguro, e muito da aversão que o resto do mundo pode sentir em relação ao alimento vem de diferenças culturais.

Como você define comida comestível? Cada região do mundo tem uma maneira diferente de comer insetos. (...) Acredito que nunca ninguém morreu comendo casu marzu. Se morreu, talvez estivesse bêbado. Sabe, quando você come, também bebe muito vinho”, argumentou ele.
Fotografia de casu marzo / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal/ Shardan

Fabricação polêmica

Para criar um casu marzu, primeiro é preciso ter em mãos um tipo de queijo feito a partir do leite cru de ovelha, que é conhecido como "pecorino sardo". Esse é também um item de grande importância cultural para a culinária da ilha, inclusive. 

Em seguida, é criada uma situação favorável para que as moscas-do-queijo, que são conhecidas por sua inclinação a contaminarem uma série de alimentos humanos, ponham seus alvos no pecorino. Deste ponto, que, em geral, ocorre ao fim de junho, é preciso esperar cerca de três meses para o alimento estar pronto para o consumo. 

As larvas que nascem tem um ambiente perfeito para crescerem digerindo as proteínas de seus arredores. É sua locomoção através da iguaria que lhe confere a cremosidade. 

Um detalhe curioso é que, quando os vermes morrem naturalmente, o queijo deixa de ser considerado seguro para a ingestão pelos locais. Esse é o momento que o casu marzu é visto como "estragado" e precisa ser jogado fora. 

Atualmente, contudo, existe a possibilidade de esfriá-lo artificialmente para preservá-lo por mais tempo. 

Confira abaixo o vídeo de um produtor do queijo contando sobre o processo: 

Lei versus tradição

A venda do casu marzu, que é proibida pelo governo italiano, pode render uma multa de até 60 mil dólares, contudo, essa legislação é por vezes ignorada pelas famílias tradicionais de Sardenha, ainda segundo a matéria da CNN. 

O produto é considerado um item importante da cultura gastronômica da ilha, capaz de conectar o presente com as práticas do passado. 

Existem ainda esforços no sentido de comprovar que o queijo infestado de larvas pode ser feito em laboratório, sob condições controladas, experimento feito com sucesso em 2005 por especialistas da Universidade Sassari de Sardenha

É possível que, no futuro, o casu marzu tenha sua reputação internacional restaurada, até por conta da tendência mundial de se encarar comidas que incluem insetos e larvas em suas receitas como fontes válidas de proteína.

Até o momento, porém, os temíveis títulos de "perigoso" e "ilegal" ainda pairam sobre o excêntrico alimento, de forma que a vontade de experimentá-lo é limitada a um grupo bem reduzido de aventureiros culinários.