1964: O dia da queda

Nas 24 horas entre o 31 de março e 1º de abril, traição, caos e fuga no golpe que inaugurou os 21 anos da ditadura militar

quinta 29 março, 2018
Tanques amanheceram defendendo o presidente João Goulart, mas trocaram de lado antes do fim do dia
Tanques amanheceram defendendo o presidente João Goulart, mas trocaram de lado antes do fim do dia Foto:Agência O Globo

Era manhã de 31 de março de 1964 quando, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o presidente João Goulart atendeu ao telefone. Do outro lado da linha estava o senador Arthur Virgílio, que tinha uma notícia importante: as tropas do Exército estavam se movimentando para agir contra o governo. Jango ligou para seu chefe do Gabinete Militar, o general Assis Brasil, que lhe disse que tudo estava em ordem, e que o general Olympio Mourão Filho, de Minas, estava apenas fazendo uma manobra militar. Na verdade, Mourão, um antigo tenentista, estava é marchando para o Rio para derrubar o governo.

O general começou seu movimento sozinho, mas acontece que ninguém estava disposto a sair em defesa de Jango. O presidente, que tinha sido ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, vinha radicalizando seu discurso em favor da reforma agrária. Ligado à esquerda, ele já tinha prometido reduzir o poder das empresas estrangeiras, o que irritou profundamente os maiores empresários do país. Além disso, parecia estimular a revolta dos soldados contra seus comandantes. Na noite de 30 de março, discursando para suboficiais e sargentos no Automóvel Clube do Rio, Jango apoiou os jovens que tentavam democratizar o Exército. “Não admitirei o golpe dos reacionários”, ele disse. A provocação aos generais custou muito caro.

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Quem vai atacar?

A situação estava se radicalizando e parecia que alguém, da esquerda ou da direita, daria um golpe a qualquer momento. Jango pretendia aprovar no Congresso a reeleição para conseguir mais um mandato em 1965. O deputado Leonel Brizola, genro e aliado do presidente, dizia: “Se não dermos o golpe, eles darão contra nós”. Naquele dia 31 de março, quando Mourão saiu às ruas, Goulart recebeu um telefonema de Amaury Kruel, o general que chefiava as tropas de São Paulo e do Mato Grosso. Amaury exigia que o presidente rompesse com a esquerda. Jango respondeu: “General, eu não abandono meus amigos”. Amaury juntou-se a Mourão. Na manhã de 1º de abril, o presidente colocou cinco tanques na porta das Laranjeiras – o Rio de Janeiro já não era mais a capital, mas foi ali que a crise toda aconteceu.

Movimentos populares contrários a João Goulart foram às ruas comemorar a queda do presidente Agência JB

Ao assumir o governo no lugar de Jânio Quadros, que havia renunciado em 1961, Jango colocou seus aliados nos cargos mais importantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Seu plano era sempre contar com apoio de amigos nestes setores para evitar que um golpe acontecesse. Não funcionou. Brigado com a cúpula dos militares, Goulart contava com outra carta na manga: a manifestação do povo. Ele tentou apelar para isso quando o líder comunista Luiz Carlos Prestes convocou uma greve geral e uma grande passeata para o dia 1º. Só que uma coisa atrapalhou a outra. Com a greve do setor de transportes e a chuva que caiu no Rio naquele dia, só 4 mil pessoas conseguiram chegar ao protesto.

Reação frustrada

Aí o presidente partiu para uma última aposta. Quem conta a história é o jornalista Elio Gaspari em seu livro A Ditadura Envergonhada. O chefe do Gabinete Civil de Jango, Darcy Ribeiro, chamou para conversar o deputado Marco Antonio Coelho, do Partido Comunista do Brasil. Ofereceu a Marco Antonio submetralhadoras para que os comunistas lutassem contra os militares e deu a ele uma lista de pessoas que deveriam ser executadas em caso de vitória da esquerda. Só que o deputado se recusou a participar do plano.

Pouco antes do meio-dia daquele 1º de abril, o ministro da Guerra de Jango, Jair Dantas Ribeiro, pediu demissão e aderiu à turma de Mourão. O presidente voou correndo para Brasília, onde o golpe avançava rápido. Nessa altura, as tropas do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Espírito Santo já estavam a favor da queda do governo. O novo líder dos militares, o marechal Castello Branco, estava escondido em um apartamento no Rio, e de lá usava o telefone para conquistar novos aliados. Às 20h, a certeza da vitória era tão grande que Castello já discutia a divisão do poder com seu colega, o general Arthur da Costa e Silva. Eles resolveram que Castello assumiria a presidência, e Costa e Silva ficaria com o comando do Exército. Quando o primeiro presidente da ditadura morreu, em 1967, foi Costa e Silva quem assumiu o governo.

Antes do cair da noite do dia 1º, a vitória estava assegurada Agência Estado

Enquanto isso, em Brasília, Jango percebeu que não tinha mais como se manter na presidência. Sem renunciar, pegou um avião às 23h. Foi para o Rio Grande do Sul e de lá fugiu para o Uruguai. Antes mesmo que ele deixasse o país, o Congresso já tinha passado o poder para o presidente da casa, Ranieri Mazzilli, que depois daria o cargo para Castello Branco. A partir daí, o Brasil estava sob nova direção. O que veio depois foram 20 anos de ditadura, com cinco presidentes generais. Só em 1985 o Brasil voltaria a ter um presidente civil, o maranhense José Sarney.

A reação da esquerda

Quando começou, a ditadura prometia durar pouco. Todo mundo, de empresários a governantes, acreditava que, depois de um período de transição em que os ânimos fossem acalmados, os militares convocariam uma nova eleição. Quanto, em 13 de dezembro de 1968, o presidente marechal Costa e Silva decretou o Ato Institucional número 5 e fechou o Congresso Nacional, viu-se que a democracia estava longe de voltar. Foi aí que os movimentos organizados de oposição tiveram que escolher: ou desapareciam ou radicalizavam e partiam para a vida clandestina e o terrorismo. Começou então uma guerra suja, em que os dois lados cometeram erros. Ao sequestrar aviões, assaltar bancos, executar supostos inimigos e fazer atentados a bomba em lugares públicos, a esquerda revolucionária nem sempre acertou seus alvos. Por sua vez, os militares reagiram com prisões arbitrárias, tortura e morte. Um dos casos mais emblemáticos foi o do jornalista e professor Vladimir Herzog. Em outubro de 1975, convocado para depor no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, ele foi preso e apareceu morto em sua cela. Sua morte, cheia de indícios de tortura, provocou a mobilização da sociedade contra a tortura.

Sérgio Gwercman, Fernando Granato e Alessandro Meiguins


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