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Batalha de Stalingrado: A hora da virada

Neste dia, em 1942, começava a maior batalha de todos os tempos que mudou o destino da guerra – e, provavelmente, do mundo

Ricardo Bonalume Neto Publicado em 23/08/2019, às 08h00

Soldado russo jogando uma granada
Soldado russo jogando uma granada - Stalingrado

Napoleão dizia que: “O moral tinha mais valor que a mera força material”. Os russos provaram isso em Stalingrado. Mas antes de provarem isso, apenas uma lógica era clara para todos: Que os russos - então socialistas e soviéticos - tinham tudo para continuar perdendo a guerra. A cada vitória, os invasores alemães ficavam mais fortes e eles, mais fracos.

A Segunda Guerra Mundial não foi um conflito que envolvia sutilezas. Ganharam os que tinham mais bombas, mais canhões e mais bucha de canhão, soldados dispostos a matar e morrer. Mas, em Stalingrado, houve também uma vitória moral – vitória do moral, não da moral.

Em 1942, os russos já tinham perdido a quase inacreditável soma de 6 milhões de soldados, metade deles mortos, metade prisioneiros a caminho da morte por maus-tratos. Parte acabou aceitando servir de tropa auxiliar alemã para não morrer de fome. Milhares de tanques e aviões foram destruídos ou capturados.

A situação econômica era até mais grave. Nada menos que três quartos da indústria pesada soviética foram perdidos. Sem carvão, ferro e aço, como produzir novos tanques e canhões? A Alemanha tinha então quatro vezes mais capacidade industrial do que seu combalido adversário, segundo o historiador britânico Richard Overy, autor de um importante livro sobre o esforço de guerra da União Soviética, Russia’s War – Blood upon the Snow (A Guerra da Rússia – Sangue sobre a Neve).

A situação lembrava 1917, quando derrotas militares russas desintegraram seu exército, abrindo caminho tanto para uma vitória (temporária) alemã na frente oriental, como para a Revolução Russa. Mas, dessa vez, os alemães não estavam interessados em objetivos comuns de uma guerra, como território e riquezas.

O regime nazista detestava o comunismo e aqueles a quem chamava de “raças inferiores”, como os eslavos. E a URSS era a pátria do comunismo, povoada por eslavos.

Soldado soviético medindo um projetil alemão / Crédito: Getty Images

Em 1941, os russos tinham lutado pessimamente, enfraquecidos pelos expurgos promovidos por Stalin nas forças armadas, que tinham deixado no comando um bando de generais medíocres ou cautelosos, e por estratégias e táticas ainda piores. Quisessem ou não, em 1942, eles tinham de lutar melhor, pois estavam literalmente contra a parede – ou, no caso da cidade de Stalingrado, contra o rio Volga.

E os russos já sabiam que os nazistas de Hitler estavam querendo massacrá-los ou escravizá-los. Os planos alemães para um pós-guerra eram semelhantes ao que Esparta tinha feito na Grécia antiga. Uma classe de vencedores governaria sobre uma massa de servos e escravos.

Um dos resolutos generais soviéticos em Stalingrado, Andrei Yeremenko, sentiu na carne a ferocidade nazista. Sua mulher e filho mais novo foram mortos no ataque em 1941. Ele foi ferido sete vezes durante o combate por Stalingrado e chegou a comandar suas tropas de um leito de hospital. Outro general russo, Vassili Chuikov, também lutava em meio aos escombros, tendo, às vezes, que mudar seu QG de lugar por conta dos combates.

O soldado comum agiu do mesmo modo. Parte da razão era resultado de uma disciplina feroz. “Covardes” e desertores eram sumariamente fuzilados; estimam-se em 13.500 os russos fuzilados durante a batalha de Stalingrado (de um total de 158.000 em toda a guerra). Como comparação, basta dizer que apenas um soldado americano foi fuzilado por deserção na Segunda Guerra.

Nenhum britânico o foi, pois a pena de morte por deserção fora abolida no Reino Unido depois da Primeira Guerra Mundial, quando cerca de 300 soldados haviam sido executados pela ofensa.

Soldado russo e um soldado alemão refém de guerra / Crédito: Getty Images

 

Parte dessa determinação dos russos era também a sensação de que a luta com os alemães tinha se tornado um combate pela sobrevivência. Render-se significava apenas adiar a morte. O ódio a um inimigo brutal passou a ser um poderoso incentivo para continuar lutando.

O nome da cidade obcecava os dois líderes totalitários. Nenhum queria perder tal símbolo. Mas Stalin mostrou-se mais sensato do que Hitler, dessa vez. O alemão proibiu a seus militares qualquer retirada quando ainda era possível. O soviético ouviu conselhos e acatou as deliberações de seus generais.

Era o caso do brilhante Georgi Jukov, que tinha no currículo uma Blitzkrieg no padrão alemão, antes mesmo de os alemães a terem posto em prática (ele derrotara fragorosamente os japoneses, em 1939 na Mongólia, com suas colunas blindadas apoiadas pela aviação).


Saiba mais

A Nossa Segunda Guerra - Os Brasileiros em Combate, Ricardo Bonalume Neto, 1942-1945.