Matérias » Arqueologia

A impressionante reconstrução facial de um guerreiro germânico do século 4

Encontrado em um túmulo luxuoso, o poderoso líder militar era extremamente alto e forte; sua face foi revelada pelo designer brasileiro Cícero Moraes no ano passado

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 11/08/2021, às 17h16

Reconstrução facial do guerreiro germânico
Reconstrução facial do guerreiro germânico - Cícero Moraes

Na República Tcheca, em 1978, uma obra de pavimentação de uma autoestrada revelou uma descoberta arqueológica muito importante. Na época, trabalhadores estavam apenas modernizando a estrada que ligaria Praga e Pilsen, mas acabaram se deparando com algo muito maior.

Os operários foram, pouco a pouco, retirando artefatos históricos impressionantes de dentro de uma tumba ricamente adornada. No interior do túmulo estava uma espada de bronze com cabo de osso, joias, flechas, facas, um escudo, fivelas de bronze, e mais uma série de artefatos antigos e luxuosos.

Enterrado, estava ainda o esqueleto de um homem de 40 anos com 1,84 metro, o que era extremamente alto para o século 4 d.C., período em que viveu. O indivíduo ainda tinha um corpo muito forte, o que intrigou ainda mais os pesquisadores envolvidos na descoberta, que foi apelidada de ‘governante germânico da Boêmia do século 4’.

Esqueleto e artefatos encontrados no túmulo / Crédito: Divulgação/Museu da Boêmia

 

O esqueleto recebeu o nome devido ao estudo realizado pelo pesquisador tcheco Jiri Sindelar que apontou a presença de uma tribo germânica na região durante o século 4, período em que o homem teria vivido. 

Para Sindelar, “este é um caso muito interessante” pois “a tumba é muito rica. “Essa é uma exceção para sepulturas masculinas. Sabemos que nesse período eram mais comuns sepulturas femininas ricas. Aqui temos uma sepultura esquelética e uma complexa estrutura funerária. Tudo isso atesta o alto status social do falecido”, explicou o especialista, como repercutiu o jornal O Globo.

Além dos itens requintados, provavelmente romanos, descobertos dentro do túmulo, próximos ao esqueleto do indivíduo, a própria tumba já pode ser considerada luxuosa para o período histórico. Ela apresentava detalhes de madeira, um santuário e estruturas subterrâneas. 

Como lembra a publicação, o pesquisador e o arqueólogo Pavel Brichacek receberam uma proposta para escanear o crânio do homem enterrado e sua tumba. Com esse projeto, surgiu a ideia de outro: dar rosto à misteriosa figura por meio de uma técnica forense realizada pelo designer brasileiro especializado em reconstrução facial forense, Cícero Moraes.

A reconstrução facial

Processo de reconstrução facial / Crédito: Cícero Moraes

 

Moraes já revelou a face de uma série de figuras históricas por meio de reconstruções faciais, indo de Jesus Cristo a D. Pedro I, da múmia egípcia Iret-Neferet até, inclusive, este mesmo guerreiro germânico do século 4. O resultado final do trabalho foi apresentado ainda no ano passado. 

O projeto foi realizado com a equipe tcheca de pesquisas arqueológica Geo CZ, com a qual Cícero já havia colaborado desde 2016, com outros trabalhos forenses de figuras históricas e santos. O pesquisador Jiri Sindelar, inclusive, faz parte do time de estudos. 

Para conseguir dar rosto ao que antes era apenas um esqueleto, o designer recebeu o crânio e começou o processo. No entanto, como ele conta, a estrutura estava “bastante comprometida” e ele estava “todo quebrado”, além de “levemente deformado”.

“Tivemos que quebrá-lo todo digitalmente e remontar as peças como se fosse um quebra-cabeça em três dimensões. Ao final, fomos bem sucedidos, e o crânio estava pronto para revelar a face do guerreiro”, disse ao O Globo.

O crânio restaurado digitalmente foi fixado com pinos, distribuídos para mostrar a altura da pele em um programa de computador. Com uma série de linhas a partir da estrutura dos ossos, ele pôde ainda fazer a projeção dos lábios, nariz, e posicionamento dos olhos. 

“Tudo isso é fundamentado por uma rica bibliografia técnica. Em seguida, colocamos os músculos principais e depois fazemos uma escultura digital que fornecerá os parâmetros gerais da face do indivíduo. Por fim, pigmentamos o rosto com pintura digital e colocamos pelos e cabelos”, explicou Moraes.

A base de todo o processo é feita por meio do crânio, mas o que vem depois conta com bastante subjetividade, além de fatores históricos e sociais do indivíduo cuja face está sendo reconstruída. Um detalhe, por exemplo, é o cabelo do guerreiro germânico.

“Não temos ideia como era o penteado do cabelo desse líder militar. Mas é uma projeção e é o que temos de mais próximo do indivíduo”, destacou o especialista.


Saiba mais sobre o trabalho de Cícero Moraes por meio de seu site.