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O legado humanitário da Irmã Dulce

Conheça parte da trajetória da primeira mulher nascida no Brasil a ser canonizada

Raphaela de Campos Mello Publicado em 07/10/2019, às 08h00

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Reprodução

A comitiva do presidente Eurico Gaspar Dutra cumpria o roteiro pré-determinado em direção à Igreja do Bonfim, na capital baiana. Visita de praxe ao santuário. Ponto turístico. Fotografias para os jornais. Tudo dentro do previsto. Até uma aglomeração se formar, impedindo a passagem da carreata. Surpresa.

Uma freira franzina, acompanhada de 300 crianças, solicitava ser ouvida pelo dirigente da Nação. Com voz suave e olhar compassivo, rogou ao militar que fosse, simbolicamente, seu avô. Fora atendida. Sem demora, recursos federais aportavam nas obras assistenciais de Irmã Dulce (1914-1992).

A assertividade, traço de personalidade predominante na religiosa nascida em Salvador, destoava de sua aparência miúda, fragilizada pelos problemas respiratórios, que despontaram na juventude e se agravaram com o passar dos anos. Não tinha constrangimento algum em pedir pelos pobres e doentes.

Com uma mão, batia na porta de políticos, empresários e bem-nascidos; com a outra, acolhia e confortava os necessitados. Certa vez, conta o jornalista Jorge Gauthier, no livro-reportagem Irmã Dulce: Os Milagres pela Fé (Editora Autografia), a freira viu uma de suas palmas ser preenchida com o cuspe de um comerciante, que se recusava a contribuir.

Sem se abalar, o “Anjo Bom da Bahia”, como ficou conhecida, estendeu a mão limpa, explicando que a grosseria tinha sido a ela endereçada, mas que a outra palma continuava livre para receber a doação aos desvalidos.

“Firmeza de propósito”. “Vocação inabalável”. “Força sobre-humana”. Todas as expressões explicam a obstinação da religiosa em auxiliar a humanidade. Mesmo abatida, ela conseguia realizar o impossível. “A vida é breve. Por que não aproveitamos o tempo e buscamos uma vida de amor a Deus?”, a então noviça indagou à irmã Dulcinha numa carta datada de 1933.

No instante em que riscava o papel, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, filha de um dentista e de uma dona de casa, irmã de quatro, não imaginava que sua devoção e futura obra caridosa – além de dois reconhecidos milagres – seriam responsáveis
por cravar seu nome no álbum dos santos católicos.

A cerimônia de canonização da religiosa, prevista para acontecer no dia 13 de outubro, no Vaticano, será presidida pelo papa Francisco. E passará a se chamar Santa Dulce dos Pobres, a primeira mulher nascida no Brasil a receber tal honraria.

A vocação religiosa se mostrou aos 12 anos, quando a menina visitou uma favela acompanhada da tia. Não suportou testemunhar a miséria. Tinha de fazer algo. Decidiu, então, alimentar os pobres e cuidar dos enfermos na porta de casa.

Por isso, passou a ser chamada carinhosamente de Mariinha. Estava certa de que vestiria o hábito de freira, mas seu pai quis que se tornasse professora. Concluiu o curso. Bateu o pé. E, no dia 9 de fevereiro de 1933, ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, localizada no interior de Sergipe.

Seis meses depois, tornava-se oficialmente freira e assumia a alcunha Irmã Dulce, em homenagem à mãe, falecida quando a garota tinha 7 anos de idade, após dar à luz sua irmã Regina, que veio a morrer pouco depois. Um ano mais tarde, estava liberada para seguir sua missão humanitária em outras localidades. Por sorte, foi encaminhada para sua terra natal, onde iniciou um duradouro e gigantesco trabalho social.

Quem conviveu com Irmã Dulce diz que ela conjugava três papéis: mãe carinhosa, mas que sabia a hora de ser firme; administradora visionária; e religiosa disciplinada. Rezava dois terços todos os dias – um às 6 da manhã; outro às 3 da tarde –, além de sempre recorrer ao seu santo querido, Antônio, padroeiro dos pobres.

Fincada nesse tripé, ela fundou, em 1936, a União Operária São Francisco, primeiro movimento cristão operário da Bahia. No ano seguinte, a entidade se converteu no Círculo Operário do Estado, centro de cultura, recreação e proteção social das famílias da classe trabalhadora.

A manutenção da iniciativa era possível graças à arrecadação de três cinemas construídos com doações: Plataforma, São Caetano e, mais tarde, o Roma. Em 1939, inaugurou ainda o Colégio Santo Antônio, escola pública voltada para operários e seus filhos. Irmã Dulce não sossegava.

Saía pelas ruas acudindo doentes e famintos. Não esperava que eles chegassem até ela. Cada vez mais aflita, sem ter onde abrigar os miseráveis, fez história num ato de ousadia. Em 1949, ocupou o galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, adaptado para acomodar 70 enfermos.

Era o começo de um legado vigoroso em prol da saúde das classes desfavorecidas. Sua intervenção cresceu e, em 1959, recebeu o estatuto de Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). No ano seguinte, ela inaugurou o Albergue Santo Antônio, com 150 leitos.

Atualmente, a entidade filantrópica abriga um dos maiores complexos de saúde 100% SUS do país, com 21 núcleos e cerca de 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais realizados por ano na Bahia.


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