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Heteras: As únicas mulheres livres da Grécia Antiga

Conheça as mulheres que ofereciam prazeres amorosos e intelectuais a homens

Otávio Urbinatti Publicado em 12/06/2019, às 08h00

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Crédito: Wikimedia Commons

No centro do tribunal, uma das mais belas mulheres da Grécia Antiga estava entre a vida e a morte. Os conselheiros do Areópago, o tribunal ateniense, tinham em mãos o destino de uma semideusa acusada de impunidade, o que era motivo de traição para os moradores da cidade-estado.

Por sorte, Hipérides, um dos mais renomados oradores na Ágora (onde se realizavam as assembleias e reuniões públicas), foi convidado para defender a ré com mais um de seus sublimes discursos. O júri, no entanto, parecia não estar convencido e pretendia mesmo assim tomar uma decisão contrária. Seria o fim de uma divindade?

Um gesto desesperado do advogado levou a impiedosa para o centro, rasgou seu manto e expôs seus seios diante do plenário: a pele branca reluzida por todo o salão era um último apelo a tamanha beleza. A perfeição para os gregos era uma dádiva e, por compaixão, os juízes decidiram absolvê-la. Afinal, não se podia matar uma sacerdotisa de Afrodite, a deusa do amor, da beleza e sexualidade.

A cena descrita acima foi retratada pelo pintor francês Jean-Léon Gérôme, em 1861, na obra Friné Diante do Areópago. O óleo sobre tela sugere o julgamento de um dos nomes mais estimados entre os homens da Grécia Antiga. Phryne, ou Friné, foi uma mulher perdoada por carregar traços de Afrodite mesmo após introduzir crenças de outro deus em Atenas.

Embora não haja registros que comprovem a veracidade do episódio, Friné guarda um importante significado para a história da arte. Praxíteles, um dos mais famosos escultores da Grécia Antiga, teria supostamente usado seu corpo como modelo para a estátua Afrodite de Cnidos, uma representação nua da deusa do amor.

Ateneu de Náucratis, escritor, foi outro que eternizou seu nome em diversas de suas obras, contando diferentes anedotas sobre sua vida. Ela também aparece na ópera do compositor francês Camille Saint-Saëns (1893) e nos poemas de Olavo Bilac (1888), no Brasil.

Um debate entre Sócrates, Alcibíades e Aspásia, eternizado pelo artista Nicolas-André Monsiau / Crédito: Wikimedia Commons

 

Esses e outros fragmentos históricos revelam Friné uma figura encantadora que fazia parte de um grupo seleto de mulheres na Grécia, que despertavam a atenção não só pela beleza mas também pelo gosto erudito que tinham.

Mnesarete era seu verdadeiro nome. De origem humilde, há indícios de que ela teria nascido em Téspias e se mudado para Atenas em busca de melhores oportunidades, onde se envolveu no mundo aristocrata frequentando encontros literários e artísticos.

Nesse período, Friné carregava uma imagem muito distante do ofício feminino nas tradicionais famílias gregas. E, por essa intelectualidade, fazia o papel de amante e de amiga dos homens de elite, oferecendo prazeres além do sexual. Tal classe (de Friné e de outras mulheres com características semelhantes) ganhou o nome de heteras.

A sedução e o vinho

As heteras, cujo nome vem do grego hetairo, que significa “companheiro”, eram geralmente estrangeiras, vindas de fora de Atenas. Podiam circular livremente pelas ruas e não estavam necessariamente submetidas ao patriarcado do período. Muitas conheciam poesia, outras sabiam dançar e tocar instrumentos, mas, além de tudo, eram lembradas pelo charme e sedução.

Nessa época era normal o homem procurar relações extraconjugais como um complemento à sua vida erótica e emocional ou até mesmo como forma de preencher lacunas que, culturalmente, a esposa deixava. Os casamentos arranjados davam às mulheres o papel de gerar filhos legítimos à formação do Estado.

Isso quer dizer que as heteras dificilmente podiam se casar com cidadãos de Atenas e, sobretudo, dar à luz um filho legítimo. “Elas eram cortesãs que ofereciam envolvimento intelectual e afetivo e podiam, muitas vezes, controlar suas próprias vidas e viver com seus próprios recursos. Em troca de envolvimento, recebiam presentes e não pagamento em espécie. As heteras eram as mulheres livres da época”, define Pedro Paulo Funari, professor do Departamento de História da Unicamp.

Mais descoladas que as esposas, tinham uma personalidade que fazia com que os homens enxergassem nelas uma fonte de inspiração, enquanto suas mulheres ficavam reclusas e restritas aos deveres domésticos.

O autor do livro Mundo Greco-Romano: Arte, Mitologia e Sociedade (2005), Moacyr Flores, refere-se a um guia de valores das heteras: “Antes de tudo deves ignorar o sentido da palavra fidelidade e conhecer a arte de fingir e de mentir. Quanto à vergonha, ignore-a! E, se teu amante perder a paciência, finge arrancares teus cabelos e compra reconciliação com presentes”.

Ele ainda as descreve como mulheres vaidosas que não necessariamente eram fiéis aos amantes. A figura da hetera está associada principalmente aos simpósios gregos – reuniões masculinas que aconteciam dentro dos casarões. O encontro, realizado após a refeição, acontecia em uma sala exclusiva e era um momento de conversa e descontração entre os patriarcas.

Há estudos que indicam que as heteras eram convidadas para essas cerimônias e, na ocasião, ficavam encarregadas de servir o banquete e de proporcionar entretenimento aos homens como forma de estreitar os vínculos.

O Banquete é um diálogo fundamental na obra de Platão que traz como tema principal o amor e a amizade / Crédito: Wikimedia Commons

 

“A música, a dança e o vinho eram os principais ingredientes. Alguns homens sob influência da bebida poderiam lutar por uma cortesã. Muitos testemunhos iconográficos mostram cenas de banquete, de conversa amorosa e de momentos de sedução em que estas mulheres aparecem ao lado dos homens, vestidas ou nuas”, descreve Ana Lúcia Curado, professora e investigadora portuguesa da Universidade do Minho.

Há muita iconografia desse período, especialmente, em vasos de cerâmica com pinturas de mulheres segurando taças, vasilhas e flautas, algumas com conotações eróticas. Por muito tempo, acreditou-se que essas imagens retratavam o que de fato acontecia nos simpósios masculinos.

No entanto, muitos pesquisadores já entendem que essa simbologia eram fantasias sexuais com mulheres irreais, ou seja, não passava de uma representação sensual de como os homens enxergavam suas “companheiras”.

Além disso, muitos desses vasos foram encontrados fora da Grécia, sugerindo a ideia de que essas criações foram feitas apenas para alimentar um possível mercado de objetos.

Heteras x Pórnai

As heteras não eram prostitutas, como a História insiste em designá-las. Elas eram mulheres de amores livres, o que significa que elas não pertenciam a uma família  tradicional grega.

“Na retórica da elite, elas se confundem com prostitutas. Essa designação aparece nos escritos nostálgicos sobre Atenas Clássica de 700 anos depois, no século 2 d.C., e também em registros do século 19, por analogia às famosas cortesãs do demi-monde (eufemismo das cortesãs parisienses da época). O termo provavelmente se origina, de fato, como uma referência às mulheres ricas que gostam de festas, que eram conhecidas pelo luxo e que geralmente tinham mães estrangeiras”, esclarece Rebecca Futo Kennedy,
professora de estudos clássicos da Universidade de Denison, nos Estados Unidos.

Em Atenas, as prostitutas eram as pórnai. Estas, sim, viviam em supostos bordéis (ou, às vezes, na condição de escravas). Como era uma profissão legalizada, um grande número de mulheres trabalhava na região cobrando honorários modestos de uma clientela bastante variada e nem sempre afetuosa.

Em contrapartida, as heteras estavam envolvidas emocionalmente com homens ricos e influentes e mantinham relações mais estáveis do que as pórnai. “Como forma de cativar uma clientela mais seletiva e elitista, a hetera desenvolvia uma personalidade mais atraente e erudita. Ler, escrever e ter outras qualidades podiam constituir ferramentas úteis e fundamentais ao sucesso do seu negócio”, afirma Ana Lúcia Curado. Além das competências artísticas, essa educação era importante para reafirmar seu humor e sua habilidade de estabelecer o diálogo com os cidadãos.

As mais famosas e conhecidas cortesãs estiveram em Atenas. Muitas vezes, estavam ligadas ao nome dos seus amantes, alguns deles com grande influência na vida pública da cidade.

A lista inclui políticos, artistas, poetas e filósofos. Além de Friné, outras mulheres ganharam notoriedade ao longo dos séculos. Aspásia de Mileto, de acordo com o filósofo e escritor Plutarco, teria sido um dos nomes que mais contribuíram para a notoriedade das cortesãs em Atenas.

O autor conta que Aspásia recebia intelectuais em sua casa ao mesmo tempo em que formava jovens cortesãs. Ela era amante de Péricles, um dos estadistas mais importantes, ligado ao aperfeiçoamento das instituições e da democracia e que governou Atenas entre 444 a.C. e 429 a.C.

“Era sua segunda esposa e promovia reuniões filosóficas, sendo considerada uma mentora de Sócrates, com grande conhecimento filosófico. Aspásia também foi alvo de críticas por influenciar na vida política de Péricles”, conta o docente da Unicamp Pedro Funari.

Plutarco, filósofo e autor da biografia de Péricles, descreve em sua obra que a destreza intelectual, o saber político, a arte de sedução e o prestígio tornaram Aspásia uma mulher requisitada e estimada pelos homens do seu tempo.

Porém, tanto ela quanto as outras heteras e pórnai representavam mulheres com quem os homens não se casariam, já que isso desrespeitaria as leis atenienses. Nos termos históricos, a pórne (“prostituta” no singular) quase sempre foi referida como algo pejorativo e vulgar, especialmente nos jambos, um estilo poético ligado à comédia.

Já a hetera, embora pertencendo a outra classe, também aparece muitas vezes com conotação de prostituta, o que dificultava a interpretação da personalidade de cada uma.

Para esse impasse, entretanto, a pesquisadora norte-americana Rebecca Kennedy explica que deve-se levar em conta que trabalhar com a imagem feminina na Grécia Antiga é estar ciente de que ela foi feita sob a ótica dos homens.

“Quando se pensa nas mulheres ao longo da História e nos dias de hoje, sabe-se que não é só porque um homem chama uma mulher de prostituta que significa que ela seja uma delas”, afirma.

Para a professora de estudos clássicos da Universidade de Denison, essas mulheres até poderiam ter trabalhado uma vez ou outra prostituindo-se, mas também há indícios de que elas tenham atuado na execução de bordados, no comércio e até como babás.

Sob a ótica masculina 

A Grécia Antiga era formada por várias comunidades independentes e a sua história é contada principalmente por meio de três grandes períodos: Arcaico, Clássico e Helenístico. Em cada um deles, existem fragmentos que revelam traços do cotidiano e das relações interpessoais dos cidadãos.

No entanto, são poucos os documentos históricos que esclarecem, de fato, o verdadeiro papel e estatuto da mulher na sociedade. Ainda que haja registros em textos de religião e de literatura (como nas obras da poetisa Safo), os relatos quase sempre partem de um ponto de vista masculino.

No caso das heteras, que eram mencionadas como “companheiras de afeto” ou prostitutas, poderiam carregar histórias e passados muito diferentes.

Uma das biografias mais marcantes do período e que melhor descreve a situação de uma mulher no contexto de Atenas é atribuída a Neera, responsável por colocar em xeque a posição sublime das heteras.

A sua história está presente no discurso de Demóstenes no século 4 a.C., que a eternizou como uma figura promíscua. De acordo com o orador, ela teria tentado passar sua filha como cidadã legítima ateniense.

Neera foi uma prostituta de bordel quando jovem, comprada mais tarde por dois homens. Na condição de escrava, porém, ela exercia o papel de “companheira” e prestava serviços exclusivos a ambos, características determinantes das heteras. Após o pagamento de sua liberdade, no entanto, ela acaba se casando com um ateniense, Estéfano, e, nesse momento,

Neera descumpria duplamente a ética de Atenas: não era permitida a união entre um cidadão e uma estrangeira nem apresentar um filho que não nasceu de um casamento como legítimo.

O que se carrega desse relato, portanto, não é só a imagem negativa que a prostituta tinha naquele período, mas também demarca a fragilidade na fronteira entre as classes de mulheres da época, sobretudo entre as heteras e as pórnai.

Estudos recentes indicam que havia uma permeabilidade muito grande entre essas figuras femininas, mas a passagem de um estatuto para outro estava fora do alcance de qualquer uma.

O que provavelmente as colocava em outra categoria era a sorte de encontrar um homem para prestar serviços exclusivos. Compará-las era uma prática comum e, quando isso acontecia, as heteras eram ressaltadas pelo seu ativismo e pelo seu papel quase revolucionário na sociedade.

É evidente que a intelectualidade e a arte de sedução das heteras chamaram atenção ao longo da História, contudo, “deve-se tomar cuidado com essa imagem glamourizada. Ao dizer que eram mulheres livres, é preciso ter em mente que isso não significa que seguiam os mesmos valores que hoje entendemos como liberdade”, explica Enrique Carretero, mestrando em letras clássicas na USP, com foco na prostituição feminina grega.

Para o acadêmico, a hetera era definida como uma mulher que não precisava trabalhar em bordéis (como a pórne) nem era prometida aos cidadãos homens (como a esposa). Naquela época, o que parecia mais seguro à mulher grega, segundo ele, era levar o estatuto de esposa, visto que as demais viviam sob diversas restrições.

“Essa era a condição de menor vulnerabilidade na Grécia Antiga”, defende. Em comum entre elas está o fato de que a definição do feminino sempre foi feita por homens e de acordo com o que eles esperavam de cada uma delas ou de como as enxergavam naquele contexto.

Muitos dos fragmentos históricos, sejam iconográficos ou literários, estavam ainda associados a fantasias sexuais. E essa imprecisão torna, até hoje, enigmática a interpretação dos fatos, mas conserva importantes personalidades para história da humanidade.