Matérias » Guerras

Roncesvalles, um dos conflitos mais confusos da história

Uma briga de compadres deu início a uma confusão que, três séculos depois, inspirou as Cruzadas

Marcio Tracco Publicado em 02/01/2019, às 08h00

O exército foi presa fácil para os bascos
Nilson Cardoso

Um dos conflitos mais mal explicados da história das guerras aconteceu em Roncesvalles, quase na fronteira entre as atuais Espanha e França, nos primeiros séculos da Idade Média. A versão consagrada afirma que o Exército de Carlos Magno, o rei dos francos, foi atacado por muçulmanos – é o que registra a Canção de Rolando, texto considerado um dos fundadores da língua francesa. Na verdade, os francos foram atacados por outros cristãos, os bascos, furiosos depois de verem Pamplona, suacidade mais importante, destruída para não servir de base às forças islâmicas no futuro.

No dia 15 de agosto de 778, toda a retaguarda do exército de Carlos Magno foi dizimada por um grupo de montanheses bascos na Batalha de Roncesvalles. As hostes francas voltavam de uma mal-sucedida campanha que pretendia conquistar Zaragoza da mãos dos muçulmanos e dominar os Pirineus, a cadeia de montanhas entre a França e a Espanha, e o rio Ebro, que corta Zaragoza. O objetivo era criar uma região que servisse como uma barreira defensiva para proteger o reino dos francos das forças islâmicas de Al-Andalus, no sul da península Ibérica.

Na volta, a coluna passou por Pamplona. Temeroso de um ataque muçulmano, o rei dos francos ordenou que o Exército arrasasse suas muralhas. “Assim evitariam que o possível inimigo se refugiasse numa cidade fortificada”, escreve o historiador Carlos Alvar em seu livro Carlomagno en Zaragoza. A destruição de Pamplona teria motivado os bascos a planejarem sua vingança, levada a cabo num vale dos Pirineus, próximo à vila de Roncesvalles, a 8 quilômetros da fronteira com a França.

Por muito tempo, a batalha ficou conhecida como a pior derrota sofrida por Carlos Magno, mas essa versão tem sido refutada. “Carlos Magno mal sentiu essa derrota”, afirma José Luis Corral, da Universidade de Zaragoza. “A importância histórica é escassa, pois não significou nada na política do século 8. Já a literária é enorme, pois foi a inspiração da primeira cantiga de gesta européia e de inúmeros romances e relatos”, diz Corral, referindo-se à Canção de Rolando, escrita no final do século XI, supostamente por um monge normando chamado Turoldo.

Tática de guerrilha

Segundo esse poema épico, obra emblemática da literatura francesa, os responsáveis pela chacina dos soldados francos foram 400 mil árabes. Graças a essa obra, “Rolando se tornaria um dos mais famosos heróis literários do Ocidente, tendo matado milhares de infiéis antes de cair morto em Roncesvalles”, diz Alessandro Barbero em Charlemagne: Father of a Continent ("Carlos Magno: Pai de um Continente", inédito no Brasil).

Em relação ao que realmente aconteceu, o debate suscita mais perguntas que respostas. As principais fontes são os Anais Reais dos Francos, do século 9, claros em acusar os “vascones” como autores da cilada. O tamanho do Exército franco também é discutido. “As fontes não dão detalhes numéricos e por isso é preciso recorrer a cálculos aproximados. Acredito que poderiam ter entre 10 mil e 12 mil soldados ”, diz Armando Besga, da Universidade de Deusto, em Bilbao.

Corral duvida que superasse 5 mil homens, dos quais apenas 500 estariam a cavalo. Existe consenso apenas de que não foram os muçulmanos. Besga acredita que o ataque pode ter sido perpetuado por menos de mil homens, tão cristãos quanto os soldados de Carlos Magno. Para a história, pode não ter sido uma batalha épica, mas a literatura saiu ganhando – e a saga de Rolando, ainda que fictícia, ajudou a mobilizar os cristãos para as Cruzadas, três séculos depois.


Saiba Mais

Carlomagno en Zaragoza, Carlos Alvas, Disputación Provincial de Zaragoza, 1979