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Torturas e falsificações: 5 fatos sobre a cruel saga das crianças sequestradas pela ditadura militar

Com casos de raptos e desaparecimentos, o primeiro levantamento sobre a quantidade de vítimas só pôde ser concluído em 2019 — 34 anos após o fim do período

Wallacy Ferrari Publicado em 22/07/2020, às 09h17

Crianças são conduzidas em fileiras por policiais durante a ditadura
Crianças são conduzidas em fileiras por policiais durante a ditadura - Domínio Público

1. Casos confirmados

Diversas tentativas de relações sobre desaparecimentos na ditadura buscaram compreender o paradeiro de algumas das crianças coletadas por oficiais no período, inclusive no famoso levantamento do jornalista Caco Barcellos, concluído na década de 1990. Porém, o mais extenso levantamento foi publicado em 2019 pelo jornalista Eduardo Reina.

No livro ‘Cativeiro Sem Fim’, o escritor conseguiu identificar e situar 19 casos de sequestros e apropriações de bebês, crianças e adolescentes realizados por militares. Nas narrativas da obra, o autor ainda conseguiu localizar alguns dos raptados, já em idade adulta, e auxiliou nas buscas de suas famílias biológicas.


2. Arma contra guerrilhas

A maioria dos sequestros infantis ocorreram com um alvo em específico; a guerrilha do Araguaia. O movimento, que era de oposição ao regime, teve 11 filhos de membros da organização levados por militares entre 1972 e 1974, quando atuavam na Amazônia.

Crianças detidas e torturadas durante a ditadura militar no Brasil / Crédito: Domínio Público

 

A descoberta foi feita em parceria com o Instituto Vladmir Herzog, localizando a relação de casos de crianças raptadas com os organizadores da guerrilha por via de edições antigas de jornais a respeito do tema, além de diversas entrevistas e documentos que levaram aos identificados.


3. Mecanismo sul-americano

A forma como os raptos ocorreram no Brasil se assemelham com muitos outros sequestros realizados por ditaduras militares na América do Sul durante o século 20; separados de suas famílias, as certidões de nascimento das vítimas eram falsificadas em locais que abrigavam juntas militares, alterando datas, locais e responsáveis.

Em casos de guerrilheiros, especificamente, a ordem era de matar os filhos, mas em poucos ocasiões, o mandado não foi cumprido, conduzindo as crianças para novas famílias relacionadas aos militares, com o processo de adoção facilitado pelas falsificações. Quando não eram separados pelas famílias, eram usados contra os presos.


4. Usados em torturas

Por mais que, até os dias atuais, as Forças Armadas reconheçam as capturas, as instituições envolvidas nos casos evitam comentar sobre alguma relação com torturas, como explicou Eduardo Reina em entrevista à BBC: “Assim como se nega a prática da tortura e do assassinato nos porões do DOI-CODI, nas bases militares, nos quartéis e nas prisões".

Um dos registros de certidão de nascimento falsificados por militares / Crédito: Divulgação

 

De acordo com o levantamento, entretanto, muitos dos raptados foram usados como formas de pressionar os pais, sofrendo ou presenciando torturas para a obtenção de informações. Um exemplo é o caso de Carlos Alexandre Azevedo, capturado em 1974 antes de completar dois anos de idade, sendo torturado no DOPS de São Paulo.


5. Enganos sem volta

Um caso em específico, sem nenhuma relação com a guerrilha ou com a atividade contra a ditadura, chamou a atenção no levantamento; Juracy Bezerra de Oliveira foi raptado aos 6 anos por engano. Acreditavam que ele era Giovanni, filho de um guerrilheiro apelidado como Osvaldão. Para somar na crença, a mãe do garoto tinha o mesmo nome da companheira do guerrilheiro.

O garoto viveu com uma família em Fortaleza até os 20 anos, quando retornou ao Araguaia em busca dos pais, sem sucesso. Acabou descobrindo que o irmão Miracy foi levado por um sargento, sem nunca ter obtido contato posterior ao episódio. O verdadeiro Giovanni também foi capturado, mas Juracy não foi devolvido após a descoberta.


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