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Trono ensanguentado: O trágico fim das mulheres Romanov

De colaboradoras nazistas a espiãs da KGB, como sobreviveram as mulheres Romanov após a queda do Império Russo

Paulo Rezzutti Publicado em 09/04/2020, às 12h00

Irmãs Romanov
Irmãs Romanov - Divulgação/Klimbim

Nem o mais assustador dos filmes de terror produziria cena tão sangrenta. À meia-noite de 16 de julho de 1918, Yakov Yurovsky, comandante de uma unidade de dez soldados bolcheviques, acordou a família Romanov, que estava detida sob as suas ordens em um sobrado na cidade de Yekaterimburgo. O czar Nicolau II, ou Nikolai Alexandrovich Romanov, sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, as quatro filhas, o filho caçula e outras quatro pessoas que os acompanhavam foram levados até o porão.

Ali Yurovsky indicou a posição em que cada um deveria ficar e leu em voz alta a decisão do Comitê Executivo da região dos Urais em condená-los à morte. Nicolau II e os demais entraram em pânico. Mas não houve tempo para nada. Yurovsky atirou no peito do czar, que morreu instantaneamente.

Em seguida atingiu mortalmente a czarina Alexandra e a sua filha Olga, de 22 anos, e feriu Alexei, 13 anos, o mais jovem dos Romanov. Então, todos os soldados começaram a atirar. O pequeno porão ficou tão saturado de pólvora, que os atiradores foram obrigados a sair para não sufocarem.

Quando voltaram, havia sobreviventes. As irmãs Tatiana, 21 anos, Maria, 19, e Anastasia, 17, gritavam e choravam encolhidas contra a parede. Foram mortas a tiros e golpes de baioneta. Alexei, que agonizava, recebeu mais dois tiros na cabeça. Acabada a matança, os sete Romanov e seus quatro acompanhantes, entre eles o médico da corte, foram enterrados em um lugar secreto pelos bolcheviques. Seus restos só seriam encontrados décadas depois.

Perseguição

Até hoje não se sabe com certeza de onde partiu a ordem para o massacre da família real, embora um grande número de historiadores acredite que a execução foi autorizada pessoalmente por Vladimir Lenin, chefe da Revolução Comunista Russa de 1917. Em um macabro entrelaçamento de eventos, o irmão mais velho de Lenin, Aleksandr, foi enforcado em 1887 por ter participado de um complô frustrado para assassinar o czar Alexandre III, pai de Nicolau II.

Maria Feodorovna / Crédito: Wikimedia Commons

 

A violência da execução da família do czar não deixou dúvida alguma sobre o tratamento que os comunistas pretendiam dar à dinastia Romanov, que governou o país por mais de 300 anos. De 1918 até 1921, outros membros da família que não conseguiram fugir, como o grão-duque Miguel, irmão de Nicolau. Tios e sobrinhos do imperador também foram mortos pelos bolcheviques.

Se grande parte dos homens da família acabou perdendo a vida, as mulheres tiveram mais sorte. Catarina, a Grande, era alemã de nascimento, e, segundo o escritor e jornalista norte-americano Robert K. Massie, autor das obras Nicolau e Alexandra, The Romanovs, The Final Chapter e Catherine The Great: Portrait of a Woman, era “uma mulher que, por sua própria iniciativa, coragem e inteligência, assumiu o comando. Levantou-se contra os homens, levantou-se contra situações, o ambiente, o passado” e serviu de exemplo para as sobreviventes Romanov séculos depois de sua morte.

Uma dessas sobreviventes era a mãe do czar Nicolau II, a imperatriz viúva Maria Feodorovna, que só abandonaria o Império Russo em abril de 1919, quando Yalta, na Crimeia, onde se encontrava, foi evacuada diante da investida do Exército Vermelho. Maria era uma princesa dinamarquesa que havia chegado à Rússia em 1866 para se casar com Alexandre III. Irmã da princesa Alexandra, que se casou com o filho mais velho da rainha Vitória da Inglaterra, Eduardo VII, era tia do rei inglês George V.

Para socorrer a tia em apuros, George V enviou um encouraçado britânico para resgatá-la na Crimeia. Mas a czarina Maria Feodorovna, então com 72 anos, não queria ir embora da Rússia. Ela só embarcaria, afirmou, se todos os demais aristocratas e servidores que queriam deixar a cidade também fossem evacuados. O almirantado aliado, baseado em Sebastopol, não teve saída a não ser enviar diversos navios para o resgate.

“De graça e favor”

Assim como a mãe de Nicolau II, as irmãs dele, as grã-duquesas Xênia e Olga, também conseguiram escapar da Rússia. Xênia era casada com o primo, o grão-duque Alessandro, apelidado de Sandro, que esteve no Rio de Janeiro em 1880. Em suas memórias, publicadas já no exílio, ele se lembrava com saudades do Brasil. Xênia chegou com a mãe à Inglaterra, onde acabou se instalando graças à boa vontade do seu primo, o rei George V, que lhe cedeu “de graça e favor” uma das residências da coroa.

Olga, a caçula de Maria Feodorovna e do czar Alexandre III, casou-se em 1901 com o duque Pedro de Oldemburgo. Sobrinho-neto da imperatriz Dona Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa do imperador do Brasil, dom Pedro I. Petya, como Pedro de Oldemburgo era tratado na família, era viciado em jogos de azar e gastava o dinheiro da esposa. Era homossexual e nunca consumou o casamento.

Olga Alexandrovna / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1903, Olga conheceu o coronel Kulikovsky e resolveu se separar do marido. Entretanto, seu irmão, o czar Nicolau II, que administrava as questões familiares, afirmou que só daria a separação em sete anos. Pedro de Oldemburgo teve um gesto de nobreza: nomeou Kulikovsky seu ajudante de ordens, e este passou a morar na casa deles.

Vida na fazenda

Olga permaneceu na Rússia com seu marido e seus dois filhos. Somente em novembro de 1919 iniciou seu exílio, indo primeiro para a Bulgária, até que sua mãe pediu para que se juntasse a ela na Dinamarca. Ali, comprou uma fazenda nos arredores de Copenhague, onde viveram até 1948, quando foram obrigados pelo governo dinamarquês a sair do país, por pressão direta da União Soviética.

Isso ocorreu porque durante a ocupação da Dinamarca pela Alemanha durante a Segunda Guerra, Olga recebeu em sua propriedade diversos oficiais nazistas, sobretudo antigos militares do Exército imperial russo, que agora lutavam contra os soviéticos.

Com a invasão da Alemanha pelos russos, os britânicos, que mantinham um campo de prisioneiros com 50 mil a 60 mil russos, dos quais 1 430 eram ex-oficiais e soldados do extinto Exército imperial inimigos dos soviéticos, concordaram em entregá-los aos soviéticos. Olga apelou para o seu primo, o príncipe Axel da Dinamarca, tentando evitar que fossem enviados para a Rússia. Nada conseguiu, e muitos dos prisioneiros foram mortos quando voltaram ao seu país.

Xênia Alexandrovna / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com a campanha que armou, Olga só conseguiu de concreto chamar a atenção de Stalin e dos soviéticos. Em 1948, um alegado desertor russo que trabalhava na fazenda de Olga a denunciou à embaixada soviética em Copenhague e denunciou a grã-duquesa por mantê-lo à força na Dinamarca. Era o início da Guerra Fria, o governo soviético protestou junto aos dinamarqueses que solicitaram que Olga saísse do país. Ela foi para a Inglaterra e em seguida para o Canadá, onde morreu.

A princesa espiã

Natália Androsova foi outra Romanov que se destacou por sua existência cinematográfica. Tataraneta do czar Nicolau I, essa princesa nasceu Natália Iskander-Romanov em Petrogrado, atual São Petersburgo, em 5 de fevereiro de 1917. Durante a revolução, sua família mudou-se para Tashkent, capital do Uzbequistão.

Os pais de Natália acabaram por se separar: ele partiu para combater no Exército Branco. Com o fim da guerra civil, a mãe de Natália, dando o marido por morto em combate, devido à falta de informações, acabou indo com os filhos para Moscou. Lá se casou novamente, mudou o sobrenome dos filhos para o do novo marido, Androsov, e passou a morar em um apartamento no porão de um prédio, próximo ao Kremlin.

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Natália Androsova / Crédito: Wikimedia Commons

Somente aos amigos mais íntimos Natália revelava a sua origem nobre – e perigosa. Escolheu uma profissão incomum para uma princesa: tornouse motociclista profissional. Entrou para o clube atlético Dynamo, onde se tornou uma proeminente piloto de moto. Em 1939, um mecânico do clube tentou chantageá-la: se ela não dormisse com ele, revelaria à polícia secreta soviética que ela era uma Romanov. A resposta de Natália foi um ardido tapa no rosto do homem.

Em algumas semanas, agentes soviéticos convocaram-na para prestar depoimento na Lubianka, a sede da polícia secreta em Moscou. Deram a ela duas opções: ser morta imediatamente ou transformar-se em uma agente secreta. Com o codinome de Lola, a parente do czar ingressou na polícia secreta de Stalin.

A partir de 1942, retomou a sua carreira de motociclista, encerrada apenas em 1964. Viajou por toda a União Soviética apresentando-se com seu número “Voo Destemido”. O historiador Constantine Pleshakov, que a conheceu em Moscou, recordasse dela como “um espírito livre, uma rebelde, uma mulher excepcionalmente resistente, forte e carismática”.


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