Que raios o coelho e o ovo têm a ver com o martírio e ressurreição de Jesus?

Antigamente, acreditava-se que o coelho botava ovos - a explicação parte daí

Fábio Marton

A verdade é complicada | <i>Crédito: Pixabay
A verdade é complicada | Crédito: Pixabay
DÚVIDA CRUEL 

Você provavelmente já ouviu essa resposta: nada. São símbolos pagãos que a igreja teve de engolir. Mas a verdade é que a coisa é um pouquinho mais complicada que isso.

Ovos e coelhos são, sim, símbolos universais de fertilidade. A razão para haver uma correlação com o paganismo é época em em que a Páscoa cai. Jesus morreu no Pessach judaico, que daria origem ao latim e grego Pascha. Era e ainda é um festival que celebra a fuga dos hebreus do Egito. O Pessach tem uma data fixa: é celebrado todo o dia 14 do mês Nissan. Como o calendário cristão não bate exatamente com o hebraico, que é lunar, a Igreja determinou outro método, de forma que a Páscoa sempre caísse num domingo próximo a essa data original.

E essa data não é aleatória. Praticamente qualquer religião pagã do mundo celebra por essa época algum ritual de entrada da primavera, rememorando a fertilidade, o renascimento das plantas e a reprodução dos animais após o inverno. E, de fato, historiadores defendem que os ancestrais dos hebreus, antes de se tornarem monoteístas, praticavam rituais na mesma época, cujo sentido foi modificado para se adequar à nova religião. 

Entre os povos germânicos, essas celebrações eram feitas em nome da deusa da primavera, Eostre. Ainda hoje, Páscoa se chama Easter em inglês e Oster em alemão. Chegou-se a dizer que o coelho era o animal sagrado da deusa, mas hoje é uma teoria bem contestada (veja abaixo).

O ovo colorido é uma invenção incrivelmente antiga: um deles, encontrado na África, é de avestruz e data de 60 mil anos atrás. Egípcios e muitos outros povos da antiguidade também decoravam os seus, particularmente para celebrar a primavera. 

Os primeiros ovos cristãos surgiram ainda na Antiguidade, quando fieis da Mesopotâmia passaram a pintar ovos de vermelho, representando o sangue de Cristo. Eslavos, que também tinham uma forte tradição de pintar ovos, continuaram a fazê-lo ricamente após se converterem. Como os ovos estavam lá para ficar, os teólogos passaram a justificá-lo como um símbolo do renascimento de Jesus da tumba, surgindo vivo como um pintinho recém-nascido e deixando para trás uma casca (a tumba) vazia. 

O coelho, também um símbolo pagão óbvio, por ser um animal que se reproduz vertiginosamente, tem uma explicação bem mais convoluta. 

Antigos naturalistas como Plínio, o Velho acreditavam que coelhos podiam se reproduzir assexuadamente, botando ovos. Teólogos medievais passaram então a usá-los como símbolo da Virgem Maria, já que se reproduziam virgens. Isso foi parar na decoração de igrejas e até num quadro renascentista.  É possível entender o coelho, assim, como um verdadeiro símbolo cristão. 

No século 16, alemães juntaram o ovo e o coelho, já bem cristianizados, criando um análogo ao Papai Noel que só dava ovos para as crianças que se comportassem. Na época, era uma lebre, mais foi amansado para seus parentes domésticos. De lá, o Coelho da Páscoa foi exportado ao resto do mundo.

Que fique claro: por séculos, eram ovos de galinha cozidos e pintados dados na Páscoa. Muito bem-recebidos, pois ovos eram proibidos na quaresma, e os presentes eram parte do banquete de Páscoa. O chocolate só foi surgir no século 19.


Saiba mais
Why Easter is called Easter, and other little-known facts about the holiday, Brent Landau, The Conversation
The very strange history of the Easter Bunny, Katie Edwards, The Conversation


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