Ladrões de livros

Compulsão de serem donos de publicações raras fez com que eles roubassem e matassem com requintes de crueldade

Rodrigo Casarin

A psiquiatria adverte: amar livros de maneira obsessiva pode ser perigoso à saúde | <i>Crédito: divulg
A psiquiatria adverte: amar livros de maneira obsessiva pode ser perigoso à saúde | Crédito: divulg
Qual a diferença entre furtar uma flor e um banco? Para os olhos vendados da Justiça, ambos são crimes. A história mostra que, entre as várias espécies de desonestos, aqueles que furtam livros costumam se considerar – de maneira indefensável, diga-se – merecedores de absolvição. Isso por acreditarem que o objeto do seu incontrolável desejo, o livro, tem qualidades tão divinas e são fontes de um prazer tão único que preservá-los do abandono ou da má-utilização é justificável por qualquer meio que estiver à mão. Se para a lei eles não passam de ladrões de livros, na psiquiatria recebem o rótulo de bibliômanos, vítimas da bibliomania, uma desordem obsessiva-compulsiva que impele à acumulação descontrolada e exagerada de livros. 
A grande maioria deles, é certo, é incapaz de cometer qualquer ilegalidade. Mas nestas páginas estão exemplos de bibliômanos radicais, capazes de matar, com requintes de violência, para ter a primazia de possuir um exemplar raro ou único de um livro. 

DEZ MORTES
Um dos mais escabrosos crimes protagonizados por um desses ladrões foi o de dom Vicente, um monge espanhol do século 19. Aproveitando-se do fato de ser um homem da Igreja, o monge iniciou sua carreira desfalcando a biblioteca do próprio claustro onde estava confinado – e também de alguns outros mosteiros.
Seus superiores perderam a sua pista por algum tempo, mas dom Vicente reapareceria algum tempo depois em Barcelona, no comando de uma bem-abastecida loja de livros antigos. Contrariando a lógica do comerciante, ele costumava comprar muito mais livros do que vender. E quando comercializava os volumes, eram somente aqueles considerados menos importantes. Os raros, e os mais caros, abasteciam a sua coleção pessoal.
Sua grande obsessão era adquirir um volume de Éditos e Ordenações Proclamados pelos Gloriosos Reis de Aragão, como Regentes do Reino de Valência, de 1482. O volume, raríssimo, saíra da gráfica de Lamberto Palmart, o primeiro impressor da Espanha. Em 1836, dom Vicente foi informado de que um exemplar – que se acreditava ser o único – iria a leilão. Ele ofereceu todo o dinheiro que possuía, mas outro colecionador, Augustino Patxot, seu conhecido, deu o maior lance e levou a relíquia.
Dom Vicente se enfureceu. Deixou o lugar espalhando ameaças e protagonizou, pouco tempo depois, uma violenta vingança. Invadiu a casa de Patxot, estrangulou-o, roubou o livro e incendiou o lugar, deixando o corpo de seu rival carbonizado. A loucura não terminou aí. O monge trucidou, a facadas, nove pessoas que haviam participado da concorrência e, além disso, também lhes roubou livros de valor.
Preso, só aceitou confessar os dez assassinatos ao tribunal depois da promessa do juiz de que a sua biblioteca seria bem cuidada enquanto ele estivesse preso. Quando questionado por que não roubara dinheiro de suas vítimas, rebateu: “Porque não sou ladrão”. O monge não se mostrou arrependido: “Todo homem deve morrer, mais cedo ou mais tarde; já os bons livros devem ser conservados”. Condenado à morte, desesperou-se ao saber que na França havia outro exemplar de Éditos e Ordenações e remoeu essa mágoa até ser executado.

FORCA E DEPORTAÇÃO
Se não é exatamente uma surpresa que as autoridades tenham reagido com tanto rigor diante da loucura homicida de dom Vicente, outras punições no passado podem até parecer excessivas pela compulsão em roubar livros. Johannes Leycestre e sua esposa, Cedilia, por exemplo, roubaram um pequeno livro, cujo título se perdeu, de uma antiga igreja na Inglaterra no início do século 15. O regente da época, Henrique IV, decretou a punição: “Que seja pendurado pelo pescoço até que sua vida o deixe”. Menos dramática, mas também severa, foi a pena imposta ao alemão Elois Pichler, bibliotecário da Biblioteca Pública de São Petersburgo, na Rússia, que, entre 1869 e 1871, roubou mais de 4 mil títulos da biblioteca imperial. Condenado, foi mandado para o exílio na Sibéria.

ROUBO E EXPLOSÃO
Não que isso sirva de desculpa, mas para um bibliomaníaco não deve haver tortura pior do que trabalhar na seção de manuscritos de uma biblioteca de importância, como a Real Biblioteca da Suécia, e conseguir andar na linha. Anders Burius não resistiu à tentação e levou do trabalho para casa pelo menos 56 livros raros e únicos
nos dez anos em que trabalhou ali. Burius vendeu alguns para colecionadores nos Estados Unidos, quando uma das preciosidades roubadas, um volume datado de 1683, com mapas e a descrição em francês do estado da Louisiana, foi recuperado e sua origem rastreada até a biblioteca sueca. O bibliotecário confessou o roubo em 2004. Sua mulher pediu o divórcio após a revelação do crime. Burius foi preso. Em uma das vezes em que foi liberado em um indulto temporário, cometeu suicídio abrindo o
registro do gás, o que provocou uma explosão e destruiu seu apartamento.

FERRARI AMARELA
Outro ladrão que também acabou com a própria vida foi o inglês Raymond Scott, um vendedor de antiguidades. Famoso por sua excentricidade e pelo roubo, da Universidade de Durham, de um volume do First Folio, coleção de peças de William Shakespeare publicada em 1623. Foi preso ao tentar vendê-la. Cheio de anéis, vestido de Che Guevara, jogando champanhe nos jornalistas que acompanhavam o caso e vangloriando-se de ter uma Ferrari amarela, Scott foi condenado, em 2010, a oito anos de prisão. Cumpriria dois anos de cadeia, onde acabaria se matando.

03/05/2016 - 09:14

Conecte-se

Revista Aventuras na História
Coleção CARAS