Por que Malvinas?

35 anos atrás, uma guerra era feita para desviar a atenção dos problemas internos da ditadura Argentina

Juliana Sada e Rodrigo Valente

Destruição da fragata britânica HMS Antelope em 24 de maio de 1982 | <i>Crédito: Getty Images
Destruição da fragata britânica HMS Antelope em 24 de maio de 1982 | Crédito: Getty Images

Provavelmente nunca se travou uma guerra por um território tão remoto, ermo, isolado e insignificante do planeta. São duas ilhas principais, cortadas por um canal natural. Ao redor delas, se espalham centenas de outras menores. Para qualquer lado que se olhe, só se vê mar. O clima é gelado, úmido e ventoso; chove o ano inteiro, e a neve, apesar de pouca, também não tem data determinada para cair. São mais de mil quilômetros de um litoral recortado, com um interior montanhoso. A agricultura é praticamente inviável e a economia se baseia na pesca e na criação de ovelhas. Essas são as cobiçadas Falklands – o nome usado por seus donos, os britânicos. Ou Malvinas – como querem os argentinos, que jamais aceitaram essa posse. Nesta matéria, usaremos os dois. 

Há 35 anos tinha início um insólito conflito entre dois países que, na divisão mundial da Guerra Fria, estavam do mesmo lado, contra o comunismo. A Guerra das Malvinas (obviamente chamada “Guerra das Falklands” pelos britânicos) durou apenas 75 dias. Além das ilhas que dão nome ao confronto, estavam em disputa as minúsculas ilhas Georgia do Sul e Sandwich do Sul, que são ainda mais distantes do continente, próximas à Antártida.

Começou na madrugada de 2 de abril de 1982. Depois de um século e meio reivindicando a posse do território, a Argentina invade militarmente o arquipélago para retomar o que considera seu. Naquele momento, a ditadura militar argentina, encabeçada pelo general Leopoldo Galtieri, enfrentava o crescimento da oposição por conta da grave crise econômica e política que assolava o país.

Com a invasão das ilhas, o governo buscava se fortalecer com uma ação de grande apelo popular e nacional. “Havia a necessidade de encontrar um inimigo externo para solidificar a frente interna”, analisa Osvaldo Coggiola, professor de história contemporânea na Universidade de São Paulo, um argentino exilado no Brasil durante a ditadura. Anos antes, o regime havia utilizado a Copa do Mundo, realizada no país em 1978, como mecanismo de coesão nacional, para camuflar os graves problemas internos. Até hoje, a vitória argentina em casa é talvez o título mundial mais contestado de todos, com acusações de que a ditadura interferiu para que o time da casa levasse – inclusive numa suspeita vitória de 6 a 0 contra o Peru.

Na manhã de 2 de abril, as Falklands já haviam sido tomadas e, após a rendição, o governador inglês Rex Hunt foi enviado ao Uruguai, de onde embarcaria para Londres. Apesar da quase inexistente resistência, houve uma troca de tiros, e um oficial argentino, Pedro Edgardo Giachino, acabou morto. Essa foi a primeira baixa de quase mil que viriam. No dia seguinte, tropas argentinas desembarcam na Ilha Georgia do Sul, onde encontram resistência inglesa, rapidamente debelada.

Os dias posteriores à tomada das ilhas foram de aumento vertiginoso da popularidade do governo militar. Pelo menos duas vezes, multidões tomaram a Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. Da Casa Rosada, o ditador Galtieri discursou a um público eufórico. A população arrecadaria recursos para o combate.

Um leão provocado

A reação inglesa não demorou a vir. Do outro lado do Atlântico, o governo encabeçado pela primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher decidiu retomar as Falklands o quanto antes possível. Em poucos dias, uma poderosa força-tarefa deixava a Inglaterra para cruzar mais de 12 mil quilômetros de oceano, com um potencial bélico que naquela época era superado somente pelos EUA e pela União Soviética. Seguiam milhares de combatentes, cinco submarinos nucleares e mais de 100 navios.

A ditadura não esperava uma resposta tão decisiva. “A Junta Militar imaginou que os Estados Unidos, por interesse próprio e como contrapartida pela colaboração da Argentina na América Central [onde ajudou no combate a guerrilhas de esquerda], evitassem uma reação armada da Grã-Bretanha e esta se limitasse a protestos verbais”, pondera o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu artigo Guerra das Malvinas: Petróleo e Geopolítica. Para Coggiola, o governo militar “não contava que a aliança americana com a Inglaterra era mais importante para o governo Reagan do que a aliança com o governo argentino”.

Em menos de 20 dias os britânicos chegavam. Logo em 25 de abril retomariam facilmente as Ilhas Georgia do Sul e, então, iniciariam a batalha pelo arquipélago principal. 

Diferente do que deviam estar esperando, não seria um passeio no parque. Apesar de sua acachapante vantagem tecnológica, estavam a mais de 10 mil quilômetros de seu país. Já a base continental argentina mais próxima estava na cidade de Río Grande, a cerca de 700 quilômetros da capital das ilhas, Port Stanley – imediatamente rebatizada Puerto Argentino por eles.

O mês de abril termina na iminência de confrontos abertos e com as tropas britânicas já de prontidão. As tentativas de chegar a um acordo, empreendidas por Peru, Estados Unidos e Nações Unidas, pouco avançam. Até o papa João Paulo II apela pela paz. 

A guerra cava uma trincheira diplomática entre os Estados Unidos, que apoiou o Reino Unido, e os governos autoritários da região. A maioria dos países sul-americanos se posiciona a favor da Argentina, ainda que, na prática, só o Peru tenha se envolvido com maior intensidade. Posteriormente, se descobriu que o Brasil ajudou o vizinho com aviões de patrulha, caças a jato, equipamentos e pilotos. “Essa participação direta e indireta só não alcançou maior proporção porque o conflito logo terminou com a vitória da Grã-Bretanha”, afirma Moniz Bandeira. Por sua vez, à diferença de seus vizinhos, o Chile apoiou os britânicos, motivado, inclusive, por disputas territoriais com a Argentina no Canal de Beagle. A prova da simpatia sul-americana está no próprio nome como a guerra ficou conhecida: “Malvinas”, e não “Falklands”. 

Com o contingente argentino ocupando as ilhas, os britânicos determinam uma zona de exclusão de 200 milhas marítimas (370 quilômetros) ao redor do território: qualquer navio ou avião que entrasse nela poderia ser abatido. A primeira ofensiva britânica aconteceu no dia 1º de maio, com o ataque ao aeroporto de Port Stanley. 

A operação foi de enorme complexidade. Os imensos bombardeiros Vulcan partiam desde Ascension Island, outro território remotíssimo, no meio do Oceano Atlântico, a cerca de 6 mil quilômetros de lá. Não tinham a autonomia de combustível suficiente e precisavam ser reabastecidos durante o voo. Assim, para cada dois Vulcan que chegavam às ilhas, eram necessários cinco aviões-tanque. “Foi o ataque aéreo mais longínquo realizado até então na história mundial das guerras”, revela Coggiolla em seu livro A Outra Guerra do Fim do Mundo. O esforço logístico foi grande, mas o resultado, aquém do esperado: das 21 bombas lançadas, apenas uma atingiu a beirada da pista do aeroporto.

No mar, os britânicos teriam mais sorte. Com o aval de Margaret Thatcher, o submarino HMS Conqueror lançou, em 2 de maio, torpedos contra o segundo maior navio argentino, o cruzador General Belgrano. Fora da área de exclusão, o ataque foi inesperado e causou o afundamento da embarcação e a morte de mais de 300 tripulantes – praticamente a metade das baixas argentinas durante todo o conflito. Dois dias depois, viria a resposta argentina com a estreia dos mísseis antinavio Exocet. Da base de Río Grande, na Patagônia, decolaram dois aviões equipados com o armamento de origem francesa. Um deles encontraria seu alvo certeiro no navio destróier HMS Sheffield, que rapidamente ficou em chamas. Neste caso, o resgate foi de pronto e apenas 20 pereceram.

O “Dia D” 

A guerra voltaria a esquentar no fim de maio. No dia 21, as tropas britânicas iniciam a tomada por terra, com o desembarque das tropas na Baía de San Carlos. A resposta vem num pesado ataque aéreo argentino, que tornaria o local conhecido como “corredor das bombas”. O saldo final foi de quatro navios ingleses afundados, com cerca de 50 mortos, e, pelo menos, dez aviões argentinos abatidos. Apesar do desgaste da operação, os soldados ingleses conseguiram desembarcar com os suprimentos.

Na madrugada do dia 28 começaria a batalha pelas localidades de Goose Green e Darwin. Foram 14 horas de combates que terminariam com a vitória dos britânicos. E aqui a superioridade militar britânica se mostrou acachapante: 150 argentinos pereceram – além de mil soldados tomados como prisioneiros – e 18 britânicos. Com o passar dos dias, as tropas se aproximavam de Port Stanley. No início de junho, a guerra se aproximava do fim. Quase de saída, a Argentina realizaria o seu ataque mais mortífero: cerca de 50 mortos com o bombardeio dos navios logísticos Sir Galahad e Sir Tristam.

Os dias finais são marcados por violentos combates – inclusive algumas insólitas situações de corpo a corpo, com os britânicos avançando de baionetas, e os argentinos recuando diante dessa fúria medieval. No dia 14 de junho, os britânicos chegam a Port Stanley e os generais Jeremy Moore e Mario Benjamín Menéndez pactuam a rendição. O conflito termina com o saldo de quase mil mortos: 650 argentinos (cerca de 4% da tropa), 255 britânicos (menos de 1%), além de três civis. Cerca de 2 mil combatentes de ambos os lados foram feridos e mais de 11 mil argentinos terminaram capturados. Mas ainda haveria um dano colateral: o estresse pós-traumático. O suicídio entre veteranos é próximo ao total de mortos argentinos e ultrapassa as baixas britânicas no conflito.

A aposta de que a invasão das Malvinas reverteria a instabilidade política enfrentada pela ditadura militar não poderia ser mais equivocada. Logo após a rendição, o General Galtieri realiza um pronunciamento exaltando a pátria e a atuação dos combatentes, mas reconhecendo a derrota. Passados três dias, renuncia.

O regime militar ainda duraria um ano e meio. “A ditadura sofria uma profunda crise econômica e as greves estavam se multiplicando, então o fim do governo militar era apenas questão de tempo. A guerra acelerou os prazos”, afirma Coggiola.

Do outro lado do Atlântico, até o conflito, Thatcher enfrentava um baixo índice de popularidade. “Ela havia posto em prática as primeiras [e impopulares] medidas de privatização”, diz Coggiola. A vitória alavancou sua popularidade e foi importante para sua reeleição e permanência no cargo até 1990.

Os países só retomariam as relações diplomáticas em 1989. Apenas em 2001 um primeiro-ministro britânico, Tony Blair, visitaria a Argentina. Apesar da normalização da diplomacia entre os dois países, a disputa pelas ilhas persiste. Moniz Bandeira explica que “a Argentina nunca deixou de reivindicar soberania sobre as Malvinas como parte integral e indivisível de seu território, integrantes da província da Terra do Fogo, juntamente com a Antártica e as outras ilhas do Atlântico Sul, considerando que elas foram ‘ocupadas ilegalmente por uma potência invasora’”.


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