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Ainda menino, Fidel Castro já gostava de desafiar colegas bem mais fortes do que ele

Desde a infância, o futuro líder cubano já enfrentava outras pessoas que eram consideradas mais fortes. Entenda!

Lira Neto Publicado em 12/07/2021, às 14h56

Fidel Castro durante um Congresso
Fidel Castro durante um Congresso - Getty Images

Apesar das canelas longas e finas, o rapagão de 17 anos tinha um chute possante, de fazer tremer o goleiro adversário. Titular da equipe sub-18 do colégio Belén, o jovem Fidel – cujo apelido familiar era “Titín” – ajudou sua equipe a sagrar-se campeã da Liga Intercolegial de Futebol de Cuba. O moço tinha talento não só com a bola nos pés.

Com 1,83 m de altura, foi também o “cestinha do Belén”, celebrado por ter acertado três arremessos consecutivos de longa distância na final de um campeonato estudantil de basquete. Além disso, jogava beisebol muito bem. Dizem até que  esteve prestes a ser contratado por duas equipes americanas na década de 1940: New York Yankees e Washington Senators.

O que tinha de craque tinha de encrenqueiro. Ainda menino, já gostava de desafiar colegas bem mais fortes. Se levasse a pior, não se abatia. No dia seguinte, chamava o desafeto para nova sessão de catiripapos e ganchos de direita. Sim, porque Fideltambém estava se tornando aprendiz de boxeador. Nas horas vagas, dedicava-se à pesca submarina e ao tiro ao alvo – orgulhava-se de acertar urubus em pleno voo, a 300 m de altura. Outra diversão era escalar.

Se no gramado, na quadra e no ringue ele se destacava, nas salas de aula o jovem Fidel chamava atenção pela prodigiosa memória. De acordo com um de seus biógrafos, o jornalista Tad Szulc, sua capacidade de decorar textos era tão espantosa que, muitas vezes, os colegas de classe divertiam-se fazendo-lhe perguntas do tipo: “Fidel, o que está escrito na página 43 do livro de sociologia?”. Ele não era capaz apenas de decorar capítulos inteiros, linha por linha. Tinha a mania de arrancar e jogar no lixo as páginas lidas. Não precisava delas, alegava. Poderia recitar, de cor e salteado, qualquer trecho que lhe pedissem.

O nome do pai

Não se sabe o que há de exagero, ou mesmo de mitologia pessoal, nas reminiscências de velhos colegas que dão conta dessa admirável memória. Aliás, boa parte da vida particular de Fidel permanece assim, cercada de fábulas, mistérios e lacunas – obstáculos que continuam a desafiar os biógrafos. Até sua data de nascimento é alvo de controvérsias.

Fidel Castro / Crédito: Getty Images

 

Oficialmente, ele nasceu no dia 13 de agosto de 1926, embora conste “1927” numa
primeira certidão. O pai de Fidel, Angel Castro, foi o responsável pela alteração no documento original. Don Angel, como era conhecido pelos colonos de sua fazenda de cana-de-açúcar, na província de Holguín, aumentou a idade do filho para que pudesse ser matriculado mais cedo na escola secundária.

Fidel adotou o ano de 1926 como data oficial e terminou por enxergar no número 26 uma aura de predestinação: aos 26 anos, no dia 26 de julho de 1953, ele comandaria o ataque ao quartel Moncada, seu batismo como revolucionário. As reais circunstâncias do relacionamento entre don Angel e a mãe de Fidel são outro detalhe que a história oficial tratou de cercar de reticências.

Sabe-se que Angel Castro foi casado com uma primeira mulher, a professora MaríaArgota, com quem teve dois filhos, Pedro e Lidia (os meios irmãos mais velhos de Fidel). Mas pouco se diz – e menos ainda se escreve – sobre essa esposa que o quase cinquentão don Angel trocaria por uma humilde criada da fazenda, de apenas 16 anos: Lina Ruz Gonzalez, mãe de Fidel e mais seis irmãos.

Como já era casado, o pai inicialmente não pôde batizar os novos filhos, nem lhes legar o nome de família. O menino Fidel foi registrado como Fidel Casiano Ruz Gonzalez. Somente aos 15 anos, quando don Angel finalmente se divorciou de Argota, ele passaria a chamar-se Fidel Alejandro Castro Ruz, nome que assinaria para o resto da vida.

Educado na rígida disciplina de um colégio jesuíta, Fidel entrou na Universidade de Havana em 1945, na faculdade de direito. “Era péssimo estudante, nunca ia às aulas”, confessaria ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet, na série de entrevistas que daria origem ao livro Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes. Àquela altura, a política estudantil mobilizava as atenções do rapaz, que decidiu se ligar à ala jovem do Partido Ortodoxo.

Numa época de tensão política, na qual líderes estudantis andavam com armas escondidas debaixo das roupas, nasceu uma das idiossincrasias mais conhecidas de Fidel: a de fazer longos discursos. Sempre vestido com um paletó preto, era o orador mais contundente – e o mais prolixo – entre os colegas de universidade. Nada, contudo, que se comparasse à falação de quatro horas e meia que, em 1960, o colocaria pela primeira vez no Guiness Book por proferir o discurso mais longo da história da ONU. Vinte e seis anos mais tarde, em 1986, bateria sua própria marca, falando por intermináveis sete horas e dez minutos durante o Terceiro Congresso do Partido
Comunista de Cuba.

Líder revolucionário cubano Fidel Castro / Crédito: Getty Images

 

No segundo ano de faculdade, Fidel viajou até Bogotá, capital da Colômbia, para os preparativos de um congresso latino-americano de estudantes. Sua presença ali coincidiu com o assassinato do líder da oposição colombiana, Jorge Eliécer Gaitán. O
episódio deu origem ao “Bogotazo”, protestos que evoluíram para um ciclo de violência incontrolável. Fidel aderiu às manifestações e, empunhando um fuzil, sentiu pela primeira vez o gostinho de uma rebelião armada. "Foi a primeira vez que vi uma revolução popular”, diria anos depois.

Mulher e crianças

De volta a Cuba, Fidel Castro casou-se, em 1948, com a estudante de filosofia Mirta Díaz-Balart, uma loura de olhos claros e também militante estudantil. Com ela, teria um filho,
Fidel Félix Castro Díaz-Balart, o “Fidelito”. Quando se integrou à revolução, a ausência constante de casa e a dificuldade financeira da vida na clandestinidade fizeram o casamento entrar numa séria crise.

Amigos ajudavam a pagar as contas de luz do casal, o açougue e o armazém. Nessa fase
de aperto e intensa movimentação política, ele conheceu outra jovem e bela militante,
Natalia Revuelta, a “Natty”, com quem manteria um caso de amor paralelo. Natalia deu a Fidel uma filha, Alina, hoje exilada em Miami e autora de um livro de memórias no qual se refere ao pai como “tirano”.

A relação com a esposa se tornou insustentável quando o irmão de Mirta foi nomeado vice-ministro do Interior de Fulgêncio Batista, pasta responsável pelas ações da polícia secreta. Na prisão, logo após o ataque a Moncada, Fidel soube que a esposa recebia uma subvenção do ministério para as despesas domésticas. Após o rompimento, ele jamais voltaria a casar-se. “Como revolucionário, recuso-me a misturar família com política. Essa história de primeira-dama me parece ridícula”, justificou, em 2002, ao cineasta Oliver Stone, que filmava o documentário Olhando para Fidel.

Outras mulheres cruzariam seu caminho. Durante a guerrilha, Fidel conheceu Celia Sánchez, com quem viveria um de seus mais duradouros romances. Na condição de chefe da revolução vitoriosa, em 1961, foi apresentado a Dalia Soto, a “Lala”, de felinos olhos verdes. Teve com ela cinco filhos. Todos, assim como “Fidelito”, vivem discretamente em Cuba. Há notícias de pelo menos outros dois herdeiros, Jorge e Francisca, frutos de relacionamentos fugazes.

Na vida de Fidel, tudo foi assim, superlativo e nebuloso. Foi o líder efetivo com o mandato mais longo da História (os recordistas são monarcas sem poder). Ditou por quase meio século os destinos dos cubanos, resistindo à pressão exercida por dez presidentes americanos.

Sob o pretexto de manter a revolução intacta, reprimiu opositores, manteve
a imprensa sob censura e mandou centenas de dissidentes para a cadeia ou o paredón.
A história o absolverá?


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