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Ghoul: A canibal sedutora das Mil e Uma Noites

No folclore árabe, os ghouls (tinha também machos) eram monstros que disfarçavam de beldades para devorar os incautos

Maria Carolina Cristianini Publicado em 26/12/2018, às 09h00

Amina e Sidi em edição de 1930 das Mil e Uma Noites
René Bull

Seu nome era Amina. Essa foi a noiva arranjada pelos pais para Sidi Nouman. Até o dia do casamento, diante do imã, o noivo só conheceu seus olhos, a única parte da moça revelada por trás do niqab. Foi com extremo alívio que, na lua de mel, ele finalmente pôde ver sua pele. Amina era extremamente atraente.

A paz não durou. Já na manhã seguinte, Sidi notou que havia algo estranho com ela. Em sua primeira refeição, a noiva recusou qualquer alimento, satisfazendo-se com poucos grãozinhos de arroz. E assim continuou por todos os dias, ela sempre se dizendo cheia e satisfeita. Sidi passou a ser assombrado pela possibilidade de sua preciosa esposa morrer de fome. Até que, numa noite como outra, percebeu que ela desaparecia para a rua enquanto ele dormia.

Sidi então decidiu investigar. Fingiu dormir e seguiu a esposa em sua ronda noturna. O caminho foi dar direto no cemitério, onde ela foi recebida por um homem repugnante. Após uma conversa numa língua indecifrável, ambos se embrenharam por entre as tumbas. Até se postarem diante de uma e começarem a cavar. E a desembrulhar o corpo em decomposição. E, por fim, se refestelarem com ele.

Na mitologia árabe, o ghoul é um gênio diabólico que come carne humana Reprodução

A História de Sidi Nouman está nas Mil e Uma Noites. Amina era uma ghoul, um tipo maligno de jinn (gênio) – criaturas que, no islã, são dotadas de livre-arbítrio, e podem ser boas ou ruins. Ghouls, porém, estão no segundo extremo do espectro: são fihos do próprio Iblis, também conhecido por Shaitan – equivalente direto do Satã cristão.

Ghouls já eram parte do folclore árabe e persa antes do islã. Há inúmeras variações, a única coisa em comum sendo o fato de serem canibais. Geralmente disfarçados de mulher para seduzir e devorar os incautos no deserto. Em outras versões, podem assumir a forma do último que mataram. Ou de um animal, principalmente hienas.

Está no árabe ghul, de ghala (capturar, prender), e remonta ao monstro gallu, pertencente a uma classe de demônios do submundo da mitologia suméria e acádia.

A religião islâmica é ambivalente sobre a criatura. O Corão não faz menção, mas os hadith, livros com palavras e atos atribuídos a Maomé, mostram tanto o Profeta falando da criatura como algo que nunca existiu como dando conselhos para acabar com ela – como recitar um verso do Corão.

Outra possível defesa está em um golpe de espada – e um só, porque o segundo o faz reviver. Para os recém-falecidos, recomenda-se a prevenção contra a apropriação do corpo por um ghoul – ele teria apreço especial pelo fígado. É preciso manter vigília com sinos e gongos soando constantemente, pois barulhos altos espantariam a criatura.

Os ghouls ficaram conhecidos no Ocidente com a tradução de Antoine Galland de As Mil e Uma Noites para o francês, no início do século 18. Galland, porém, parece ter “colorido” a narrativa com toques próprios. Nos originais árabes, não há relação entre ghouls e cemitérios – eles são comedores de vivos. Amina parece ter surgido de uma amálgama entre a ghoul sedutora árabe e os vampiros ocidentais. Seria a versão de Galland que entraria para o imaginário ocidental, inspirando os zumbis do cinema mais que o folclore haitiano.