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Por que os sambas-enredo das escolas no carnaval eram tão sérios?

Vargas e a ditadura exigiram que o samba fosse construtivo

Antonio Neto e Fábio Marton Publicado em 02/03/2019, às 13h00

Samba-enredo costuma ter um tema didático e patriótico
Getty Images

Talvez "sério" não seja a palavra ideal para definir aquele espírito bem peculiar que permeia os sambas-enredo. Melhor dizendo, não a única. Sambas-enredo também podem ser vistos como didáticos, professorais, pretensiosos, elitizados, construtivos, patrióticos... Enfim, uma coisa que eles não são: descontraídos e engraçadinhos, como as marchinhas ou os sambas de estúdio. 

Isto não é nenhuma crítica, mas uma constatação: se o Carnaval pode ser caótico nos blocos e bailes, o que passa pelo Sambódromo é assunto sério. E isso tem razões históricas. 

Se hoje cada escola de samba escolhe o tema que bem entende, durante 60 anos, os enredos só podiam abordar assuntos nacionais. A ideia partiu do então presidente, depois ditador, Getúlio Vargas. Em 1935, ele fez um acordo com as recém-criadas escolas de samba (que já desfilavam pelo centro do Rio de Janeiro, então capital federal, desde 1929). Em troca de verba pública, as agremiações retratariam temas brasileiros. Três anos depois, isso virou regulamento oficial da União das Escolas de Samba, responsável pelo julgamento dos desfiles na época.

“No começo do século 20, os blocos e algumas escolas criavam seus sambinhas para satirizar os adversários”, afirma o historiador Nelson Crecibeni Filho, presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. “Getúlio tomou essa medida em nome do nacionalismo, para aproveitar a presença crescente da classe média no Carnaval.”

Por quase três décadas, os enredos se dividiram entre a exaltação da República e de seus presidentes e passagens da história do Brasil Império – embora, nessa época, ninguém quisesse se fantasiar de escravo ou índio. Pouco antes da ditadura militar, algumas escolas chegaram a ensaiar novos passos. Em 1957, no Rio, na era JK, o Salgueiro fugiu dos temas patrióticos e desfilou “Navio Negreiro”, primeiro samba sobre o tráfico de escravos – agora, mais profissionais, os foliões não ligaram de sambar vestidos a caráter. Ainda assim, o título foi para a Portela, com um samba sobre a côrte: “Legados de D. João VI”. O reconhecimento desse outro lado da história do Brasil só viria em 1963, com a vitória do enredo “Chica da Silva”, novamente com o Salgueiro. “Os compositores passaram a se preocupar mais com a veracidade da história para escrever a letra dos sambas”, diz Crecibeni.

Durante a ditadura, até as agremiações endureceram e adotaram o tom oficialesco em seus sambas-enredo. “Para lembrar a criação dos Correios em 1969, a Mangueira saiu em 1971 com o enredo ‘Modernos Bandeirantes’”, afirma Haroldo Costa, compositor, produtor musical e autor de 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. “Dois anos depois, a Beija-Flor tentou mostrar a preocupação dos militares com o ensino em ‘Educação para o Desenvolvimento’.”

No começo dos anos 80, no clima de luta pelo fim da ditadura, as escolas passaram a variar mais seus temas, homenageando figuras culturais e falando sobre movimentos populares. A guinada culminaria em 1989, com a Imperatriz Leopoldinense, que exaltou os 100 anos de República com o enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós”, um ícone da redemocratização e dos poucos-sambas enredos a ficarem para sempre na memória musical. Terminou campeã. 

O nacionalismo parece estar ficando para trás. Falar do Brasil hoje é opcional - em 2011, a Unidos da Tijuca cometeu a ousadia de desfilar com stormtroopers e Darth Vader na Sapucaí, em homenagem a Star Wars. Algo completamente incabível na era patriótica. Mas a História continua a ser um dos temas favoritos das escolas.