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Quando Irmã Dulce foi suspensa de suas atividades religiosas

Focada no trabalho social, a freira encontrou um obstáculo entre as suas irmãs da congregação

Raphaela de Campos Mello Publicado em 12/10/2019, às 00h00

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Divulgação

Quem conviveu com Irmã Dulce diz que ela conjugava três papéis: mãe carinhosa, mas que sabia a hora de ser firme; administradora visionária; e religiosa disciplinada. Rezava dois terços todos os dias – um às 6 da manhã; outro às 3 da tarde –, além de sempre recorrer ao seu santo querido, Antônio, padroeiro dos pobres.

Fincada nesse tripé, ela fundou, em 1936, a União Operária São Francisco, primeiro movimento cristão operário da Bahia. No ano seguinte, a entidade se converteu no Círculo Operário do Estado, centro de cultura, recreação e proteção social das famílias da
classe trabalhadora. A manutenção da iniciativa era possível graças à arrecadação de três cinemas construídos com doações: Plataforma, São Caetano e, mais tarde, o Roma.

Em 1939, inaugurou ainda o Colégio Santo Antônio, escola pública voltada para operários e seus filhos. Irmã Dulce não sossegava. Saía pelas ruas acudindo doentes e famintos. Não esperava que eles chegassem até ela. Cada vez mais aflita, sem ter onde abrigar os miseráveis, fez história num ato de ousadia.

Em 1949, ocupou o galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, adaptado para acomodar 70 enfermos. Era o começo de um legado vigoroso em prol da saúde das classes desfavorecidas. Sua intervenção cresceu e, em 1959, recebeu o estatuto de Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). No ano seguinte, ela inaugurou o Albergue Santo Antônio, com 150 leitos.

No entanto, a dedicação ilimitada ao trabalho social, custou caro.  Suas irmãs na congregação entenderam que a freira estava distante das rotinas da clausura e, por isso, ela passou, de 1965 a 1975, por um período de exclaustração, espécie de suspensão das atividades religiosas. No entanto, Irmã Dulce continuou usando o hábito.

Por outro lado, em 1988, seu nome entrou na disputa pelo Prêmio Nobel da Paz, por indicação do então presidente José Sarney. Seus esforços teriam sido reconhecidos à altura, não tivesse o russo Mikhail Gorbachev tomado a frente e angariado a láurea pela contribuição para o fim da Guerra Fria. Outra nobre demonstração de reconhecimento foi a visita do papa João Paulo II ao seu leito, cinco meses antes da sua morte.

Era a segunda vez que eles se encontravam em terras brasileiras. Na primeira, em 1980, o Sumo Pontífice tinha incentivado a freira a seguir comsuas obras, mas com uma ressalva: que ela cuidasse melhor da sua saúde.

No final da vida, bastante debilitada por um enfisema pulmonar, Irmã Dulce não se conformava em permanecer na cama, longe daqueles que careciam da sua ajuda e aconselhamentos. Não parava durante o dia e, à noite, ainda encontrava fôlego para rodar a cidade numa Kombi recolhendo doentes e levando-os ao hospital.

O “Anjo Bom da Bahia” finalmente descansou no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, no Convento Santo Antônio. Seu túmulo definitivo, a Capela das Relíquias, localizada no Santuário de Irmã Dulce, no bairro do Bonfim, em Salvador, para onde seus restos mortais foram transferidos, vive coberto de agradecimentos pelas dádivas alcançadas ao longo da sua vida.


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