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Benedito Calixto: Retrato da quartelada que fundou a República no Brasil

Obra do pintor paulista mostra o momento da Proclamação da República com zero romantismo

terça 13 novembro, 2018
Detalhe do quadro Proclamação da República, de Benedito Calixto
Detalhe do quadro Proclamação da República, de Benedito Calixto Foto:Wikimedia Commons

Em 1893, o paulista Benedito Calixto pintou um quadro singular. Cenas históricas costumam ser romantizadas quando se eternizam por um artista. Mas não esta: sem qualquer glamour, um grupo de pessoas minúsculas, numa praça empoeirada, celebra um evento misterioso, sem muita empolgação. Não há heróis nem cavalos rampantes. A cena é retratada uma mera quartelada.

Proclamação da República, de Benedito Calixto Wikimedia Commons

Em sua época, a Proclamação da República foi imensamente impopular. Para ter uma ideia, nas últimas eleições do Império, em agosto de 1889, os republicanos só haviam feito dois deputados. E 1893 era um ano particularmente infeliz para o novo regime: Floriano Peixoto enfrentava duas revoltas, a da Armada e a Federalista, governando como um ditador.

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Calixto, um autodidata, se tornaria famoso depois por outro tipo de pintura histórica, não de cenas, mas de indivíduos que se firmaram na identidade paulista, como o patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva (retratado em 1901) e o bandeirante Domingos Jorge Velho (1902). Ambos de momentos históricos anteriores à República.

Locação

 

O Campo de Santana, local onde ficava o Comando do Exército e também o Senado, a Casa da Moeda, a Prefeitura e a Estação D. Pedro II, era um pântano até o século 18. O nome oficial, que nunca colou, era Campo da Aclamação, pois ali havia sido – ironicamente – aclamado dom Pedro I como imperador.

Quartelada

 

O movimento começou com o marechal Deodoro convocando as tropas no Comando do Exército – o prédio grande que aparece à direita. Não eram as únicas tropas da cidade, mas não houve choque. Até o fim do dia, o imperador entregaria o governo aos republicanos, sem nenhuma tentativa de resistência.

Questão militar

 

Desde a Guerra do Paraguai, as Forças Armadas sentiam que estavam perdendo prestígio, com baixos salários e diversas humilhações vindas de civis no governo. Em anos recentes, o afastamento de dois coronéis pelo ministro da Guerra, que era civil, acabou empurrando os militares em direção ao republicanismo.

Sem tiros

 

A fumaça indica que os canhões haviam sido disparados. Mas essa foi uma revolução sem tiros: os conspiradores simplesmente ocuparam prédios e deram ordem de prisão a autoridades imperiais. Ou é uma licença poética ou eram disparos de festim, celebrando a proclamação do marechal Deodoro.

Herói relutante

 

Membro do Partido Conservador e amigo pessoal de dom Pedro II, o marechal Deodoro da Fonseca não queria derrubar o governo – ao menos não no começo. Ele foi convencido que havia uma ordem de prisão para ele – invenção do major Frederico Sólon. Então mudou de lado e bravou "Viva a república."

Sem povo

 

Apenas os militares têm faces reconhecíveis. Civis (se de fato são civis) se limitam a algumas poucas pessoas próximas das casas ao fundo, observando com indiferença. Nas imortais palavras do futuro ministro Aristides Lobo, “O povo assistiu bestializado à proclamação da República”.

Fábio Marton


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