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Sífilis teve seu epicentro em um mosteiro inglês, afirmam arqueólogos

Conheça a origem da doença epidêmica que preocupa o Ministério da Saúde com a chegada do Carnaval

Letícia Yazbek e Thiago Lincolins Publicado em 01/03/2019, às 12h50

Um dos esqueletos encontrados no local de escavação
Um dos esqueletos encontrados no local de escavação - Reprodução

A sífilis, doença venérea que pode levar a deformidades faciais, degeneração cerebral e morte, já foi chamada de "vingança dos índios". Muitos historiadores defendiam que ela fora introduzida na Europa a partir das Américas, pela tripulação de Colombo, já que a primeira epidemia na Europa aconteceu em 1495 e evidências amplamente aceitas em esqueletos na América mostram que estava aqui antes de Colombo. A "vingança" seria pelas doenças levadas pelos europeus, como gripe e varíola, que varreram mais de 90% da população nas áreas mais afetadas. Uma vingança desproporcionalmente fraca. 

Segundo reporta o Hull Daily Mail, uma escavação realizada em um monastério do século 13 na cidade de Hull, Inglaterra, pode enterrar essa hipótese. Ela revelou que a sífilis já estava na Europa mais de 100 anos antes.

Em 1994, arqueólogos descobriram no local os esqueletos de 245 pessoas, além de fundações de pedra, ferramentas, objetos de cerâmica e ossos de animais. Esses esqueletos pertenciam aos antigos moradores do convento e à outras pessoas que viviam no local.

A área de escavações em 1994 Reprodução / Hull Live

Cerca de 60% apresentavam alterações nos ossos da perna, característica da doença. Três esqueletos também tinham lesões em outras partes do corpo. Um dos esqueletos, que pertenceu a um homem, apresentava lesões no crânio. Ele teria vivido entre os anos 1300 e 1420, e morrido quando tinha de 25 a 35 anos.

Após os corpos serem enterrados na paróquia de São Carlos Borromeo
Reprodução/Hull Live

Obviamente, monges sifilíticos abrem a possibilidade para uma interpretação escandalosa. Talvez tenha sido o que aconteceu, mas não necessariamente. Sabe-se que no porto situado próximo ao rio Hull, os monges tinham contato com doentes e pessoas mais pobres - e marinheiros também. O trabalho de médico cabia aos monges, e eles tinham contato próximo com doentes. O porto, assim, pode ter servido tanto de porta de entrada quanto saída. 

E aí entra outra descoberta: nos caixões dos monges havia varinhas feitas com ramos de avelã. A interpretação dos arqueólogos é que fossem instrumentos de autoflagelação, prática muito comum então. Assim, os monges podem ter sido contaminados por suas feridas abertas e passado adiante a doença através de copos que ofereciam aos doentes, ou contato com suas feridas.

É importante notar que esta é uma teoria controversa e que a conclusão depende da análise por mais acadêmicos. Arqueólogos já afirmaram ter achado evidências de sífilis até em Pompeia. Essas pesquisas, no entanto, foram duramente criticadas por cientistas especializados.