Charles Darwin: uma entrevista

O maior revolucionário da biologia, em suas próprias palavras

Clarissa Passos Publicado em 24/11/2016, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

O naturalista em 1880, ao final de sua vida
O naturalista em 1880, ao final de sua vida - Domínio público

O naturalista inglês Charles Darwin foi criado como um lorde, mas prefere a linguagem coloquial para comentar o impacto de suas idéias e relembrar suas aventuras a bordo do navio Beagle

Charles Robert Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, na Inglaterra. Seu pai queria que ele seguisse a profissão dos homens da família, a medicina. Mas o curioso estudante, que colecionara insetos e pedras quando criança, não suportou a primeira cirurgia a que assistiu. O pai sugeriu, então, que se tornasse clérigo. No entanto, logo viu o rapaz embarcar como naturalista do barco inglês Beagle, cuja missão era mapear a costa sul-americana.

Resignado, o pai acabou fazendo investimentos que permitiram ao jovem não ter que trabalhar. Assim, Darwin pôde dedicar-se a pesquisar e desenvolver teorias. E que teorias! Com a publicação de A Origem das Espécies, ele concluiu que os seres evoluem por meio da chamada "seleção natural" - em que os indivíduos que nascem mais aptos às condições do ambiente prevalecem sobre os outros e passam suas características adiante. A idéia sacudiu o pensamento da época, acostumado a ver homens e animais como fruto da criação divina.

História - O senhor embarcou no Beagle aos 22 anos, em 1831, e viajou até 1836. A jornada forneceu a base das observações usadas para formular as teorias da evolução e da seleção natural. Mas A Origem das Espécies só foi publicado em 1859. Por quê?

CHARLES DARWIN - Minha filha, você pensa que uma teoria dessas surge assim, do nada? Não bastou embarcar no Beagle, dar um rolê pelos mares e continentes afora, olhar aí uma meia dúzia de passarinhos e tartarugas, voltar e tirar o homem da confortável posição de centro do Universo e rei da criação – que a Igreja se esmerou em lustrar por tanto tempo. Precisei desenvolver minhas idéias: cataloguei o que havia coletado, continuei observando os seres em seu meio e queimei muitos, muitos neurônios.

Pensei que o senhor fosse chegado ao linguajar da aristocracia inglesa, que se expressasse como um gentleman...

Ah, sim. Mas isso foi em vida, minha doce flor do campo. Depois que a gente bate a caçuleta e passa para o outro lado, fica mais relaxado, sabe?

Sei... Mas sigamos: o senhor esperava que sua teoria causasse tanta balbúrdia?

Lógico! Desconfiava seriamente de que o pessoal mais chegado à Igreja ia mesmo querer me pegar. E, naquela época, a teoria da criação representava muito mais que a simples idéia de que Deus criou o mundo e seus habitantes em seis dias e desde então a vida seguiu. Essa crença estava na base de quase tudo. Acreditar na evolução era coisa de ateu, revolucionário ou maluco.

O que achou da reação da sociedade?

Claro que a gente nunca espera se ver retratado com o corpo de um macaco, mas... Quer saber? Eu nem liguei para as caricaturas. Isso porque, antes de tornar públicas minhas idéias, pensei um bocado. Tive, inclusive, que superar minhas próprias crenças num Deus bondoso e benevolente, cuja expressão máxima seria a perfeição da criação. Conforme os anos foram se passando, uma coisa eu aprendi: o ser humano gosta de pensar que está acima dos animais, mas não é bem assim, não. Eu disse, em um dos meus livros, que “o homem ainda traz em sua estrutura fisica a marca indelével de sua origem primitiva”. Tô certo ou tô errado?

Como foi sua relação com o antropólogo, biólogo e geógrafo inglês Alfred Russel Wallace, que desenvolvia simultaneamente uma teoria semelhante à sua? Há quem diga que o senhor passou a perna nele...

Nada a ver. Ele foi um grande interlocutor e colaborador, trocávamos cartas. Isso acontece direto: mais de uma pessoa tem a mesma idéia ao mesmo tempo. Só levei a fama porque acabei publicando oficialmente antes dele.

Seu pai chegou a sugerir que o senhor virasse padre. O senhor acha que teria dado certo na carreira religiosa?

Imagina. Ia pegar mal à beça para um clérigo dizer que aquela história bíblica de “faça-se a luz” era uma papagaiada.

Como foi a viagem a bordo do Beagle?

Teve seus altos e baixos. Recolhi material suficiente para, depois, desenvolver uma teoria revolucionária. Por outro lado, eu enjoava que só vendo. E, hoje em dia, desconfiam que fui picado pelo barbeiro e contraí a doença de Chagas na América do Sul. Ninguém soube me curar, mas foi a viagem da minha vida.

O que o senhor acha dos debates atuais entre evolucionismo e criacionismo? E da teoria do design inteligente, que afirma que há uma inteligência superior por trás da evolução?

Cada um acha o que quiser. Mas é preciso que todos tenham acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade para escolherem como preferem responder à velha pergunta: “De onde viemos?”

Existe um prêmio, o Darwin Awards, que, segundo os organizadores, “honra aqueles que ajudaram a melhorar o gene humano matando a si mesmos”...

Ha, ha, ha! Boa piada, espero que não seja mal interpretada. Sei que algumas de minhas idéias foram bastante distorcidas pelo nazismo, por exemplo, que recorreu à seleção natural para fundamentar a eugenia. Isso me deixa fulo.

Sabe que correram boatos de que o senhor se converteu no leito de morte?

Besteira. Eu nunca fui ateu. Jamais neguei a existência de Deus. Só disse que a criação não ocorreu como a Bíblia prega. Minha esposa ficava meio ressabiada. Tinha medo de que minhas idéias impedissem a gente de se encontrar após a morte, no paraíso.

Falando no além, após seu enterro na Abadia de Westminster, em Londres, ao lado de Isaac Newton, seu filho declarou que imaginava as longas conversas que vocês dois teriam durante o descanso eterno. Sobre o que vocês falam?

Trivialidades, acredita? Nossa contribuição para a ciência já foi feita em vida. Agora, comentamos sobre o jogo do Arsenal ou trocamos receitas de peixe com batatas.


Saiba mais

Livro

A Origem das Espécies, Charles Darwin, Martin Claret, 2004 - Edição popular e com texto integral da revolucionária obra.

Autobiografia (1809-1882), Charles Darwin, Contraponto, 2000 - As memórias do cientista foram publicadas muitas vezes com rigorosa edição de sua família, que temia expor as conclusões anotadas por ele ao fim da vida. Esta edição em português traz o texto integral.

Site

charles-darwin.classic-literature.co.uk - Textos (em inglês) de várias obras de Darwin.