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Hoje na História: 17 anos do fim da Guerra Civil Angolana

Depois de 27 anos de conflito, o dia 4 de abril de 2002 marca a assinatura do tratado que trouxe paz ao país africano

André Nogueira Publicado em 04/04/2019, às 14h31

Guerrilheiros populares da UNITA em parada
Guerrilheiros populares da UNITA em parada - Divulgação

No momento em que Angola, através de uma guerra, conseguiu sua independência, outra já estava tendo início: a Guerra Civil. Travada entre distintos grupos que disputavam a hegemonia do poder no país, e associados a grupos de interesse econômico internacionais, o conflito foi um dos mais sangrentos do continente e um dos mais tardios, dado que a colônia portuguesa só atingiu sua independência em 1975.

Com o desenvolvimento do primeiro ano de guerra, os entes que formavam as batalhas começaram a se delimitar melhor, fazendo possível construir dois lados beligerantes. De um lado, associado a Cuba, Congo e os interesses soviéticos, está o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), grupo revolucionário marxista-leninista que, em 2002, venceu a guerra e tomou o governo do país. Do outro lado, vemos a participação da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), associada aos EUA, África do Sul e ao bloco ocidental, a União Nacional pela Libertação Total de Angola (UNITA), aliada à China, ao Zaire e mais relacionada com o terceiro-mundismo, e a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC), grupo separatista, alinhados contra o bloco comunista soviético.

Bandeiras de MPLA, FNLA e UNITA, respectivamente

 

A Guerra em Angola foi internacionalmente percebida como um show de horrores. Podendo ser dividida em três blocos menores (1975-1991, 1992-1994 e 1998-2002) interrompidos por frágeis tentativas de paz, a disputa ficou marcada por sua extensão absurda e pelas atrocidades ocorridas em meio aos esforços de guerra. Era possível ver em Angola, por exemplo, apoiadores de ditaduras sanguinárias pela África, milhares de dólares em artilharia e armamento em completo abandono, populações inteiras mortas no fogo cruzado entre os exércitos e/ou guerrilhas, crises de abastecimento, além do uso de diversas crianças como soldados-mirim por parte da UNITA. Mesmo com as tentativas de ajuda humanitária, a situação dos angolanos era de calamidade completa.

O processo de finalização dessa guerra foi longo e complicado. Algumas fases são delimitáveis e movimentos são observáveis no desenvolvimento da paz no país. Talvez o início do fim apareça com a saída de todas as tropas estrangeiras do país em 1989. Com isso, o elemento da influência dos interesses internacionais se dissolve no quebra-cabeça da guerra. Angola é um país rico em diamantes e petróleo, fazendo com que EUA e URSS (potências internacionais), China, Zaire, Congo e África do Sul (exportadores de petróleo e diamante) influenciassem na guerra segundo seus próprios interesses.

Outro movimento de mudança foi a passagem do ano de 1991 para 1992, quando há uma tentativa de reestabelecimento de um armistício e a reestruturação de um projeto de sistema democrático de escolhas políticas. Para tanto, FNLA e UNITA se reformulam para se estabelecerem como partidos políticos para a disputa eleitoral. A FNLA chega a abolir seu braço armado. Porém, a guerra continuará a partir de 1992, pois o MPLA não permite que a independência descambe para a reestruturação do sistema liberal que se apoia no sistema estadunidense. O braço revolucionário se mantem em guerra com a UNITA, mesmo que ambos fossem declaradamente socialistas (pois a UNITA, diferentemente do MPLA, era de um socialismo democrático anti-lenista).

Prédio em Huambo após ataque a balas (Wikimedia Commons)

 

Em 1994, há uma nova tentativa de armistício (Protocolo de Lusaka) que indicará que os grupos armados reestabelecessem a democracia e disputassem politicamente o poder. O protocolo foi uma tentativa de concertar o que não se foi realizado depois dos Acordos de Bicesse (primeira tentativa de armistício) e cria o Governo de Unidade e de Reconciliação Nacional em Angola, unidade institucional que equiparava as forças políticas que formavam o Parlamento, quando estipulado pelo primeiro acordo. O armistício só irá durar quatro anos.

De 1998 a 2002, temos a última fase da guerra, marcada na disputa pelo governo entre UNITA e MPLA, sendo que o último cada vez mais acumula o poder de vitória e a dominação da população em geral. Em 2002, como última resolução de guerra, militantes do MPLA conseguem matar Jonas Savimbi, líder e principal estrategista militar do bloco oponente. Já enfraquecida pelos anos de guerra, a UNITA se rende e, em 4 de abril de 2002, é declarada encerrada a Guerra Civil e se assina um Acordo de Paz imediato.

Após o fim da guerra, tenta-se estabelecer não só a paz, mas também a estabilidade de um Estado Angolano. A UNITA bane seu braço armado e se torna um partido político. O MPLA passou a governar Angola e alinha suas pretensões políticas à aplicação de uma forma de socialismo no país, mas nunca dissolveu sua face guerrilheira. A resistência dos separatistas de Cabinda mantiveram suas batalhas, mas não o suficiente para manter de pé a Guerra Civil. Até hoje o MPLA governa Angola, atualmente presidida por João Lourenço, político e militar.

Veículos militares abandonados pela UNITA (Wikimedia Commons)

 

Até hoje, é impossível contabilizar o número de baixas deixadas por essa guerra. Não há quase dados entre os partidos que se envolveram diretamente na disputa, além de certa negligência das nações estrangeiras que se envolveram no conflito e o fato de que a guerra durou quase 30 anos. Sabemos que o conflito deixou marcas incontornáveis entre os angolanos: as batalhas destruíram boa parte da infraestrutura do país, desestabilizaram as bases materiais da administração pública, os empreendimentos econômicos, o capital humano e até os centros de encontro religiosos do país. Até hoje o país tenta se reconstruir dos destroços de uma disputa que traumatizou toda a região do continente, influenciando no mundo político até da Namíbia, dos Congos, da Zâmbia e da África do Sul.