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30 mil discos arranhados a mão: Como a banda Blitz conseguiu lidar com a censura da ditadura

Com o AI-5 em pleno vigor, uma ideia foi colocada em prática como forma de protesto

Redação Publicado em 11/04/2021, às 10h00

Capa do disco de estreia da Blitz
Capa do disco de estreia da Blitz - Wikimedia Commons

Junto com a ditadura, as ferramentas de cerceamento a informação e ao entretenimento foram instaladas em âmbito de prioridade pelos militares na década de 1960. 

O Ato Institucional nº 5, popularmente conhecido como AI-5, permitiu que existisse uma agência estatal responsável por monitorar, "regularizar" e suspender a veiculação de qualquer tipo de material audiovisual em veículos de comunicação. Para se ter ideia, nem mesmo Adoniran Barbosa, com a icônica 'Tiro ao Álvaro', foi poupado pelos militares. 

A interferência era feita desde a publicidade e filmes, até programas de televisão e música. O último, em específico, contou com diversas estripulias de artistas para driblar a proibição de conteúdo considerado inadequado — desde o “cale-se” à ditadura na canção “Cálice” de Chico Buarque, até em trocadilhos menos politizados, como em “Feira da Fruta”, de Odair Cabeça de Poeta.

No surgimento do rock nacional para as grandes massas, uma banda foi responsável por dar uma abertura comercial e fonográfica ainda maior para outras bandas do gênero, falando de temas cotidianos durante o período final do AI-5. Contudo, teve de arcar com a censura do DCDP - Divisão de Censura de Diversões Públicas, como informou a Rolling Stone Brasil.

Aviso contido atrás do álbum de estreia da Blitz na tiragem inicial / Crédito: Divulgação

 

Parados na blitz

A banda Blitz lançava seu disco de estreia, 'As Aventuras da Blitz', contendo o sucesso "Você Não Soube Me Amar" e outras faixas que ocuparam as frequências de rádios musicais nos anos de 1982 e 1983, além de fazer parte de trilhas sonoras em novelas e inovar em clipes transmitidos no Fantástico, da TV Globo.

No entanto, o sucesso inicial e confiança da gravadora precipitou a prensagem dos vinis contendo as faixas da banda, resultando em um problema para a comercialização.

A censura considerou as duas últimas faixas do álbum — “Cruel Cruel Esquizofrenético Blues” e “Ela Quer Morar Comigo na La” — impróprias por conter o termo "bundando", um palavrão e trocadilhos com a palavra "peru".

A proibição da execução caiu como um balde de água fria ao conjunto, como revelou o vocalista Evandro Mesquita no programa Discoteca MTV, na extinta emissora paulista: "A gente sofreu uma porrada da ditadura e a censura na época era muito braba. [...] Mas aí, a gente teve a ideia de rabiscar a matriz do disco para passar aos nossos ouvintes a agressão que a gente sofreu".

Barato e bom

As tiragens seguintes poderiam ter cortado a faixa na prensagem, mas os primeiros lotes continham a canção. Dessa maneira, os seis membros se reuniram e, por horas, tinham como alvo 30 mil cópias, arranhando manualmente as duas faixas do LP — no mecanismo de vinil, é possível identificar as linhas de cada música por tratar-se de uma leitura analógica.

Ainda no Discoteca MTV, a vocalista Márcia Bulcão explicou que o rabisco tinha não apenas a intenção de ser inaudível na agulha de um toca-discos, mas ser visualmente vandalizado: “A gente já foi riscar para todo mundo ver que existiam duas músicas e elas foram censuradas. Foi uma coisa bem de protesto mesmo!”, explicou.

Vinil da Blitz riscado pelos membros e funcionários da banda / Crédito: Divulgação

 

Mesmo assim, a censura não foi párea para interromper o sucesso comercial do álbum, que de acordo com o portal de cultura do jornal O Globo, teve mais de um milhão de cópias vendidas.

As duas músicas ainda puderam ser ouvidas anos depois, quando a banda lançou uma reedição em formato de CD, já após a redemocratização do país.


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