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Tiro ao Álvaro: ditadura militar brasileira não poupou nem Adoniran Barbosa da censura

Uma das grandes músicas do típico samba paulista foi impedida por uma justificativa um tanto quanto inesperada

Fabio Previdelli Publicado em 14/03/2021, às 09h00

O compositor Adoniran Barbosa
O compositor Adoniran Barbosa - Divulgação

“De tanto levar frechada do teu olhar/ Meu peito até parece sabe o quê?”, com essas frases AdoniranBarbosa e Osvaldo Moraes escreveram uma das grandes músicas do típico samba paulista. A canção “Tiro ao Álvaro” já foi gravada por grandes nomes da música brasileira, como Elis Regina e os Demônios da Garoa.

Contudo, atualmente o que chama atenção é um dos comentários mais curtidos (até o fechamento da reportagem com 3 mil likes) através do vídeo da música disponibilizado na plataforma Youtube: 'E pensar que essa música foi censurada na época pela "falta de gosto" é inacreditável'.

É isso mesmo. Poucos sabem que o sucesso de Adoniran quase não aconteceu, já que a canção chegou a ser censurada pela ditadura militar.  

A censura musical 

Em 1º de abril de 1964, um golpe dado pelos militares derrubou o governo de João Goulart. Com isso, durantes décadas, Atos Institucionais passaram a impedir a população de ser livre. Contudo, não foi só em expor ideais políticos, também era um desafio conseguir se expressar artisticamente.  

Capinan em imagem de Divulgação / Crédito: Divulgação/ Victor Carvalho

 

Assim, para driblar a restrição e repressão dos militares, artistas tiveram que encontrar outros artifícios para manifestarem seus pensamentos. "Quando eu escrevia, tentando passar pela censura, tive que trabalhar com metáforas. É o caso de ‘Soy Loco por ti América’, escrita no dia da morte de Che Guevara”, relembra José Carlos Capinan, um dos principais letristas da Tropicália, em entrevista ao site Aventuras na História.   

“Eu também comecei a usar estratégias da linguagem poética para dizer coisas que, em certo ponto, eram fáceis de ficarem subentendidas”, completa o compositor. 

Adoniran proibido 

Apesar dessas técnicas e da sagacidade de muitos letristas, nem todas as músicas acabaram passando pela aprovação dos militares. É o caso de “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa. Em 1973, Adoniran teve algumas de suas canções vetadas, como explica matéria do Opera Mundi.  

Quando o Ato Institucional nº5, o AI-5, passou a vigorar, em 13 de dezembro de 1968, Barbosa temia que suas novas composições fossem censuradas. Assim, decidiu lançar um álbum com seus maiores sucessos, um grande compilado, explica o site Tenho Mais Discos que Amigos.  

Porém, foi pego de surpresa ao receber um documento oficial que vetava algumas de suas canções. Em “Tiro ao Álvaro”, de 1960, por exemplo, foi usado a justificativa de que a “falta de gosto impede a liberação da letra”. Afinal, a canção apresentava palavras que brincavam com a oralidade do paulista, como “tauba”, “automorve” e “revorve”.  

Como você pode ver no pedido de liberação abaixo, divulgado no site Memórias Reveladas, do Governo Federal, a resposta veio com palavras circuladas.

Como podemos notar, é claro que o contexto sociocultural da canção foi deixado de lado. Para ser liberada, Adoniran teria que reescrevê-la, sem os “erros” de português, o que a transformaria em “Tiro ao Alvo”. 

Pedido de liberação de "Tiro ao Álvaro" / Crédito: Arquivo Público

 

Assim, a música se juntou a “Samba do Ernesto”, “Já Fui em Brasa”e “O Casamento do Moacir”, ficando ‘esquecidas’ por um tempo, só voltando a serem gravadas quando os artistas puderam ser livres novamente.  

O que foi o AI-5? 

Emitido em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº5, mais conhecido como AI-5, inaugurou o período mais sombrio da ditadura militar brasileira. 

“O Ato era uma reedição dos conceitos trazidos para o léxico político em 1964. Restabeleciam-se as demissões sumárias, cassações de mandatos, suspensões de direitos políticos. Além disso, suspendiam-se as franquias constitucionais da liberdade de expressão e de reunião. Um artigo permitia que se proibisse ao cidadão o exercício de sua profissão. Outro patrocinava o confisco de bens”, explica Élio Gaspari no livro ‘A Ditadura Envergonhada’. 

O AI-5 também suspendia o habeas corpus, uma ferramenta legal que impede o Estado de realizar coação ilegal. Até a restituição desse direito com a revogação do AI-5, em 13 de outubro de 1978, o governo passava a ter o poder de prender cidadãos por tempo indeterminado, sem precisar sequer se dar ao trabalho de apresentar uma acusação contra eles. 

Ao longo desses quase dez anos, todo cidadão brasileiro estava sujeito a ser preso por 60 dias, sendo dez deles em regime de incomunicabilidade. Como efeito imediato do ato, 500 pessoas perderam seus direitos políticos; e 5 juízes de instância, 95 deputados e 4 senadores perderam seus mandatos. 


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