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Billy Sing, o atirador de elite da Primeira Guerra que morreu no esquecimento

O australiano foi um dos maiores snipers de seu tempo, tendo seus feitos replicados em jornais internacionais, mas isso não impediu que vivesse uma vida difícil depois do confronto

Caio Tortamano Publicado em 10/06/2020, às 08h00

O atirador de elite Billy Sing
O atirador de elite Billy Sing - Wikimedia Commons

Nascido na Austrália em 1886, filho de pai chinês e mãe inglesa, o miscigenado William Edward Sing, ou Billy Sing, sofreu com um certo pensamento preconceituoso acerca de chineses na Austrália daquele tempo. Por isso, nem mesmo a sua incrível habilidade de mira e caça era muito valorizada.

Quando jovem, trabalhou transportando madeira, depois em armazéns e cortando cana de açúcar. Apesar desses trabalhos, foi por sua pontaria que ele ficou mais conhecido, competindo em torneios de tiro ao alvo.

Em outubro de 1914, dois meses depois do início da Primeira Guerra Mundial, Sing decidiu se alistar para lutar pelo exército australiano. O preconceito com sua parte chinesa da família era imenso, e ele somente conseguiu servir pelo seu país depois que um oficial de recrutamento optou por ignorar esse fato, já que somente pessoas com ancestrais europeus poderiam servir.

A guerra

A sua carreira militar teve início na campanha de Gallipoli, onde atualmente se localiza a Turquia. Sua função era pôr em prática tudo aquilo pelo qual era famoso lá na Austrália, se tornando um atirador de elite.

Não era de sua natureza matar pessoas, sempre foi um rapaz pacífico, mas tinha um verdadeiro talento quando o assunto era sua mira. Um de seus amigos, Frank Reed, disse que toda vez que Sing sentia pena pelos turcos que ele matava, ele se lembrava dos primeiros dias de front, em que os inimigos atiraram sem dó em sua direção.

Porém, por mais que seu dever fosse matar o maior número de inimigos, seu código de conduta era rígido, ele nunca atirava em macas ou em algum soldado tentando resgatar feridos no campo de batalha. Isso não furtava o homem de atirar em soldados que já estavam agonizando com fraturas, muito próximos de morrer.

Rival

A fama de Billy cresceu de tamanha forma que um nêmesis surgiu. Abdul, o Terrível, era um grande atirador turco, que ganhou diversas competições de tiro antes de entrar para a guerra — uma trajetória muito parecida com a de Sing. Abdul foi encumbido de cuidar especificamente do australiano, o que seria de certa forma fácil, já que soldados turcos afirmavam ser fácil distinguir o tiro do soldado dos demais.

Analisando a trajetória das balas que atingiram as vítimas de Sing, Abdul conseguiu constatar — corretamente — que o atirador se posicionava no Posto de Chatham. Dias depois, um dos localizadores que trabalhavam para Billy afirmou ter encontrado um possível alvo. 

Quando mirou sua luneta para a posição indicada, o rapaz se deparou com o Terrível mirando diretamente para ele. Destemido, Sing não se acovardou e se preparou para atirar no turco, que começou seus disparos, não a tempo de matar Billy, que conseguiu acabar com o seu rival.

Porém, no mesmo momento, sua posição foi revelada para os inimigos, que começaram um ataque pesado contra o posto de onde estava atirando. Por sorte, o atirador conseguiu escapar com vida dos ataques.

Durante agosto de 1915, Sing acabou tendo que ser internado depois que contraiu uma gripe severa. No mesmo mês, um sniper já tinha acertado o ombro do atirador, que depois de pouco tempo já estava normal. Essa foi a única vez que Billy se machucou em Gallipoli.

Reconhecimento

Em setembro de 1915, Billy tinha acumulado 119 morte, sendo que em outubro do mesmo ano ele foi parabenizado por ultrapassar a marca dos 200 abates confirmados. O major Stephen Midgely estima que o australiano tenha alcançado um número próximo das 300 mortes.

O comandante das Forças Armadas da Austrália e Nova Zelândia (ANZAC), William Birdwood, ficou sabendo da reputação impecável do atirador, e resolveu passar um dia sendo o seu localizador para ver de perto a notória ação.

Com isso, Sing foi condecorado com a Medalha de Conduta Distinta, sua história e feitos ficaram conhecidos por toda Europa e América do Norte por ter saído em diversos jornais como um dos mais letais snipers do conflito.

Em janeiro de 1917, Billy Sing foi designado para combater no Front Ocidental, onde ele não foi tão bem sucedido combatendo, sofrendo com diversas feridas em decorrência da batalha. Hospitalizado na Inglaterra depois de um ferimento na perna, quando terminou seu período de internação ficou na Escócia para se recuperar.

Acabou conhecendo sua esposa, Elizabeth A. Stewart, filha de um cozinheiro da marinha real. Depois de um mês ao lado dela, teve que voltar para a França, mas não ficou muito tempo, devido aos ferimentos sofridos ao longo da guerra e as sequelas que tentativas de envenenamento por gás deixaram.

Volta para a Austrália

Por esse motivo, acabou sendo liberado do serviço militar, e voltou para casa em um submarino. Por mais que tenha levado tiros em seu ombro esquerdo, costas e pernas, aparentava uma condição boa de saúde, a não ser pelas ocasionais tosses que o gás ainda deixara nele.

Billy Sing de volta na Austrália / Crédito: Divulgação

 

O primeiro ofício que tentou ao voltar da guerra foi a criação de ovelhas, mas suas terras não eram de boa qualidade, então resolveu investir na carreira de minerador de ouro. Elizabeth não chegou a ir para a Asutrália, permaneceu em Edimburgo, na Escócia, onde teve dois filhos (nenhum com Billy), tendo falecido na década de 70.

Billy, por sua vez, morreu sozinho, em 1943, relativamente pobre — não conseguiu se firmar em nenhum emprego depois da guerra, e caiu no esquecimento.


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