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As cartas que Gandhi escreveu para Hitler

Com intenção sincera de evitar a Segunda Guerra Mundial, Mahatma Gandhi enviou duas cartas ao líder nazista

Joseane Pereira Publicado em 03/07/2019, às 08h00

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- Crédito: Reprodução

Algo que podemos aprender com a História é que os fatos se dão mais pelo contexto de uma época do que pela atuação de personagens. O surgimento de um Buddha, Jesus Cristo, Simón Bolívar, Adolf Hitler ou Gandhi só foi possível pelas particularidades de tempos e lugares, cujas circunstâncias os levaram a agir de determinada forma. 

Mas, como cada ser humano se relaciona com o exterior a partir de seu próprio mundo interno, essa constatação não retira a importância da ação dos sujeitos, que são transformados mas também transformam sua época.

E foi esse desejo de transformação que levou o grande líder indiano Mohandas Karamchand Gandhi, ou Mahatma Gandhi, a escrever duas cartas para o líder nazista Adolf Hitler, solicitando que ele refletisse sobre os atos violentos que praticava.

Mahatma, em sânscrito, significa Grande Alma. Principal liderança na luta dos indianos contra dominação britânica, Gandhi era um assíduo defensor da Satyagraha, forma não violenta de manifestação e ativismo político que implicava na desobediência civil e que influenciou líderes como Martin Luther King Jr. em sua campanha por direitos civis nos EUA. Para Gandhi, Satyagraha implica na vitória de batalhas com base na força da compaixão.

Primeira carta

A primeira carta de Gandhi foi escrita no dia 23 de julho de 1939, a menos de dois meses do início da Guerra. No texto, que demonstra deliberada humildade, o líder afirma que Hitler seria "a única pessoa no mundo que pode evitar uma guerra capaz de reduzir a humanidade ao estado selvagem".

O apelo não funcionou: no dia 1° de setembro de 1939 a Alemanha invade a Polônia em busca de expansão territorial, sendo essa a última gota de uma série de tensões acumuladas que deram início à Segunda Guerra.

Abaixo segue a tradução da primeira carta:

"Querido Amigo,

Amigos têm insistido que eu lhe escreva para o bem da humanidade. No entanto, eu tenho resistido ao pedido deles, porque sinto que qualquer carta vinda de mim seria impertinência. Mas algo me diz que eu não devo hesitar e que devo fazer meu apelo, qualquer que seja seu valor.

Está muito claro que você, hoje, é a única pessoa no mundo que pode evitar uma guerra capaz de reduzir a humanidade ao seu estado mais selvagem. Você deve pagar o preço de algo, por mais valioso que pareça ser? Você ouvirá o apelo de alguém que, deliberadamente, deixou de lado os métodos de guerra e obteve um sucesso considerável? De qualquer forma, peço desculpas antecipadas, caso tenha errado em lhe escrever.

Continuo, O seu amigo sincero, M. K. Gandhi."

Primeira carta de Gandhi a Hitler, de 1939 / Crédito: Reprodução

 

Nova tentativa

Um ano depois, em 1940, Gandhi envia uma carta muito maior que a anterior, demonstrando mais sinais de bravura do que de humildade. Nela, o líder político explica como funciona seu método de resistência não-violenta, praticado pelos indianos há 20 anos com o objetivo de se libertarem do domínio inglês. "Nós encontramos na não violência uma força que, se organizada, pode sem dúvidas unir-se contra as forças mais violentas do mundo", afirma o autor em determinado ponto.

A liderança de Gandhi no movimento de independência indiana se iniciou em 1921, conseguindo finalmente a liberdade do domínio imperial britânico em 1947 -- seis meses antes da sua morte.

Pelas palavras de Gandhi, os conflitos entre Alemanha e Grã-Bretanha são colocados sob a perspectiva dos povos do terceiro mundo, e escancaram as contradições de uma guerra que dilacerou muitos povos e nações. O pedido para que Hitler interrompa a guerra é foco central do texto, em um apelo feito em nome da humanidade.

Segue a tradução da segunda carta:

"Caro amigo,

O fato de eu me dirigir a você como amigo não é nenhuma formalidade. Eu não possuo inimigos. Minha ocupação na vida, nos últimos 33 anos, tem sido unir a amizade de toda a humanidade, tornando os homens amigos, independentemente de raça, cor ou fé.

Eu espero que você tenha o tempo e a vontade de saber como uma grande parte da humanidade que tem vivido sob a influência dessa doutrina da amizade universal enxerga suas ações. Nós não temos dúvidas com relação à sua bravura ou devoção à sua terra natal, nem acreditamos que você seja o monstro descrito por seus oponentes.

Mas seus próprios escritos e pronunciamentos não deixam margem a dúvidas de que muitos dos seus atos são monstruosos e incompatíveis com a dignidade humana, especialmente em relação a homens como eu, que acreditam na amizade universal. Isso pode ser visto na humilhação da Tchecoslováquia, no estupro da Polônia e na destruição da Dinamarca.

Eu estou ciente de que a sua perspectiva de vida vê tais espoliações como atos virtuosos. Mas nós temos sido ensinados desde a infância a considerá-los atos de degradação da humanidade. Por isso, nós não podemos desejar sucesso aos seus empreendimentos.

Contudo, nossa posição é única. Nós resistimos ao Imperialismo Britânico, que não é menor que o Nazismo. Se existe uma diferença, é no grau. Um quinto da humanidade está sob o domínio britânico através de meios que não serão tolerados. Nossa resistência a isso não significa um mal ao povo britânico.

Nós queremos convertê-los e não derrotá-los no campo de batalha. A nossa revolta contra o domínio britânico é desarmada. Mas, quer nós o convertamos ou não, nós estamos determinados a tornar o domínio deles impossível através de uma não cooperação não violenta. É um método indefensável em sua natureza. Ele é baseado no conhecimento de que nenhum espoliador pode chegar ao seu objetivo sem um certo grau de cooperação, determinação e compulsória da vítima.

Nossos dominadores podem ter nossa terra e corpos, mas não nossas almas. Eles podem ser os primeiros ao destruir os indianos – homens, mulheres e crianças. É verdade que nossa revolta pode não se elevar àquele grau de heroísmo e que um grau razoável de medo pode desanimar, mas esse argumento é irrelevante.

Pois, se um número considerável de homens e mulheres na Índia estaria disposto a sacrificar suas vidas se ajoelhando diante dos espoliadores, eles mostrariam o caminho da liberdade através da tirania da violência. Eu peço que você acredite em mim quando digo que você encontrará um número inesperado de homens e mulheres dispostos a isso na Índia. Eles têm recebido esse tipo de treinamento pelos últimos 20 anos.

Nós estamos tentando desde a última metade desse século nos livrar do domínio britânico. O movimento de independência nunca foi tão forte quanto agora. A organização política mais poderosa, o Congresso Nacional Indiano, está tentando chegar a esse objetivo. Nós alcançamos um nível de sucesso bem razoável através da não violência.

Nós estávamos buscando os meios certos para combater a violência mais organizada do mundo, que é representada pelo poder britânico. Você o desafiou. Ainda falta saber qual é o mais organizado: o alemão ou o britânico. Nós sabemos o que o domínio britânico significa para nós e para as raças não europeias do mundo. Porém, nós nunca desejaríamos o fim do domínio britânico com o apoio da Alemanha.

Nós encontramos na não violência uma força que, se organizada, pode, sem dúvidas, unir-se contra as forças mais violentas do mundo. Dentro da técnica da não violência, como eu disse, não existe a derrota. Trata-se de um “viver ou morrer” sem matar ou ferir. Ela pode ser usada praticamente sem dinheiro e, obviamente, sem a ajuda da ciência da destruição, a qual você levou à perfeição.

É incrível para mim que você não veja que isso não é um monopólio de ninguém. Se não forem os britânicos, algum outro poder certamente vai aprimorar seu método e derrotá-lo com suas próprias armas. Você não está deixando nenhum legado que trará orgulho ao seu povo. Eles não podem encontrar orgulho em um recital de atos cruéis, por mais bem planejados que tenham sido.

Portanto, eu apelo a você, em nome da humanidade, que pare a guerra. Você não vai perder nada levando todas as questões de disputa entre você e a Grã-Bretanha a um tribunal internacional de sua escolha. Se você tiver sucesso na guerra, isso não significa que você estava certo; isso irá apenas provar que o seu poder de destruição era maior, enquanto uma concessão dada por um tribunal imparcial mostrará, até onde é humanamente possível, qual parte estava certa.

Você sabe que, não muito tempo atrás, eu fiz um apelo a todos os britânicos que aceitassem meu método de resistência não violenta. Eu fiz isso porque os britânicos me conhecem como um amigo, embora eu seja um rebelde. Eu sou um estranho para você e para o seu povo. Eu não tenho a coragem de fazer a você o apelo que fiz para todos os britânicos. Não que isso não chegaria a você com a mesma força que chegou a eles; no entanto, minha atual proposta é muito mais simples porque é muito mais prática e familiar.

Nesta temporada, quando os corações dos povos da Europa anseiam por paz, nós suspendemos até mesmo nossa luta pacífica. É muito pedir a você que faça um esforço pela paz em um tempo que pode não significar nada para você pessoalmente, mas que deve significar muito para milhões cujo grito emudecido por paz eu escuto, pois meus ouvidos estão acostumados a escutar os milhões de mudos?

A minha intenção é dirigir um apelo conjunto a você e a Signor Mussolini, que eu tive o privilégio de conhecer quando estive em Roma durante minha visita à Inglaterra como um representante da Round Table Conference. Eu espero que ele a receba com as modificações necessárias."

Gandhi protagonizando movimento indiano pela não-violência /
Crédito: Getty Images

Infelizmente, nenhum dos dois apelos foi levado a sério pelos oficiais nazistas. A guerra e violência continuaram por mais cinco anos após a segunda carta, e mesmo tendo cometido suicídio, Hitler nunca demonstrou o abandono de suas ideias. Não é registrada menção alguma dos oficiais às cartas escritas pelo indiano -- ficando estas como um documento histórico que escancara ideologias e visões de mundo totalmente diferentes.