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Como fazíamos sem anticoncepcional?

Poções letais de metais pesados, amuletos mágicos e até testículos de ratos serviram para evitar a gravidez indesejada

quinta 6 setembro, 2018
Métodos insólitos foram usados desde a Antiguidade para prevenir a gravidez
Métodos insólitos foram usados desde a Antiguidade para prevenir a gravidez Foto:Shutterstock

 A vida sem anticoncepcional muitas vezes levava – e ainda leva – ao óbvio: filhos. O que não quer dizer que não se tenha ido bem além do coito interrompido – o pecado de Onã, pelo qual foi castigado com a morte pelo próprio Deus – para evitar o aumento da prole antes da chegada da primeira pílula, em 18 de agosto de 1960, nos Estados Unidos.

O desconhecimento de como a gravidez de fato acontecia fez com que teorias supersticiosas povoassem o imaginário e fossem passadas de geração a geração. Em Tales of Contraception (“Histórias da Contracepção”), o pesquisador Percy Skuy conta que, por volta de 2000 a.C., as chinesas eram encorajadas a beber óleo com  chumbo ou mercúrio para evitar filhos ou provocar o aborto. Funcionava: quem não ficava estéril morria.

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A relação entre o sêmen e a gravidez já estava clara para os antigos egípcios. Por volta de 1500 a.C., eles desenvolveram contraceptivos de barreira – que impedem a entrada do esperma no útero. Em um deles, as mulheres inseriam na vagina uma mistura quase sólida, feita de mel, carbonato de sódio e fezes de crocodilo. Pesquisas recentes indicaram que o cocô do réptil aumenta o pH vaginal, contribuindo para a ação contraceptiva.

Outra técnica egípcia da época era colocar na vagina um pedaço de algodão embebido numa pasta de acácia. Enquanto o algodão servia de tampão, a planta se transformava em ácido lático, com propriedades espermicidas comprovadas.

Mil e cem anos depois, Hipócrates recomendava sementes de cenouras selvagens como uma pílula do dia seguinte – capazes, hoje se sabe, de impedir a síntese de progesterona.

Mas a ajuda da natureza não freou as ideias exóticas. No ano 200, também na Grécia, o médico Soranus dizia às mulheres que prendessem a respiração durante o sexo para evitar que o esperma chegasse ao útero. E, na Europa da Idade Média, as mulheres eram aconselhadas a “amarrar os testículos de um roedor nas coxas antes da relação, ou pendurar o pé amputado do animal ao redor do pescoço”, como reconta a bióloga Janet Lieberman, autora de A Short History of Birth Control (“Uma Breve História do Controle de Natalidade”). Um tipo de amuleto, entre tantos outros testados com o mesmo fim, como grinaldas de ervas, fígado de gato e fragmentos de ossos de gatos. Também se achava que a gravidez seria evitada se a mulher urinasse no exato local em que uma loba gestante tivesse feito o mesmo.

No século 18, vieram preservativos feitos de tripas de animais. E já era 1870 quando Charles Goodyear inventou a técnica da vulcanização da borracha. Surgiam os primeiros preservativos parecidos com os atuais. Mas só a chegada do dispositivo de contracepção intrauterino (DIU), em 1920, e da pílula anticoncepcional, em 1960, aposentou de vez os amuletos e métodos antigos. Hoje, estima-se que mais de 60% das mulheres recorram à pílula.

Letícia Yazbek


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