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Como o golpe de 1964 levou o time da PM ao sucesso

Clube Tiradentes, formado por amadores da polícia militar, conquistou o profissionalismo — e a antipatia dos torcedores locais

José Renato Santiago Publicado em 20/05/2019, às 00h00

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A criação do Clube Tiradentes dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do Estado do Piauí, na capital do estado nordestino, Teresina, em 30 de junho de 1959, teve como objetivo criar um espaço de lazer para os policiais militares locais. Bancado por parte dos vencimentos desses policiais, cujo desconto era feito diretamente em seus holerites, o clube era mantido de forma satisfatória, sem que houvesse qualquer intenção de criar equipes que pudessem disputar competições esportivas.

Naquele tempo, o futebol local ainda era amador. Mesmo assim, o estádio municipal Lindolfo Monteiro costumava ter suas dependências lotadas pelos torcedores que acompanhavam os jogos válidos pelo campeonato estadual.

O futebol era considerado algo tão promissor na região que o profissionalismo acabou por ser implantado a partir de 1963, mais precisamente no dia 7 de julho, quando as equipes do Piauí e Caiçara fizeram a partida inaugural daquela temporada, com triunfo do Caiçara por 3 a 1. Ainda que, naquele dia, apenas 425 pessoas estivessem presentes para acompanhar a partida histórica, o futebol piauiense passou a viver um grande momento com grandes jogos protagonizados sobretudo pelos dois clubes mais populares, o River Atlético Clube e o Esporte Clube Flamengo.

Posteriormente, o próprio Piauí Esporte Clube passaria a atrair fãs entusiasmados. Ainda naquele ano, o River, campeão estadual, viria a ser o primeiro representante do estado em uma competição nacional, a Taça Brasil de 1963. A classificação conquistada para a segunda fase da disputa, após eliminar os maranhenses do Sampaio Corrêa, foi comemorada como se fosse um título, e colocou de vez o futebol piauiense no cenário nacional.

Quanto ao Tiradentes, o sucesso da iniciativa da criação do clube acabou por influenciar na fundação de outro Tiradentes, em 15 de setembro de 1961, no estado vizinho, o Ceará, clube mantido também pelos policiais militares locais, mas também sem qualquer interesse em participar de competições esportivas. Caberia ao golpe militar de 1964 mudar os objetivos traçados por esses clubes.

A partir de 1964, e com o passar do tempo, os militares passaram a aumentar seu controle sobre os estados brasileiros, por meio de várias atitudes. Muitas delas passavam da simples indicação de seus governantes, interventores federais, e visavam, principalmente, estratégias que potencializassem a aproximação do regime vigente junto à população. Nesse aspecto, o Tiradentes do Piauí serviu como um importante instrumento no estado.

Em 14 de setembro de 1966, Luís Castro Araújo, então presidente do clube, solicitou à Federação Piauiense de Desportos que o clube pudesse disputar competições de esporte amador. O pedido foi deferido em 3 de outubro e foi apenas um pontapé inicial para o que viria a se efetivar em 1972, a partir de iniciativa do coronel Canuto Tupy Caldas: a inclusão do clube, agora como Sociedade Esportiva Tiradentes, no campeonato estadual de futebol profissional.

Ainda que contasse como torcedores, em sua grande maioria, apenas policiais militares e seus familiares, logo em sua primeira competição profissional, o Tiradentes conquistou o título estadual, deixando para trás equipes tradicionais e donas das maiores torcidas do estado – o Flamengo, que buscava o tricampeonato estadual, e o River, o maior campeão local.

A conquista do estadual pela equipe da Polícia Militar, associada com a regra tácita vigente “onde a Arena vai mal, mais um time no nacional, onde a Arena vai bem, outro time também”, estimulada pelo governo militar em prol de seu partido, a Arena, levou o Tiradentes a ser convidado a participar do Campeonato Brasileiro de 1973, se tornando o primeiro representante piauiense na história da competição, disputada pela primeira vez em 1971.

Justiça seja feita, com boas contratações, o clube fez uma ótima campanha no campeonato nacional, enfrentando de igual para igual grandes equipes, tais como o Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e Atlético Mineiro, inclusive com uma vitória histórica sobre o Corinthians, por 1 a 0, em 16 de setembro de 1973. Nessa edição acabou em uma épica 19ª colocação, entre os 40 participantes, a melhor de uma equipe piauiense em toda a História, à frente, inclusive, do Fluminense e do Flamengo do Rio de Janeiro.

Os investimentos no clube se mantiveram nos anos seguintes, com mais duas participações nos campeonatos nacionais, em 1974 e 1975, um vice-campeonato estadual em 1973, o campeonato estadual nos anos de 1974 e 1975 e uma incrível invencibilidade de 33 partidas sem derrotas no futebol local.

O sucesso dentro de campo, no entanto, jamais conseguiu alavancar a simpatia dos torcedores locais, que não conseguiam desassociar o crescimento futebolístico do clube da situação política vivida em nosso país, a ditadura militar, e se mantinham fiéis às suas maiores paixões, River e Flamengo, principalmente.A antipatia popular era evidente, e por conta disso, a partir de 1976 houve uma sensível restrição nos investimentos do clube, o que foi sentido de imediato na performance no campeonato local.

A equipe voltaria a ser campeã estadual apenas em 1982, o que lhe valeu uma vaga no Campeonato Brasileiro de 1983, quando sofreu a maior goleada de todos os tempos nessa competição, ao perder por 10 a 1 para o Corinthians em partida realizada no estádio do Canindé, em São Paulo, no dia 9 de fevereiro de 1983. A última vez que o time da Polícia Militar conquistou o título piauiense foi em 1990. Desde então suas participações nas competições estaduais têm sido esporádicas.


Por José Renato Santiago, Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de
São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.