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Crueldade estudantil: há 40 anos morria o calouro Carlos Alberto de Souza

Estudante de jornalismo foi vítima do mais trágico episódio envolvendo trote de universitários em Mogi das Cruzes

Fabio Previdelli Publicado em 10/03/2020, às 16h00

Imagem ilustrativa de um trote universitário
Imagem ilustrativa de um trote universitário - Getty Images

O período universitário é um dos mais importantes e marcantes para qualquer jovem. Nesta fase, além da busca pela profissão dos sonhos, há também a importância na formação humana, no qual o indivíduo se torna muito mais consciente do ponto de vista social.

Como é de praxe em diversas instituições de ensino, a primeira semana de aula é quando acontecem as famosas integrações entre calouros e veteranos, popularmente conhecidos como trotes.

Atualmente, muitas Universidades adotaram os trotes solidários: que visam arrecadar bens ou fundos para instituições sociais ou, de alguma forma, fazer o bem ao próximo. Porém, nem sempre foi assim.

No passado, muitos casos extremos de abusos e agressões foram relatados durante esse evento. Um dos mais conhecidos foi o do estudante Edison Tsung Chi Hsueh, que morreu durante um trote da Universidade de São Paulo, a USP.

Porém, outro caso, muito mais brutal e chocante já servia de alerta muitos anos antes. Em 1980, o estudante Carlos Alberto de Souza, conhecido como Carlinhos, se preparava para ingressar no curso de Jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

Residente de São Miguel paulista, o jovem de 20 anos estudava na Praça do Correio, no Centro de São Paulo. Em 3 de março daquele ano, ele saiu do trabalho e rumou para a Estação Roosevelt, onde embarcou no Trem dos Estudantes, que era uma linha direta para o município paulista — fazendo uma breve parada em Suzano.

Ao todo, o trajeto durava em torno de 50 minutos. Já no terço final de seu percurso, o calouro foi abordado por um veterano do curso de Engenharia Elétrica da UMC. Segundo testemunhas, o formando insistia em cortar o cabelo de Carlinhos, que resistiu.

O futuro comunicador teria reagido e cuspido no veterano que, para mostrar sua autoridade, teria lhe desferido inúmeros socos e chutes. Como o próprio nome já sugere, o Trem dos Estudantes levava outros alunos à UMC, porém, ninguém fez nada para deter a cena de violência.

Quando a embarcação, enfim, chegou ao seu destino, Carlinhos estava deitado num canto do vagão, chorando. Ninguém o socorreu. Meio desorientado, ele desceu do terminal e caminhou até o campus.

Já na instituição, foi atendido por um enfermeiro que o encontrou no caminho. Carlinhos tinha inúmeros ferimentos na cabeça e logo foi encaminhado para o posto médico da UCM. Por lá, não permaneceu por muito tempo, sendo levado até a Santa Casa de Mogi. Apesar das agressões e machucados, seu caso não recebeu maiores atenções.

Na manhã seguinte, ele tomou banho sozinho e até serviu seu próprio café. Mas, poucas horas depois, ele teve uma intensa crise convulsiva e acabou internado na UTI com uma parada cardiorrespiratória. Segundo Jorge Chacon, médico que o atendeu, o estudante foi diagnosticado com traumatismo craniano.

Por consequência das complicações, ele teve que ser submetido a uma neurocirurgia. Porém, a intervenção não foi suficiente para salvá-lo. A vida de Carlinhos foi mantida à custa de aparelhos e no dia 10 de março, há exatos 40 anos, ele veio a falecer.

Dias depois, o corpo do calouro foi submetido a uma autopsia. A análise feita pelo médico legista Wilmes Gonçalves — que contou com a participação dos médicos José de Alencar Pinho e Marco Antonio Henriques — constatou que Carlos Alberto de Souza morreu devido a uma hemorragia cerebral traumática como consequência de um traumatismo cranioencefálico, que por sua vez foi provocado pela aplicação de instrumento contundente, aplicado mais de uma vez.

Segundo Maurimar Bosco Chiasso, delegado em Mogi das Cruzes à época e que acompanhou a autopsia de perto, o corpo de Carlinhos tinha ferimentos em várias partes da cabeça. O estudante foi sepultado dois dias depois no Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista.

Em sua memória, a União Estadual dos Estudantes e a União Nacional dos Estudantes estabeleceram a data como Dia Estadual de Luto; em Mogi, as aulas foram suspensas em todas as escolas. Carlos Alberto de Souza completaria 60 anos no próximo dia 11 de junho.


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