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Dia da Consciência Negra: Entenda a importância da data que homenageia Zumbi dos Palmares

O site Aventuras na História conversou com exclusividade sobre o tema, com o professor e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Estácio, Paulo Sergio Gonçalves

Penélope Coelho Publicado em 20/11/2021, às 00h00

Ilustração de Zumbi dos Palmares
Ilustração de Zumbi dos Palmares - Divulgação/Antônio Parreiras - ARTExplorer/ Domínio Público

“É chegada a hora de tirar nossa nação das trevas da injustiça racial” esta frase atribuída ao líder quilombola brasileiro, Zumbi dos Palmares, resume bem a ideia por trás deste 20 de novembro, data que marca o Dia da Consciência Negra.

O dia que relembra a morte de Zumbi, grande exemplo de resistência negra em solo brasileiro, também propõe reflexões sobre as condições das pessoas negras no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao portal Aventuras na História, o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Estácio e doutorando em Literaturas Africanas, professor Paulo Sergio Gonçalves, falou sobre o assunto para sanar dúvidas a respeito dessa data.

Imagem meramente ilustrativa / Crédito: Divulgação/Carlos Latuff 

 

Como surgiu

Segundo o professor, a lei Lei 12.518/11 criada em 2003, instituiu a data no calendário nacional, entretanto, não foi atribuída necessariamente a um feriado. De qualquer forma, leis municipais e estaduais de alguns locais do país determinaram que o dia fosse feriado.

Gonçalves explica que o Dia da Consciência Negra faz uma homenagem ao líder quilombola na data de sua morte, ocorrida no ano de 1695, como “resposta ou como resultado de uma série de reivindicações que marca as reflexões acerca das condições do negro em nossa sociedade”.

A homenagem à Zumbi acontece por sua importância histórica para o movimento negro, como exemplo de resistência e de luta pela liberdade de seu povo, como explica o especialista.

“Por ser um forte personagem de resistência e de enfrentamento das condições a que os negros eram acometidos, e também seu posicionamento a respeito dos possíveis acordos a serem feitos com os escravocratas”, revela Paulo Sergio.

A importância 

Além de relembrar a importância de Zumbi, o professor afirma que a data também é necessária para que exista uma reflexão da sociedade em geral, a respeito da população negra e do racismo.

“A comemoração do Dia da Consciência Negra é muito importante para refletirmos acerca das questões que dizem respeito a situação do negro na sociedade brasileira — o negro nas universidades, na política, a saúde da população negra, as políticas públicas —.  É um dia de reflexão e de discussões e de planejamentos de ações”.

Para o professor, principalmente no momento atual que o país enfrenta é ainda mais importante que se discuta esse tema, devido a falta de apoio e posicionamento por parte das lideranças políticas. 

“Discutir sobre racismo no Brasil sempre foi necessário, em particular neste momento atual [...] Infelizmente ainda temos negros em péssimas condições de vida que sofrem os reflexos do racismo Estrutural, Institucional e Recreativo, que são manifestações diferentes de racismo”, afirma.

Gonçalves continua:

“Precisaremos discutir ainda por muito tempo, enquanto a prática racista velada ainda servir de obstáculo para o negro brasileiro. Parece um retrocesso, mas vamos nos manter firme na resistência, pois, sempre repito: ser negro no Brasil é resistir todos os dias”.

Comemorações do Dia da Consciência Negra na Serra da Barriga / Crédito: Divulgação/LiadePaula/MinC Quliombo dos Palmares-AL 20/11/2015/Ministério da Cultura 

 

Próximos passos 

De acordo com o professor, a luta contra o racismo na sociedade brasileira ainda é longa, entretanto, para Paulo Sérgio algumas ferramentas podem ser fundamentais no combate a essa prática criminosa.

Entre elas, o especialista destaca o debate aberto sobre o tema: “É fundamental, por isso a existência dos NEABS, dos Movimentos Negros e de outros grupos que trazem à tona este tipo de problema é muito importante para que consigamos progredir”.

Além disso, Paulo pontua a relevância de projetos que buscam melhorar as condições de saúde da população negra e a política de cotas. Além da representatividade em grandes centros, cargos e espaços.

“A representatividade é uma ferramenta transformadora. Os negros nas universidades, nas escolas, nas indústrias, na sociedade, precisam se ver representados em lugar de poder e de intelectualidade”, afirma.

De qualquer forma, o professor pontua que na luta contra o racismo, alguns reconhecimentos são necessários para que as políticas públicas funcionem de maneira verdadeiramente efetiva:

“Primeiramente, para que haja um comportamento antirracista é necessário que o indivíduo não-negro (branco) reconheça que vivemos num país que possui uma estrutura social que oferece privilégios a eles. Só assim começaremos a ver resultados sérios para este problema social. Em seguida a isso, todas as políticas públicas tenderão a funcionar melhor”, finaliza.