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Domínio, ideologias, guerras e resistência: O país dos Viets

A história da nação também é marcada pela prosperidade

Odair Chiconelli Publicado em 03/03/2021, às 10h24

Jovens da nação
Jovens da nação - Imagem de Hulton Archive

No delta do Rio Vermelho, no Mar do Sul da China, os Viets criaram um país no século 7 a.C. com o nome de Van Lang, alterado mais tarde para Âu Lac e Nam Viet. Meio milênio depois, a China conquistou Nam Viet e o manteve sob seu domínio até o século 10, denominando-o Giao Chi, Linh Nam, Giau Chau, Van Xuan, An Nam, Tran Nam e Tinh Hai Quan, ao longo de mais de mil anos de ocupação, período em que impôs sua língua e cultura.

A estratégia chinesa de dominação incluiu a construção de estradas, vias navegáveis e portos, a introdução de métodos de irrigação, arados de metal e animais de tração, bem como técnicas de mineração.

Além de obter mão de obra para trabalhos forçados e matérias-primas, o interesse chinês se concentrava no delta do Rio Vermelho, com suas terras férteis e posição estratégica como escala para seu comércio marítimo com a Índia, as Índias Orientais (atual Indonésia) e o Oriente Médio.

A era Dai Viet

Em 939, o general Ngo Quyen expulsa os chineses, funda a dinastia Ngo e muda mais uma vez o nome do estado para Dai Co Viet. Nas dinastias seguintes, Dai Viet, o mais novo nome do país, vive sua era de ouro com a modernização da agricultura, obras de irrigação e a construção de um dique no Rio Vermelho.

A introdução da escrita Nom, baseada em caracteres chineses, possibilita o desenvolvimento da educação, ciência, cultura, arte e direito. Thang Long – mais tarde Ha Noi – torna-se a sua capital.

Os séculos 12 e 13 são marcados por conflitos com o reino indianizado de Champa, na costa central, e com o Reino do Khmer (atual Camboja), a grande potência do sul da Ásia à época.

Entretanto, seu maior desafio continuava no norte. Tendo conquistado a China em 1279, os mongóis tentam retomar o controle do delta do Rio Vermelho com um exército de 300 mil homens, mas são bravamente derrotados pelas forças do general Tran Hung Dao.

No século 15, o soberano deposto da dinastia Tran pede ajuda à China para retomar seu
trono, uma oportunidade perfeita para a dinastia Ming invadir Dai Viet, alterando seu nome novamente para An Nam, o “Sul Pacificado” na visão chinesa.

Em 1428, após dez anos de lutas, os chineses são derrotados por Le Loi, o líder da resistência que se torna o novo soberano, dotando Dai Viet de um sofisticado código legal, além de modernizar a agricultura e promover a educação e as artes.

Le Loi e seus sucessores promovem também a distribuição de terras. Entretanto, devido ao crescimento da população e à quantidade limitada de terras no norte, a dinastia Le busca a expansão do território do país em direção ao sul.

Entre 1471 e 1757, conquista o reino de Champa, partes do Reino do Khmer, no delta do Rio Mekong, bem como a maior parte da costa sul. A partir do século 16, Dai Viet enfrenta divisões internas com sérios conflitos entre as dinastias do norte e do sul.

Aproveitando-se do caos político e da guerra civil, a China tenta nova invasão em
1788, mas é novamente derrotada. No mesmo ano, o general Nguyen Anh, membro da dinastia soberana do sul, consegue ocupar Saigon e o delta do Rio Mekong, com a ajuda de mercenários franceses e armamentos europeus modernos.

Após derrotar os soberanos do norte (Ha Noi) e do centro (Hue), torna-se imperador de um Dai Viet unificado, com o nome de Gia Long, em 1802.

Viet Nam

Para garantir a paz com seu vizinho poderoso, Gia Long decide participar do sistema tributário chinês, que consistia na troca de presentes exóticos entre representantes dos países membros e o imperador, que, então, permitia que comercializassem seus produtos na China.

O Japão e a Coreia já adotavam essa prática, que é associada ao princípio de que rituais são fundamentais para manter a ordem social e fortalecer as conexões entre pessoas e países, conforme os ensinamentos de Confúcio.

Na sua proposta de filiação, Gia Long explicava seu desejo de alterar o nome do país para Nam Viet, que derivava de Na Nam e Viet Thuong, dois topônimos que se referiam ao sul e ao norte do país, respectivamente, simbolizando a unificação.

Entretanto, como Nam Viet era também o nome de um antigo reino chinês que compreendia as regiões de Ghangxi e Guangdong, no sul da China, o imperador recusou esse nome, propondo Viet Nam, que foi usado entre 1804 e 1813.

Seguindo o modelo chinês, Gia Long e seus sucessores governaram com poderes absolutos, assistidos por um quadro fixo de funcionários públicos de nove níveis, ao qual todos tinham acesso por intermédio de concursos públicos.

Militares não recebiam funções de controle do Estado e a aristocracia, cujos títulos não eram hereditários, não exercia nenhuma influência política. Os serviços religiosos públicos eram também prerrogativa do imperador e de seus representantes.

A economia baseava-se quase que exclusivamente no cultivo do arroz, e o governo não acreditava nem nas grandes propriedades agrárias, abolidas durante a primeira metade do século 19, nem na promoção do comércio doméstico ou internacional.

Não existia, portanto, uma classe média formada por grandes fazendeiros ou mercadores que pudesse ameaçar a autoridade dos mandarins do serviço público. O sucessor de Gia Long, Minh Mang, ascende ao trono em 1820.

Com um perfil marcadamente antiocidental, demite todos os conselheiros franceses e manda executar cristãos vietnamitas e missionários franceses, o que leva a Igreja Católica francesa a exigir uma intervenção militar para impedir novas perseguições.

Em 1858, a frota francesa da Ásia oriental ataca Da Nang. Mais tarde, Saigon e outros territórios no sul do país são também anexados, formando a Cochinchina francesa. Em 1883, o norte (chamado de Tonkin pelos franceses) e o centro (Annam) do país também são conquistados.

Depois, a França criaria a Indochina Francesa, incluindo a Cochinchina, Tonkin, Annam, Camboja e o Laos. Seu objetivo era a exploração de recursos naturais como o arroz, o carvão, a borracha e minerais raros, bem como a criação de um novo mercado para os seus produtos.

Para aumentar a produção de arroz, os franceses fizeram obras de irrigação que quadriplicaram a área das terras dedicadas ao seu cultivo, entre 1880 e 1930, mas o consumo per capita desse grão pelos camponeses foi reduzido no mesmo período, sem que outro alimento o tivesse substituído.

As novas terras eram vendidas em leilão ou cedidas a colaboradores vietnamitas e especuladores franceses, dando origem a uma classe de sem-terras, estimada em até 50% da população, antes da Segunda Guerra, que tinha que pagar até 60% da colheita aos proprietários.

Os impostos diretos e indiretos, cobrados para financiar programas de obras públicas, e os trabalhos forçados em plantações de borracha e minas, em condições insalubres e sem nenhuma assistência médica, eram ônus adicionais para os camponeses em uma população total de mais de 20 milhões de pessoas, cujo índice de analfabetismo chegava a 80%, em 1939.

Novo invasor

Movimentos de resistência são então organizados. Em 1925, Nguyen Ai Quoc, que mais tarde receberia o pseudônimo de Ho Chi Minh (“aquele que ilumina”), funda a Liga Revolucionária Jovem do Vietnã, transformando-a, em 1930, no Partido Comunista Indochinês. Onze anos mais tarde, fundaria também a Viet Minh, Liga de Independência do Vietnã, que incluía comunistas e nacionalistas.

Com a queda de Paris, em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo colaboracionista de Vichy permite que o Japão estacione tropas e utilize os aeroportos da Indochina.

Entretanto, no fim da guerra, os franceses são expulsos do Vietnã pelos próprios japoneses, que permitem o retorno do último imperador e a instalação de um governo vietnamita sob a tutela das forças militares do Japão, o novo invasor.

Em 1945, o Japão capitula, o imperador abdica e a República Democrática do Vietnã é proclamada em Hanói. No ano seguinte, porém, forças francesas e britânicas ocupam a Cochinchina, separando o norte comunista, controlado pela Vietminh, do sul democrático, ocupado pelos franceses.

No final do mesmo ano, com o insucesso de longas negociações com Ho Chi Minh, navios franceses bombardeiam a cidade portuária de Hai Phong, dando início à Primeira Guerra da Indochina.

Vietnã dividido 

Após três anos de lutas, a França consegue retomar o norte do país, entregando o cargo de chefe de estado ao antigo imperador. A Viet Minh inicia então suas ações de guerrilha com o suporte do novo governo comunista da China, o que leva o governo dos Estados Unidos a enviar fundos para apoiar a França, que, entretanto, prefere abandonar a Indochina, após ter perdido a batalha de Dien Bien Phu, em 1954.

No mesmo ano, o paralelo 17 é utilizado para dividir o país, criando o Vietnã do Norte, assistido pela China e pela URSS, e o Vietnã do Sul, pelos EUA, no âmbito da Guerra Fria. No final dos anos 1950, um novo grupo guerrilheiro começa a lutar contra as forças sul-vietnamitas e norte-americanas, com o suporte do Exército do Vietnã do Norte.

Eram os Viet Nam Cong San, Comunistas Vietnamitas, ou simplesmente Viet Cong, cujo contingente passa de 30 mil em 1963 para 150 mil homens em 1965.

As tropas norte-americanas também crescem, passando de 17 mil em 1963 para 75 mil em 1965, até alcançarem a marca de 500 mil homens em 1968. Ao lado delas, lutavam 600 mil soldados sul-vietnamitas e pequenos contingentes da Coreia do Sul, Tailândia, Austrália e Nova Zelândia.

Segundo o autor Michael Clodfelter, entre 1964 e 1973, os EUA teriam lançado 7,5 milhões de toneladas de bombas na Indochina, quantidade mais de três vezes maior do que a utilizada na Segunda Guerra Mundial, incluindo os teatros da Europa e do Pacífico.

Na Indochina, o Laos foi o país mais bombardeado, convivendo ainda hoje com 78 milhões de bombas de fragmentação que não explodiram e que ainda matam 300 pessoas por ano, principalmente crianças, tendo vitimado até agora mais de 34 mil.

No Vietnã, estima-se que ainda haja 350 mil toneladas de bombas e minas não detonadas e que, no ritmo atual dos trabalhos, ainda serão necessários 300 anos para desativá-las. Desde 1975, 40 mil pessoas foram mortas e 67 mil mutiladas

Os EUA também despejaram 68 milhões de litros do Agente Laranja, um herbicida que desfolhava florestas para revelar as forças comunistas – mas que também foi lançado sobre 3.181 povoações.

Consequentemente, décadas após o fim da guerra, um grande número de bebês ainda nascem com sérias deformidades no cérebro, na cabeça e nos membros, devido à ação do Dioxin, que altera o DNA humano.

O Exército norte-americano utilizou ainda Napalm, uma bomba incendiária capaz de gerar temperaturas de até 1200 ºC, desenvolvida por Louis Fraser, na Universidade de Harvard. Entre 1963 e 1973, 388 mil toneladas dessa arma química foram lançadas contra bunkers militares e populações civis norte-vietnamitas.

Em 1972, o New York Times publicou a foto da menina Phan Thi Kim Phuc, que, nua, corria numa estrada com Napalm sobre o seu corpo, transformando-a num ícone da crueldade da Guerra do Vietnã.

Guerreiras da Guerra do Vietnã /Crédito: Divulgação

 

Apesar da saída das forças de combate norteamericanas, em 1973, a guerra continuou entre as três partes vietnamitas até abril de 1975, quando os comunistas entraram em Saigon.

Estima-se que aproximadamente 1 milhão de vietnamitas (do norte e do sul) tenha sido morto, além de 58.220 norte-americanos.

Nação unificada

Em 1976, nascia a República Socialista do Vietnã, uma nação unificada, destruída pela guerra, sob embargo comercial da maioria dos países ocidentais e com grandes dificuldades econômicas.

Dez anos mais tarde, a nova liderança do partido comunista dá início a reformas que autorizam investimentos estrangeiros, permitem a criação de empresas privadas e descoletivizam a agricultura, eliminando subsídios e preços fixos.

Como resultado, a produção de alimentos cresce significativamente e o país passa a exportar arroz em 1989. Na década seguinte, seu PIB cresceria 8% ao ano. Depois da retirada total das tropas que mantinha no Camboja desde 1978, o país restabelece relações diplomáticas com o mundo, incluindo os EUA.

Hoje, embora o regime unipartidário comunista continue no poder há mais de 40 anos, cerceando liberdades civis, o Vietnã conseguiu reduzir a pobreza de 70% para 6% e aumentar a expectativa de vida do povo para 76 anos, conforme dados do Banco Mundial.

Muito além de transitórias ideologias, a valentia e a resiliência desta nação têm sobrepujado poderosos invasores, expulsando-os, em décadas ou séculos, da terra onde seus ancestrais construíram o repositório de línguas, costumes, equívocos e triunfos que resultaram nos 2,7 mil anos de história do Vietnã, o País dos Viets.


++ Odair Chiconelli é professor de língua inglesa e pesquisador de História