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Matérias / Egito Antigo

Esse é o rosto de Shep-en-Isis, a mais famosa múmia egípcia na Suíça

A equipe responsável pela reconstrução facial da mulher que viveu no Egito Antigo durante o século 7 a.C. falou sobre o projeto com exclusividade à Aventuras na História

Isabela Barreiros Publicado em 15/01/2022, às 08h00 - Atualizado em 27/05/2022, às 06h00

A reconstrução facial da múmia Shep-en-Isis - Cícero Moraes
A reconstrução facial da múmia Shep-en-Isis - Cícero Moraes

Desde que foi retirada do Egito e chegou à Suíça em 1820, a múmia conhecida como Shep-en-Isis, ou ainda Schepenese, tornou-se uma verdadeira atração. Um dos primeiros artefatos egípcios a chegarem ao país, o corpo mumificado transformou-se em espetáculo para o público e objeto de estudo para pesquisadores.

Com um bom estado de preservação e um elegante conjunto de caixões, não demorou para a mulher embalsamada se tornar a múmia mais popular da Suíça e a “aparecer não apenas na literatura especializada, mas também em um romance”, como explica o pesquisador da Universidade Flinders, na Austrália, e especialista em egiptologia, Michael Habicht.

A partir do interesse na antiga egípcia, foi possível determinar informações importantes sobre sua vida, como idade, ascendência e, mais recentemente, como teria sido sua face, em um projeto idealizado e realizado pelo Centro de Pesquisas da FAPAB, em Avola, na Itália.

“Pela primeira vez, agora temos uma impressão de como Shep-en-Isis pode realmente ter sido”, escrevem os pesquisadores no estudo, publicado no último dia 7 de janeiro e disponível na Amazon. “Isso é fascinante”, acrescentam.

A múmia mais famosa da Suíça

Detalhes da reconstrução facial da múmia / Crédito: Cícero Moraes

Os estudos, realizados na múmia desde que ela chegou ao país em 1820, revelaram que a personagem histórica viveu no século 7 a.C. “Com base na idade anatômica de Shep-en-Isis e no estilo de seu caixão interno, ela deve ter nascido por volta de 650 a.C. e morrido entre 620 e 610 a.C.”, ressalta Habicht.

Por meio das inscrições descritas em seus sarcófagos, também foi possível determinar a ascendência da mulher, que nasceu em uma longa linhagem de sacerdotes de Amon em Tebas, pertencente a uma família abastada de classe alta. Além disso, ela também teria tido algum grau de educação formal.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que mesmo com investigações intensivas ao longo das últimas décadas, não foi possível identificar o nome ou a profissão do suposto marido de Shep-en-Isis, nem se ela teve filhos.

Em 1819, os caixões da egípcia foram descobertos e removidos da parte sul do templo mortuário de Hatshepsut, ou ainda Deir el-Bahari, situado na margem ocidental do rio Nilo. Lá, estava o túmulo de sua família, que havia sido presumivelmente criado por seu pai, Pa-es-tjenfi, cuja múmia está guardada em Berlim.

Dando face à figura histórica

Fases do desenvolvimento da reconstrução facial / Crédito: Cícero Moraes

Além de documentos históricos e dados das pesquisas que lançaram luz sobre a mulher, o time de pesquisadores iniciou o projeto de reconstrução facial com as informações obtidas por meio de uma tomografia computadorizada realizada no esqueleto da múmia, armazenada na Biblioteca da Abadia de São Galo, na Suíça.

“Reconstruir um rosto a partir de fotografias em escala tiradas no plano de Frankfurt é possível usando ferramentas modernas de reconstrução 3D ou — melhor ainda — dados de tomografia computadorizada”, apontam os especialistas na pesquisa.

Cícero Moraes, designer 3D que se tornou referência na área ao desenvolver uma série de reconstruções faciais de figuras históricas como Maria Madalena e Jesus Cristo, que participou do projeto e deu face à múmia, conta que a característica mais marcante revelada pelo rosto da mulher foram seus dentes levemente projetados, uma deformidade conhecida como prognatismo maxilar classe II.

A pesquisa também centrou-se “exclusivamente na aparência forense reconstruída e na evidência anatômica”, não adicionando acessórios à reconstrução facial da múmia como joias, roupas e perucas, o que geralmente é observado em materiais semelhantes. Os especialistas justificam a escolha pois os complementos são “suposições hipotéticas”.

Para Habicht, “a reconstrução facial forense foi a última grande incógnita da pesquisa, porque pela primeira vez podemos adivinhar como era a mulher”. E se o resultado obtido por eles se parece com o que Shep-en-Isis se parecia em vida? Moraes responde a essa pergunta.

“A reconstrução facial segue dados estatísticos e anatômicos para ser efetuada, de modo que hoje sabemos que a compatibilidade estrutural, ou seja, o volume da face é muito compatível com o indivíduo em vida, mantendo a forma geral do rosto, do nariz e dos lábios”, explica o especialista em reconstrução facial forense.

Ele continua: “A questão sobre a aparência do egípcio já é mais complexa, posto que a história daquela civilização é muito ampla e sofreu influência de outras ancestralidades ao longo dos anos, então, o que temos na verdade são vários tipos de egípcios e a Shep-en-Isis é um deles”.


Saiba mais sobre o trabalho de Cícero Moraes por meio de seu site.