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Fama cercada por abandono e um aborto forçado: a tragédia de Dorothy Dandridge

Conhecida como a primeira atriz negra de sucesso em Hollywood, a artista teve uma vida cruel, cheia de amores frustrados

Pamela Malva Publicado em 23/05/2020, às 16h00

Dorothy Dandridge no set de A fabulosa aventura de Marco Polo, filme de 1962
Dorothy Dandridge no set de A fabulosa aventura de Marco Polo, filme de 1962 - Wikimedia Commons

Ruby Dandridge sempre foi apaixonada pelos palcos. Ela sentia que nascera para o show business e queria viver do seu talento. Quando teve duas filhas, então, sentiu que deveria colocar as meninas no mesmo caminho.

Foi assim que Vivian e Dorothy Dandridge cresceram, sempre abaixo dos holofotes brilhantes de Hollywood. Apenas uma delas, entretanto, seguiu os passos da mãe e montou sua própria carreira artística.

Dorothy Dandridge revolucionou o cenário artístico da década de 1950. Seja como cantora, atriz ou dançarina, a norte-americana subverteu os conceitos racistas da época. Sua vida, no entanto, não contou apenas com momentos brilhantes.

Dorothy Dandridge cantando em 1962 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Infância nos palcos

Dorothy nasceu em novembro de 1922, em Cleveland, Ohio. Com os pais separados antes mesmo de seu nascimento, a menina cresceu ao lado da irmã, da mãe e de seu padrasto, Geneva Williams.

Quando as meninas ainda eram pequenas, Ruby criou um ato musical para as duas, a fim de guiar suas filhas até os palcos. Como produtor do show, no entanto, Geneva não era o melhor dos padrastos e, por vezes, era cruel e autoritário com as pequenas.

Sob o nome de The Wonder Children, as pequenas Vivian e Dorothy passaram grande parte da infância em turnê, cantando e dançando para desconhecidos. Ela só puderam frequentar a escola após a grande depressão de 1929.

Dorothy no set de A fabulosa aventura de Marco Polo, em 1962 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma artista nata

Tendo desenvolvido seus dons artísticos desde criança, Dorothy pegou gosto pelos palcos, apesar da infância complicada, e seguiu a carreira artística. Em Hollywood, a jovem se engajou no ativismo negro e passou a lutar contra o racismo na indústria.

Em setembro de 1942, casou-se com o dançarino Harold Nicholas. Os dois haviam se conhecido em um noivado no Cotton Club e o amor hollywoodiano nasceu. Juntos, tiveram sua primeira filha, Harolyn Suzanne Nicholas, em setembro de 1943.

Quando a bolsa estourou naquele dia, contudo, Dorothy estava sozinha em casa, esperando por Harold, que jogava golfe com os amigos. Ela se recusou a ir para o hospital sem o marido — escolha que aumentou a complexidade do parto.

Durante o nascimento, Harolyn teve de ser puxada com o auxílio de pinças, o que resultou em danos cerebrais permanentes na menina. Dorothy nunca mais se desculpou pela deficiência da filha, causada pelo atraso no parto.

Dorothy na capa de Carmen Jones, em 1954 / Crédito: Wikimedia Commons

Relacionamentos infelizes

Como se a condição de Harolyn já não fosse o suficiente para a artista, Dorothy ainda tinha de conviver com a natureza adúltera de Harold. Em 1948, o homem já havia abandonado sua família. O divórcio, todavia, veio apenas em outubro de 1951.

Após o casamento infeliz, com a filha de 7 anos no colo, Dorothy conheceu o diretor Otto Preminger durante as filmagens de Carmen Jones, em 1954. A relação entre os dois durou quatro anos e a atriz engravidou mais uma vez.

Em 1955, com o bebê na barriga, Dorothy ouviu o impensável dos estúdios onde trabalhava. Para que não perdesse o emprego, ela foi obrigada a abortar seu segundo filho. A curta relação com Otto acabou logo em seguida, quando a artista percebeu que seu amante não pretendia deixar a esposa.

Enquanto sua vida amorosa parecia um desastre, Dorothy entrou para a história como a primeira mulher negra a ser indicada para o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Carmen Jones, em 1954. Anos mais tarde, casou-se com Jack Denison, em 1959 — relação que acabou após alegações de violência doméstica, em 1962.

Dorothy em The Decks Ran Red, em 1958 / Crédito: Wikimedia Commons

Um final amargo

Logo depois de sua terceira separação, Dorothy descobriu um rombo em suas finanças. De repente, ela devia 139 mil dólares em impostos atrasados. Sem saída, a atriz vendeu sua casa em Hollywood e colocou Harolyn em uma instituição mental do estado, na Califórnia.

No dia 8 de setembro de 1965, durante uma ligação confusa com a amiga Geraldine "Geri" Branton, Dorothy demonstrou estar deprimida e sem qualquer esperança. Antes de desligar, disse: "Aconteça o que acontecer, eu sei que você entenderá”.

Várias horas se passaram até que o agente Earl Mills encontrasse Dorothy em seu apartamento, nua e desacordada, aos 42 anos. Segundo legistas, ela teria morrido de overdose acidental do antidepressivo imipramina.

O Serviço Médico Legal do Condado de Los Angeles, contudo, afirmou que a grande artista teria sido vítima de uma embolia gordurosa, causada por uma fratura no pé. Dorothy Dandridge, após uma vida cansativa, frenética e cruel, foi cremada em 1965.


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