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Francisco Félix de Souza, o maior traficante de escravos brasileiro

Conhecido como Chachá, Souza se tornou um dos maiores nomes da época no ramo

Ana Paula Lima Publicado em 01/01/2021, às 10h00

Representação de Francisco Félix de Souza
Representação de Francisco Félix de Souza - Wikimedia Commons

A morte do baiano Francisco Félix de Souza, em 8 de maio de 1849, provocou comoção em Ajudá, antigo reino do Daomé, onde hoje é o Benin. Guezo, o rei do vilarejo africano e amigo pessoal do morto, enviou dois de seus inúmeros filhos e guerreiras amazonas para acompanhar os rituais fúnebres.

A ligação entre Guezo e Francisco era mais forte que uma simples relação de apreço. Um real pacto de sangue os havia unido até o fim da vida. Por causa dos laços estabelecidos com o rei, o brasileiro obteve o monopólio da exportação de escravos para o Brasil, muitas terras e o status de vice-rei do Daomé.

Além, claro, de ter seu apelido transformado em título de honra. Francisco Félix de Souza virou oficialmente Chachá, uma provável corruptela de seu costume de falar "já, já" para as coisas que aconteceriam em breve. 

Extrema miséria

Francisco nasceu em Salvador, em 4 de outubro de 1754. Não se sabe ao certo o ano em que desembarcou no golfo do Benin: é provável que tenha sido em 1792, aos 38 anos. Tampouco se sabe a razão de sua mudança. Muitos dos ex-escravizados africanos e de seus filhos brasileiros voltavam ao continente para tentar uma nova vida.

Francisco não era branco, embora a historiografia local o descreva como um homem de cabelos alourados. O baiano era filho de um português com uma índigena. A cor de pele mais clara, segundo Alberto da Costa e Silva, autor de Francisco Félix de Souza - Mercador de Escravos, certamente conferiu ao brasileiro vantagens no continente, uma vez que os brancos não se encontravam sob a jurisdição dos reis locais.

Já a nacionalidade brasileira o ajudou a conseguir um emprego no forte português de São João Batista de Ajudá - não há informações precisas sobre seu cargo: as especulações variam de escrivão a comandante da fortaleza.

O que é certo é que ele ficou no forte até sua morte. E, embora um tanto abandonada pelas autoridades, a fortaleza conferia prestígio ao funcionário.

No século 19, não era difícil encontrar trabalho na ampla rede de serviços formada em função do tráfico negreiro. Além disso, o sistema de créditos da época beneficiava os que queriam ingressar na atividade.

O pagamento dos escravos costumava ser feito não apenas com ouro ou dinheiro, mas também com tecidos, aguardente, armas de fogo, pólvora e o tabaco importado da Bahia. Esse sistema previa que o pagamento fosse antecipado. Os artigos eram cedidos aos reis, comerciantes de terra e negociantes e, com eles, os escravos eram comprados no interior do país.

A fama

Francisco tinha fama de sério e honesto, de homem de palavra. Era capaz de se comunicar em português, francês e inglês - habilidade fundamental em uma cidade que atraía mercadores de diversos países. Além disso, tinha carisma e uma grande capacidade de se adaptar às circunstâncias.

Talvez todos esses elementos não acabassem sendo determinantes no destino do baiano se ele não tivesse se casado com Jijibu, filha de Comalangã, chefe da ilha de Gliji, no atual Togo. Graças ao matrimônio, ele pôde adquirir terras que usou para erguer um entreposto em Popô Pequeno (ou Anexô, no litoral oeste do Benin).

"Foi principalmente em função dos vínculos familiares formados com Comalangã, que talvez tenha lhe entregado escravos para vender em seu nome, e ao emprego que obteve no forte português de Ajudá que o brasileiro conseguiu fortalecer sua posição de intermediário comercial", afirma Costa e Silva. Segundo ele, a princípio o baiano negociava escravos para outros mercadores. Mas, com os ganhos de seu agenciamento, começou a fazer operações por conta própria.

São inúmeros os registros de elogios a Francisco. Ele não guardava rancor e era com brandura que tratava seus adversários. "O testemunho de John Duncan, que viria a ser vice-cônsul britânico no Daomé, é eloquente", escreve Costa e Silva.

"Após lamentar que Francisco Félix se dedicasse ao comércio de seres humanos, não hesitou em repetir que o considerava o homem mais generoso e o mais humano das costas da África".

Chachá dava atenção às necessidades dos escravos retornados, arranjando para eles moradia e trabalho. Assim, tornou-se uma espécie de padrinho da comunidade que se formava na região. É provável que a iniciativa não demonstre generosidade ou arrependimento, mas sim interesse próprio.

Para Costa e Silva, o baiano atuava como um 'chefe patriarca': ao aumentar o número de dependentes e agregados, reforçava seu poder.

Para o antropólogo e fotógrafo Milton Guran, autor de Agudás: Os Brasileiros do Benin, Chachá não era um homem mau, pois, para os valores da época, o tráfico de escravos era uma atividade normal. "Ele não era um bandido, era um agente comercial. Só virou contrabandista aos olhos das gerações que vieram depois", diz.

Fúria 

O baiano já era um mercador influente quando se desentendeu com o rei do Daomé, Adandozan, a quem fornecia mercadorias em troca de negros prisioneiros de guerra. Um descuido no pagamento, porém, despertou a fúria do brasileiro, que foi cobrar pessoalmente a dívida.

O rei mandou prendê-lo. Nessa época, Gapê, irmão de Adandozan, queria tomar o trono, mas precisava de alguém que lhe fornecesse armas de fogo para dar o golpe.

Chachá, assim como outros mercadores, estava cansado das dificuldades impostas pelo rei ao comércio. Os mercadores, por exemplo, não podiam sequer afastar-se da cidade sem o consentimento do monarca.

O príncipe teria encontrado Chachá na prisão, onde os dois teriam estabelecido o tal pacto de sangue, jurando ajudar-se até o fim da vida. Gapê ajudou Chachá a fugir da cadeia e a refugiar-se em Popô Pequeno.

Ele, por sua vez, abastecia Gapê de armas de fogo e enviava tecidos, tabaco, cachaça e outros bens que eram distribuídos para conquistar adeptos para o golpe. Ao assumir o poder, Gapê virou Guezo e mandou buscarem o brasileiro. De volta a Ajudá, Chachá ganhou do rei o monopólio do comércio de escravos e tornou-se referência.

Os dias de declínio tardaram, mas vieram com a velhice. Por volta de 1845, Chachá, aos 91 anos, tinha reumatismo e passava muito tempo na cama. Ao mesmo tempo, a pressão inglesa ao comércio de escravos tornara-se maior a partir de 1839, com a promulgação do Equipment Act, documento pelo qual a Marinha britânica se autorizava a deter qualquer navio aparelhado para transportar escravos.

Chachá teve um baita prejuízo com a medida. Com o declínio comercial do amigo, Guezo procurou reorganizar o comércio na região, dando oportunidades a outros mercadores. Era o fim do privilégio de único agente concedido ao baiano.

Ao morrer, aos 94 anos, Chachá deixou mulheres, filhos, escravos e inúmeros agregados. Confiscar as propriedades dos funcionários mais importantes do reino fazia parte da tradição local.

Quando Guezo mandou seus funcionários tomarem as propriedades do amigo, após a morte dele, não foram encontrados dinheiro, bens nem artigos de valor que não fossem móveis e alguma prata. Tudo indica que, depois de ter sido um dos sujeitos mais ricos do mundo, Chachá teria morrido falido.