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Há 34 anos, Rodrigo Rojas e Carmen Gloria Quintana eram queimados vivos pela ditadura Pinochet

O crime, que ganhou repercussão internacional, foi um dos mais hediondos das ditaduras latinoamericanas, e foi amplamente encoberto pelo Exército

André Nogueira Publicado em 02/07/2020, às 07h00 - Atualizado às 07h53

Carmen e Rodrigo
Carmen e Rodrigo - Wikimedia Commons

O Caso Queimados do Chile é considerado um dos mais atrozes das ditaduras da América Latina, e um símbolo das denúncias a crimes contra os direitos humanos no período em que o autoritarismo dominou o continente. Ocorrido durante o violento regime de Augusto Pinochet, ele atingiu dois jovens de maneira brutal.

Documentos recentemente publicados das forças de inteligência dos EUA revelaram o descarte do relatório desse processo pelas forças armadas por parte do ditador. Em 2015, finalmente, foi possível que militares fossem formalmente acusados pela Justiça pelo crime: em 1986, atearam fogo no fotógrafo Rodrigo Rojas de Negri e na jovem Carmen Gloria Quintana, ambos de 19 anos, acordados e vivos.

Antes disso, como era comum nas abordagens violentas da repressão não apenas no Chile, mas em outras ditaduras como a argentina ou a brasileira, eles foram presos sem direito a habeas corpus ou indiciamento, e então espancados, torturados e xingados, antes de terem seus corpos queimados vivos.

O caso teve grande repercussão internacional. A ação dos militares, que sequestraram e torturaram os dois participantes de protestos contra o governo antes do ocorrido, levou à morte de Rodrigo e à queimadura grave de 60% do corpo de Carmen, apenas para impedi-los de fotografar e registrar os atos anti-Pinochet que ocorriam.

Augusto Pinochet / Crédito: Getty Images

 

O ocorrido teria sido encabeçado e acompanhado pelo general Rodolfo Stange, que era diretor da força de polícia Carabineros. O militar gerou um relatório que afirmava que Rojas morreu quatro dias após o ataque, mas que Quintana iria sobreviver. Os documentos deixavam claro também a identidade da patrulha e dos soldados que realizaram o ato naquele dia.

Pinochet teria dito “ao general Stange que não acreditava no relatório e recusou-se a recebê-lo", segundo o relatório do Departamento de Estado dos EUA, sobre o ocorrido no governo que apoiavam. Isso demonstra que o crime não foi sistematicamente ordenado pelo Alto Escalão, mesmo que seguisse as diretrizes de violência estabelecidas por ele.

Quando o caso veio à tona, a patrulha militar responsável pela agressão passou a afirmar que os ferimentos por fogo foram causados pelas próprias vítimas, por acidente. Na realidade, foi usada gasolina como combustível para incendiar os corpos vivos dos jovens, com claro intuito de matar.

Os EUA foram os principais aliados de Pinochet, que aqui se encontra com G. W. Bush / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com a rejeição do caso pelo Governo Federal, o relatório foi encaminhado para o Exército, que prometeu que aquilo seria resolvido em menos de dois dias. Porém, a ação do órgão foi de completo encobrimento de provas, impunidade dos responsáveis e criação de um pacto de silêncio sobre o ocorrido que durou três décadas, no intuito de impedir a punição de qualquer militar envolvido. Juízes, procuradores e testemunhas foram intimidados pelo Estado, o que impediu maiores ações da oposição na Justiça.

A repercussão do caso foi um tiro no pé da ditadura Pinochet, que rapidamente se encarregou de tentar apagar todas as provas existentes da responsabilidade de seu governo e das Foças Armadas nesse crime hediondo. A ditadura, que fez mais de 3.200 vítimas, perdia credibilidade, mas tinha a repressão policial como principal ferramenta de controle da sociedade.

Os EUA de Ronald Reagan, que apoiavam ideologica e economicamente a ditadura chilena (um recanto quase laboratorial das teses liberais do presidente), redobraram a atenção em relação ao caso, principalmente porque Rojas e sua mãe viviam em Washington, exilados do país, e Rodrigo estava temporariamente no Chile. A Casa Branca recebeu diversos relatórios que provavam a participação direta de militares no crime.

Protestos contra Pinochet / Crédito: Getty Images

 

O caso teria sido o golpe final para que Reagan fosse pressionado a mudar a diretriz diplomática de sua relação com as ditaduras sul-americanas. O presidente, famoso pelo apoio aos contras da Nicarágua, finalmente passou a defender um retorno à democratização controlada em Santiago. Pinochet só deixaria o poder em 1990, mas continuaria influente como senador vitalício até sua morte, em 2006.

Augusto Pinochet foi um dos mais sangrentos ditadores da América, responsável pela mais forte repressão do continente. Assumiu o poder em 1973, quando, com apoio militar dos EUA, deu um golpe de Estado que resultou na morte do presidente democraticamente eleito, o socialista Salvador Allende, e na destruição, por bombardeio, da La Moneda, a sede da presidência. É, até hoje, símbolo dos crimes contra a Humanidade realizados nos anos de chumbo da América Latina.


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