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Bandeirantes: heróis ou vilões? Entenda as origens do eterno debate

Desbravadores sensatos ou assassinos sanguinários: os sertanistas brasileiros ainda levantam grandes polêmicas entre os brasileiros

André Nogueira Publicado em 19/02/2020, às 10h44

Ciclo da caça ao índio, quadro de Henrique Bernardelli
Ciclo da caça ao índio, quadro de Henrique Bernardelli - Wikimedia Commons

O sertanismo teve vital importância no processo de formação do Brasil, e entre eles, poucos são tão famosos quanto os bandeirantes. Entre atrozes caçadores de índios e desbravadores pioneiros, essas figuras são extremamente controversas, levando à dúvida: seriam essas personalidades heróis nacionais ou entidades vis?

O maior estudioso do tema foi Sergio Buarque de Holanda, que, em seu trabalho Caminhos e Fronteiras (1957), enquadrou o fenômeno como um movimento expansionista do século 17, impulsionado pela busca de riquezas (categoricamente, índios e minerais) no interior da colônia mal adentrada da América Portuguesa.

Um aspecto importante na compreensão dos bandeirantes é o fato de que, por mais que sua fama seja de genialidade no movimento de interiorização do país, boa parte dos conhecimentos dessas pessoas, ao adentrarem a mata, era proveniente dos indígenas que os acompanhavam, como cúmplices, escravos ou prisioneiros.

Desde os métodos de trilha até as formas de sobrevivência, os bandeirantes representaram um sincretismo com a sabedoria dos povos originários baseado na força.

Domingos Jorge Velho, bandeirante responsável pela vitória portuguesa contra o Quilombo dos Palmares. A representação desse personagem no quadro é completamente ficcional / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com isso, percebe-se que as bandeiras são marcas próprias do processo de colonização. Eles mesmos são figuras e penalidades defensoras da apropriação da terra por Portugal, ao mesmo tempo em que eram impulsionadores desse movimento, pois eram eles que conseguiam as informações de onde havia riquezas e massas populacionais indígenas para a administração lusitana.

Ou seja, a história do bandeirantismo está intimamente ligada à história do genocídio indígena no Brasil. Como exímios caçadores de índios para escravização, seu papel social na colônia necessariamente envolvia a opressão de pessoas em favor de um programa econômico (marcadamente pragmático e objetivista, segundo Buarque de Holanda).

Isso é tão perceptível que, mesmo que os bandeirantes fossem figuras até ameaçadoras para o projeto de ocupação portuguesa estabelecida com base em um poder monolítico, por conta dos poderes regionais que conseguiam desenvolver, o papel de caça dos índios no interior (“sertões”) fazia das bandeiras peça útil. 

“Os homens oriundos do planalto paulista também foram motivos de preocupação para as autoridades nomeadas pelo rei, que utilizaram muito mais da prática do apaziguamento, que do enfrentamento ou eliminação dos indesejados líderes das bandeiras. Apaziguamento buscado por meio da cooptação, prudência e (dis)simulação com o intuito de colocar e manter a paz nessa área de mineração”, expõe o livro Os bandeirantes e a historiografia brasileira: questões e debates contemporâneos, organizado por Diogo da Silva Roiz, Suzana Arakaki e Tânia Regina Zimmermann.

Estátua de Raposo Tavares, no Museu do Ipiranga, São Paulo / Crédito: Wikimedia Commons

 

A figura que conhecemos dos bandeirantes como figuras centrais na política da colonização, sempre bem equipados e adornados com o melhor equipamento militar, é uma construção do Brasil moderno. Na realidade, a maioria dos bandeirantes eram pobres e maltrapilhos, usando armas baratas e roupas furadas (muitas vezes sem sequer ter um par de botas). Muitos deles estavam no ramo pela caça a indígenas e a busca por ouro como formas de ascensão social e aumento do próprio patrimônio.

Como consequência, é possível compreender que a sordidez dos bandeirantes era menos afirmada num poder, propriamente dito, deles. Afinal, parte das atitudes atrozes deles, que eram muito mais banais numa visão colonial da época, tinha origem numa tentativa de melhoria de vida.

Ao mesmo tempo, a grandiosidade dessas figuras foi também uma criação de projetos de poder futuros, principalmente no movimento de construção de um projeto de memória que colocasse São Paulo no centro do jogo político nacional.

Sérgio Buarque, que auxiliou na construção da imagem dos bandeirantes como pioneiros da interiorização, enxergava neles o núcleo de uma “raça especial”, o paulistano. "Sabemos como era manifesta nesses conquistadores a marca do selvagem da raça conquistada. Em seu caso ela não representa uma herança desprezível e que deve ser dissipada ou oculta, não é um tração negativo e que cumpre superar" (Caminhos e Fronteiras). Ou seja, a junção do branco com o índio teria gerado essa figura única e especial.

Monumento às Bandeiras em São Paulo: o estado tem os bandeirantes, vistos como heróis, como figura principal da identidade local / Crédito: Wikimedia Commons

 

A miscigenação entre bandeirantes é um dado completamente atestável historicamente, mas forma um panorama muito mais diverso do que faz parecer Buarque. É o que demonstra Darcy Ribeiro em sua obra O Povo Brasileiro.

Ele afirma que mesmo entre as elites coloniais, a estrutura patricêntrica e poligâmica era comum, gerando uma miscigenação baseada na violência. Mesmo no interior das bandeiras, havia um quadro multiétnico relevante (como é  caso dos homens comandados por Raposo Tavares, que era judeu, com 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil índios).

Mas em São Paulo, a partir do século 19, se desenvolveu a imagem do bandeirante como português heroico e desbravador, desenvolvendo a figura weberiana do “paulista ascético”. “Se seguirmos a ideia de que todas as coletividades tendem a “ter seus símbolos próprios, dotados de um significado específico, com a função de perpetuar determinados valores” (Queiroz, 1992), podemos dizer que a elite paulista encontrou no bandeirante seu representante por excelência. Esse com presença marcante no cotidiano do paulista traz consigo o papel de representar um sentimento que remonta à história dos antigos colonos portugueses na América”, afirma Sílvia Lopes Raimundo no artigo Bandeirantismo e identidade Nacional, divulgado na revista Terra Brasilis.

Tania de Luca, pesquisadora pela UNESP, completa: “Da história (...) esperava-se um conjunto coerente de tradições a serem partilhadas por todos. Acreditando-se conduzidos pela mão firme da metodologia científica, os historiadores debruçaram-se sobre o passado, privilegiando certos indivíduos e episódios em um trabalho de consagração que respondia às necessidades do momento. Emergiu então a figura do bandeirante, dilatador incansável das fronteiras. A narração da conquista e da manutenção do território foi transformada na grande epopeia nacional, redimindo não só o nosso passado mas também as regiões tropicais que – afinal – davam sinais de poder conviver com a civilização. Essa construção excludente, que transpunha a recente supremacia desfrutada por São Paulo para o tempo mítico das origens, mal conseguia disfarçar suas implicações políticas” (em A Revista do Brasil: Um Diagnóstico para a Nação).

Sertanista vienense do século 19 desenha de maneira mais fiel os sertanitas do 16 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Percebe-se, portanto, que os bandeirantes que conhecemos são, acima de tudo, figuras icônicas e montadas que devem ser vista sob um ponto de vista crítico. Para pensarmos na posição que eles devem ter, numa ponderação moral em relação ao movimento, é necessário um esforço no sentido de compreendê-los a partir da experiência social que eles empreenderam, e não nas projeções de memória que temos.

Ao mesmo tempo, é necessária a crítica contundente aos projetos de poder e às atrocidades cometidas por essas figuras, principalmente contra os indígenas.


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