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China em guerra: dizendo ser filho de Deus, líder da Rebelião Taiping quis matar o imperador

Entenda como a China foi lançada em uma guerra civil no século 19 graças aos esforços de um messias improvável

Bárbara Bretanha Publicado em 22/11/2018, às 13h00 - Atualizado às 14h43

Estatua de Hong Xiuquan em Nanquim
Flickr

Com pouco mais de 1,65 m e feições bonitas, o professor Hong Xiuquan não era uma figura muito ameaçadora. Filho de prósperos fazendeiros da província chinesa de Guangzhou, sonhava em passar nos exames imperiais para se tornar servidor público. Fracassou nas tentativas entre 1827 e 1843. Oito anos mais tarde, seu objetivo era bem distinto: derrubar o imperador.

Milhares de insurgentes se reuniriam sob sua bandeira para lutar em uma revolta que, em treze anos, enfraqueceu uma dinastia, estabeleceu as raízes do comunismo chinês e deixou 20 milhões de mortos. “A Rebelião Taiping começou como um movimento religioso. Hong Xiuquan, um homem do sul rural recebeu um panfleto cristão de um missionário enquanto fazia as provas do serviço público. Mais tarde, teve visões que interpretou como se fosse o segundo filho de Deus. Começou a atrair crentes e se voltou contra o governo”, afirma a professora Tobie Meyer-Fong, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, e autora de um livro sobre o conflito.

Hereges iludidos

Se o líder do Taiping Tianguo (Reino da Paz Celestial), como o movimento foi batizado, acreditava estar em uma missão divina, muitos de seus seguidores encaravam a cruzada como uma oportunidade para escapar da pobreza e da fome. Afinal, o Tianguo prometia expulsar os manchu, povo que conquistara a China em meados do século 17 e estabelecera uma nova dinastia imperial oprimindo outras etnias. Os missionários ocidentais viam o grupo como um possível aliado na divulgação do cristianismo às massas ou como hereges iludidos.Seja qual fosse a motivação central do movimento, ele deu início a uma guerra civil mais sangrenta e com mais vítimas fatais que a Primeira Guerra.

Hong começou a jornada pela zona rural, divulgando sua mensagem, fundando novas comunidades e agregando seguidores, organizados em milícias. “Conforme marchava para o norte, o grupo pregava um evangelho que ligava os governantes manchu da dinastia Qing (e os oficiais que os serviam) com demônios”, diz Tobie. O primeiro choque com as autoridades ocorreu em dezembro de 1850 – os Taiping já contabilizavam 20 mil convertidos e atacaram forças imperiais, sem encontrar resistência.

Em 19 de março de 1853, o grupo tomou a histórica cidade de Nanquim, a antiga capital imperial, localizada na bacia do Rio Yangzi. A invasão foi violenta. Todos os manchu foram perseguidos, esquartejados, afogados ou queimados. Aproximadamente 30 mil moradores – em sua maioria, civis – foram mortos durante o ataque.

Ponto inicial de escoamento dos grãos enviados ao norte como tributo, Nanquim garantia vantagens estratégicas. Apesar do sucesso, o movimento perdeu fôlego quando uma tentativa de tomar Pequim fracassou.

Hong declarou Nanquim sua capital e concentrou os esforços em manter o controle do delta do Rio Yangzi. “O credo rebelde Taiping pode ter repelido certos grupos, particularmente aqueles que detinham algum poder, como a aristocracia rural”, diz o autor Thomas Reilly no livro The Taiping Heavenly Kingdom: Rebellion and the Blasphemy of Empire (O Celestial Reino Taiping: Rebelião e a Blasfêmia do Império). No entanto, o repúdio das classes mais nobres não foi suficiente para conter a propagação do evangelho de Hong.

Mundo Novo

No Reino da Paz Celestial, o trabalho, assim como as terras e propriedades, era compartilhado. A produção excedente de uma aldeia era distribuída às mais necessitadas. As mulheres foram liberadas do costume de amarrar os pés e dos casamentos arranjados. Os homens deixaram de raspar a testa e trançar os cabelos. Estavam proibidos a escravidão, a tortura, as drogas, os jogos de azar e a prostituição. Os ideais igualitários dos Taiping provavelmente não advinham do manifesto comunista de Karl Marx, publicado em 1848. Ainda assim, o filósofo demonstrou entusiasmo pela revolução chinesa, a qual esperava “lançar uma centelha dentro da mina sobrecarregada do atual sistema industrial”.

Mas a faísca logo se apagou. Se os homens e mulheres eram mantidos separados na nova capital, no palácio de Hong um harém servia os líderes. Ele tampouco hesitara ao eleger nobres entre seus amigos – ou ordenar a morte dos comandados sempre que suspeitava de um golpe.

Enquanto o antigo camponês aproveitava a prosperidade, o governo qing organizava esforços para conter a revolta e lançar um contra-ataque.

Mais de 32 mil suspeitos de simpatizarem com a causa foram degolados na terra natal de Hong. Em 1862, Karl Marx mudou de ideia sobre o movimento, que chamava agora de “abominação maior para as massas do que para os antigos soberanos”.

Derrocada

Com a força militar enfraquecida e dividido pelos diversos focos de conflito, o governo levou mais de uma década para conter a rebelião. Foi só com o fim da Segunda Guerra do Ópio, dessa vez contra a França e a Inglaterra unidas, em 1860, que o governo conseguiu angariar recursos para repelir os insurgentes. No mesmo ano, os Taiping tentaram tomar Xangai, sem sucesso. A investida foi a primeira do que se tornaria uma série de derrotas, muitas delas nas mãos do Exército Sempre Vitorioso,batalhão sob o comando do mercenário norte-americano Frederick Ward.

Hong deixou de participar de assuntos administrativos e militares, deixando o cargo para seu filho. Sob pressões externas e internas, o reino começou a desmoronar. Em 1864, Nanquim foi sitiada e se rendeu. Cerca de 100 mil rebeldes preferiram a autoimolação a cair em mãos do inimigo.

Hong havia morrido envenenado dois meses antes. Seu filho foi capturado e esquartejado. A Paz Celestial tinha chegado ao fim. O conflito, no entanto, abriu espaço para novos grupos insurgentes e nacionalistas. Após 267 anos no poder, com a Revolução Republicana de 1911, os Qing foram forçados a abandonar o trono.

O irmão caçula

Em 1837, Hong Xiuquan adoeceu. Ficou mais de um mês de cama, possivelmente delirando. Em uma das visões, um ancião de cabelos longos disse que seu destino era purificar a Terra e introduzir um período de paz divina. Em outra, descobriu que o único modo de fazer isso seria enfrentando diversos demônios. De acordo com o ancião, Hong era o segundo filho de Deus, irmão de Jesus Cristo. A visão ficou esquecida até 1843, quando ele leu um panfleto protestante. Logo, decidiu converter-se ao cristianismo e partiu para estudar com missionários. Ele manteve a suposta divindade em segredo, mas suas ideias radicais foram rejeitadas pelos missionários. Afastado, começou a pregar uma fusão dos princípios cristãos, particularmente os do Velho Testamento, com valores orientais.


Saiba mais

What Remains: Coming to Terms with Civil War in 19th Century China, Tobie Meyer-Fong, 2013