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Negros ou brancos? Afinal, de que raça eram os egípcios?

Polêmica atravessa os séculos, numa disputa pelo legado de sua magnífica cultura

Maria Carolina Cristianini Publicado em 14/11/2019, às 07h00

Mural encontrado na tumba do Rei de Tebas
Mural encontrado na tumba do Rei de Tebas - Getty Images

Curto e grosso: egípcios não eram brancos ou negros. Eram egípcios. E isso tem a ver com as aspas no título: a ideia de raça não é mais aceita como científica, basicamente porque um suposto branco e um suposto negro podem ser muito mais geneticamente parecidos entre si que entre outros membros da mesma raça. E não havia os conceitos atuais de negro ou branco na Antiguidade. Mas isso não mata a pergunta. Raça existe como um conceito social e histórico, que todos sabem o que quer dizer.

Vamos lembrar que os egípcios não eram uniformes: grupos variados se estabeleceram na região ao longo do tempo — de pele mais clara ao norte e mais escura ao sul, e tudo no caminho. “A distinção dos egípcios em relação aos outros povos africanos tem sido feita desde os greco-romanos”, diz Julio Gralha, coordenador do Núcleo de Estudos em História Medieval, Antiga e Arqueologia Transdisciplinar da Universidade Federal Fluminense (UFF-PUCG).

A questão é retomada nos séculos 18 e 19, quando expedições europeias pelo continente africano “levam a esse paradigma de que o Egito é muito sofisticado e de que não teria uma origem na África”.

O outro lado da história, de um Egito negro, aparece ainda no século 19, por meio de pessoas como o egiptólogo francês Jean-François Champollion (1790-1832), o decifrador da Pedra de Roseta. Para ele, os antigos egípcios eram negros do mesmo tipo que todos os nativos da África. A ideia seguiu viva no século 20, especialmente pelos pensamentos de Cheikh Anta Diop (1923-1986), historiador e antropólogo senegalês.

Diop levantou alguns argumentos nesse sentido, como as representações dos egípcios sobre eles mesmos como negros. Porém, de acordo com Julio Gralha, na iconografia, os egípcios se representam na cor marrom — enquanto os núbios estão na cor negra e os líbios e asiáticos, em tom de amarelo. “O que o egípcio está dizendo nessa representação é que ele é mais claro do que os núbios e mais escuro do que os asiáticos.”

Outra questão trazida por Diop fala em fontes escritas antigas que se referiam ao povo egípcio usando o termo kmt (redução de kemet), que indica a cor preta. “Ao usar o kmt, os egípcios estão se referindo à terra negra, e não a eles como negros. Eles são da terra negra, que é o Nilo. O erro veio ao analisar a escrita egípcia pela redução de um termo, algo como a nossa redução de estou aqui para tô aqui”, explica Julio.

A VOZ DO DNA

Uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto Max Planck, da Alemanha, trouxe alguns dados para a polêmica. Eles testaram o DNA mitocondrial (contido nas mitocôndrias, apenas com as informações da linhagem materna) de 90 múmias, do período entre 1380 a.C. e 425.

Mural "Cerimônia da abertura da boca da múmia em frente a tumba" / Crédito: Getty Images

 

Os resultados, comparados ao DNA dos egípcios modernos, chegaram a algumas conclusões. Entre elas: os egípcios de hoje têm 8% mais genes em comum com povos subsaarianos do que os antigos; gregos e romanos, que dominaram o Egito por sete séculos, deixaram praticamente nenhuma marca genética.

Segundo os cientistas, os genes do sul da África vieram, provavelmente, do tráfico de escravos do mundo islâmico, que passava pelo Egito e se estendeu da Idade Média até o século 19. Já a ausência de genes gregos e romanos é creditada à falta de mistura —Cleópatra, por exemplo, foi obrigada a se casar com os próprios irmãos.

Mas os dados estão longe de uma possível determinação da etnia egípcia. “Racializar a compreensão do Egito antigo é limitar a percepção acerca da sociedade faraônica, que era plural etnicamente falando, com relações antiquíssimas com a Núbia, com os povos líbios da África do Norte, com a Ásia e o Mediterrâneo. O Egito teve milhares de anos de história e influências diversas, que construíram uma sociedade mestiça, plural”, afirma Belchior Monteiro, professor de História da África do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo.

Tanto foi assim que há representações de governantes núbios, com estrutura corporal muito similar à da África subsaariana — caso do faraó negro Taharqa, que governou entre 690 a.C. e 664 a.C. —, e daqueles que podem ser associados à Ásia – região de Palestina, Iraque, Líbano, Cisjordânia —, com nariz fino, por exemplo. Basta relembrar os traços da rainha Nefertiti, do século 14 a.C., para ilustrar a questão.

Entre historiadores e egiptólogos atuais, a afirmação, quando o assunto vem à tona, é relembrar que o Egito é, de fato, africano. “O único benefício de discutir a ‘raça’ dos antigos egípcios é o de desconstruir o senso comum que percebe o Egito antigo como asiático — e, consequentemente, branco”, diz Belchior Monteiro.

Ao que Julio Gralha complementa: “O entendimento da cor da pele e da etnia é uma discussão mais das relações de poder e de ações afirmativas, sejam elas eurocêntricas ou pan-africanistas”. Não aprendemos nada sobre o Egito ao impormos noções atuais sobre ele.


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