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Kamikazes: Fortes relatos daqueles que morreram por um ideal maior do que a guerra

Confira textos pessoais de pilotos japoneses que contrariam o mito heroico dos kamikazes

Simone Bitar Publicado em 13/01/2020, às 14h00

Kamikazes posam para foto durante a Segunda Guerra
Kamikazes posam para foto durante a Segunda Guerra - Getty Images

Muito se especulava sobre a verdadeira função dos kamikazes na Segunda Guerra. Apesar de a imprensa mundial divulgar que os pilotos eram heróis que morriam pela pátria e pelo Imperador, a farsa foi derrubada após alguns anos.

O primeiro kamikaze, tenente Seki, foi entrevistado pelo jornalista Onoda Masahi, como parte de propagação oficial do papel do Japão na guerra. Masahi buscou descobrir a verdade e o lado humano do piloto em sua matéria, e o que ele conseguiu foi uma declaração tão honesta que a imprensa japonesa censurou.

“Se é uma ordem, eu vou. Mas não irei morrer pelo imperador ou pelo Império Japonês. Vou morrer por minha amada esposa. Se o Japão perder, ela pode acabar estuprada pelos norte-americanos. Estou morrendo por quem mais amo, para protegê-la. O futuro do Japão é sombrio quando se é obrigado a matar um de seus melhores pilotos”, declarou Seki.

O tenente foi um dos homenageados no santuário de Yasukini, a maior honraria que os soldados poderiam receber. Não há consenso sobre o número exato de pilotos suicidas, o santuário lista um total de 5.843.

Confira abaixo três relatos de kamikazes que morreram lutando pelo Japão durante a Segunda Guerra.

Hachiro Sasaki, o marxista

23 anos, 14 de abril de 1945

Formado em economia pela Universidade de Tóquio, Sasaki acreditava que a guerra se justificava por ser contra os Estados Unidos e Inglaterra, sedes do capitalismo. Antes de sua última missão, ganhou o privilégio de visitar os pais, mas não contou a eles que havia se voluntariado para uma missão suicida. Como todos os pais de pilotos kamikazes, dias depois eles receberam uma caixa vazia contendo um papel com o nome do filho, e nada mais – estes eram os restos mortais.

“De certa forma, não consigo ficar eufórico com as notícias das vitórias japonesas. Eu sinto ansiedade. Queria saber o que acontecerá ao capitalismo após a guerra. (...) O poder do velho capitalismo é algo do qual não podemos nos livrar facilmente, mas se ele pode ser esmagado pela derrota na guerra, transformaremos um desastre em algo positivo. (...) Lembro-me que os trabalhadores ficam desencorajados ao perceber como os chefes os exploram. Sinto-me tolo por me orgulhar de meu talento como piloto. Os que escaparam por não se qualificarem devem ser os realmente inteligentes.”

Avião de um kamikaze explodindo / Crédito: Getty Images

Ichizo Hayashi, o cristão

23 anos, 12 de abril de 1945

Filho de mãe viúva, Hayashi estudou filosofia e economia na Universidade Imperial de Kyoto. Junto com outros cristãos, durante a adolescência, fez campanha em frente às sessões de alistamento para tentar impedir outros jovens de se voluntariarem às forças armadas. Alistou-se na Marinha porque queria evitar ser recrutado à força para o exército, que considerava uma arma bem pior.

“Minha mente está tranquila em saber que Deus cuidará de tudo. Deus não deixaria minha mãe ou eu ser infelizes. (...) Os militares que detêm posições importantes estão cometendo um pecado que não deve ser perdoado; eles estão matando crianças e civis inocentes na China. (...) Para ser honesto, não posso dizer que o desejo de morrer pelo imperador é genuíno, vindo do meu coração. De qualquer forma, foi decidido por mim que eu morra pelo imperador.”

Taketoku Nakao, o nacionalista

22 anos, 4 de maio de 1945

Formado em direito pela Universidade de Tóquio, Nakao foi recrutado em dezembro de 1943 e morreu realizando um ataque kamikaze a Okinawa. Leitor de Sócrates e Descartes, seu diário é cheio de passagens melancólicas e filosóficas. Ainda que tenha morrido convicto do ideal do imperador, às vezes registrava divagações antimilitaristas.

“Quão solitário é o barulho do relógio na escuridão da noite. (...) Ameaçar a vida de um inocente nunca deve ser permitido. Porém, da perspectiva dos militares, isso não importa, porque a honra é a única coisa com que se interessam, enchendo o ar com mentiras, não questionando o que é verdade. (...) Sou realmente uma pessoa feliz. Agora posso encontrar minha morte com a crença de que fui tratado com sinceridade pelas pessoas, quando ainda não fiz nada por elas. Não tenho nada a dizer agora.”


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