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Mary ‘Tifoide’, a imigrante irlandesa condenada a viver 26 anos isolada da sociedade

A mulher que marcou a história da medicina no mundo, por ser a mais famosa transmissora da febre tifoide, quando infectou 53 membros da alta sociedade — sem sair da cozinha

Penélope Coelho Publicado em 13/03/2020, às 12h30 - Atualizado às 12h30

Mary Mallon no leito do hospital
Mary Mallon no leito do hospital - Wikimedia Commons

Mary Mallon chegou aos Estados Unidos em 1883, quando ainda era adolescente, saiu de seu país de origem, a Irlanda, para buscar oportunidades, e começou a trabalhar como cozinheira e empregada doméstica. Ela iniciou sua carreira profissional em Nova York e Long Island, cidades onde ocorreram as primeiras infecções de febre tifoide, causada pela bactéria salmonella, doença que afeta intestinos e sangue, e pode levar à morte, — mas, até então, ninguém associava essa infecção à Mary.

Em 1907, as coisas começaram a piorar e já havia 30 casos sem explicação de pessoas que estavam contagiadas com essa enfermidade. As autoridades e os membros da saúde das cidades começaram a buscar a causa da doença. A partir daí, o surto incomum foi atribuído a diferentes fatores, como água ou comida contaminada.

Uma grande confusão e pânico começou a se espalhar pelos Estados Unidos naquela época, já que inicialmente o problema geralmente afetava subúrbios e áreas pobres de Nova York, e logo depois isso começou a  se espalhar por lares de famílias ricas. E essas pessoas bem remuneradas, tinham condições de contratar uma cozinheira, ou, doméstica, como Mary Mallon.

Ela era uma boa empregada, seus diferentes patrões sempre elogiavam seu jeito com as panelas, por isso nunca reclamavam dela. De 1900 a 1907, a mulher trabalhou em sete casas diferentes. Duas semanas depois que começou a trabalhar na pequena cidade de Mamaronek, os primeiros pacientes com febre tifoide começaram a aparecer.

Quando Mary se mudou para Manhattan, a família para a qual ela começou a trabalhar passou a apresentar sintomas de febre e diarreia. Além disso, a lavadeira que fazia serviços com ela na mesma casa, morreu. E a enfermidade continuou acompanhando a cozinheira. Quando foi trabalhar na família de um advogado, a infecção levou sete dos oito familiares; na próxima casa onze moradores contraíram a doença. Como ela se mudava constantemente, isso não parou de acontecer.

Por um longo período, Mary se ofereceu para cuidar dos doentes, sem saber que na verdade, ela estava deixando a situação cada vez pior. Neste tempo, ela ainda foi cozinheira de mais três famílias e, obviamente, a situação aconteceu com todas.

As coisas começaram a mudar, quando o mesmo aconteceu na família de um famoso banqueiro de Nova York, Charles Warren. Ele alugou uma casa em Long Island e levou Mary como cozinheira. Quando mais seis indivíduos começaram a apresentar os sintomas da febre tifoide, o proprietário da casa ficou com medo e desconfiou que algo poderia estar errado. Por isso, contratou o sanitarista George Soper, que passou a investigar algumas causas. O homem começou a procurar qual poderia ser o motivo da infecção, e após algumas pesquisas na comida, passou a desconfiar da doméstica.

Soper penou para conseguir realizar os exames na mulher, foi difícil achar sua casa, já que ela não tinha um endereço fixo. Quando ele a encontrou, ela se recusou a realizar o teste e o atacou com um garfo, depois ele tentou levar mais um médico para ajudá-lo, em vão, e como última tentativa chamou a polícia e finalmente conseguiram realizar o exame. Mary se recusou desde o começo porque achava que estava sendo perseguida ilegalmente. Segundo o médico que esteve no local, na ambulância, Mary parecia um leão enfurecido. Os exames confirmaram as bactérias na mulher, que disse não lavar as mãos para cozinhar, já que não sabia que isso era necessário.

Riverside, o Hospital abandonado na ilha de North Broter, onde Mary Mallon ficou isolada / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mary passou três anos presa na ilha de North Broter, no Riverside, local que costumava ser um hospital. Lá ela ficou sem ter contato com ninguém, totalmente isolada. Após esse período, foi liberada por não apresentar mais sinais da doença. A condição para que ela fosse solta era não trabalhar mais em cozinhas, o que ela respeitou por um tempo, mas depois de não conseguir emprego, mudou de nome e voltou para o fogão. A mulher infectou mais 25 pessoas nesse tempo, e foi presa novamente depois de cinco anos. Lá ela permaneceu quase sempre sozinha até 1938, quando faleceu aos 69 anos.

Esse caso se tornou imediatamente, um dos mais famosos de Nova Iorque, ganhando destaque na mídia da época. Como a imigrante se mudava muito, e ainda possuía algumas identidades falsas, a quantidade de vítimas que ela fez não é precisa, mas algumas fontes dizem que o número chega a 50 pessoas. E nos registros do sanitarista Soper, os infectados chegam a 122.  


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