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Há 8 anos, o ditador Muammar al-Gaddafi era linchado em praça pública

Na Líbia, uma multidão enfurecida levou à morte do tirano que implorou por misericórdia

André Nogueira Publicado em 20/10/2019, às 08h00

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Wikimedia Commons

Muammar Kadafi foi um líder líbio que governou o país por mais de 40 anos, num regime fechado marcado pelo nepotismo e violência. O próprio Kadafi deixou o poder, juridicamente, nos anos 1970, assumindo apenas a posição de líder simbólico do governo.

O tirano assumiu o poder após uma revolução nacionalista, ocorrida em 1969 contra o rei Idris I, que pretendia retomar a autonomia econômica da Líbia e fomentar a ideologia pan-arabista. Porém, com sua acomodação no poder, o governo se tronou uma ditadura violenta e demagógica. 

Em sua fala na ONU, Gaddafi criticou as potências mundiais em relação ao estabelecimento da paz / Crédito: Wikimedia Commons

 

Kadafi era uma figura perigosa, e isso pode explicar o alucinante evento que resultou em sua morte em outubro de 2011. Internamente à Líbia, claro, era controverso por ser um déspota que comandava um exército sangrento e se utilizava do poder para enriquecer ilicitamente. 

O governo de Kadafi foi profundamente anti-EUA e anti-Europa, assumindo um posicionamento em favor da autonomia africana e de um sistema de economia política anticapitalista e contrária ao autoritarismo soviético. Fomentou políticas de acesso à moradia, nacionalizou o petróleo líbio, aproximou o país do bloco islâmico e fundou comitês populares. 

E-mails divulgados por Sidney Blumenthal para a Secretaria do Estado de Hillary Clinton comprovaram que um dos principais motivos para a derrubada do governo de Kadafi pelas tropas da OTAN, com liderança de Nicolas Sarkozy, era a ameaça do projeto econômico do ditador em criar uma moeda africana lastreada no ouro, não no dólar ou no franco.

“Esse ouro foi acumulado antes da atual rebelião e foi projetado para ser usado para estabelecer uma moeda pan-africana baseada no dinar de ouro da Líbia. Este plano foi projetado para fornecer aos países africanos francófonos uma alternativa ao franco francês (CFA).”

Esses e-mails expõem claramente os cinco motivos da França e os EUA terem derrubado Gaddafi, e nada tem a ver com o bem-estar da população líbia: obter petróleo do país, garantir a influência francesa na região, aumentar a reputação de Sarkozy no mercado interno, afirmar o poder militar francês e impedir a influência de Gaddafi no que é considerada África francófona.

Mas o que se sabe, é que Kadafi , mesmo derrotado por forças internacionais ilegítimas, era um ditador de um país em que a população estava cansada de seu despotismo. 

Fora do poder, Gaddafi se refugiou no último recanto de apoiadores de sua liderança, Sirte. Lá, foi atacado por legiões de opositores da população, que o obrigaram a buscar esconderijos. Enquanto isso, a OTAN lançava bombardeios contra o local, que chegaram a atingir e debilitar Kadafi.

Durante um segundo bombardeio, ele se refugiou em um tubo de drenagem da cidade, onde foi encontrado pela população. A partir daí, o processo virou uma confusão, pois houve um grande linchamento coletivo. Gaddafi levou socos, chutes, foi lançado ao chão e até levou tiros com a sua famosa pistola de ouro maciço.

A população ainda fez um festejo ao redor do corpo do ditador, ainda vivo e agonizando, durante uma passeata. Não se sabe ao certo qual foi o golpe que matou Kadafi, uma questão que divide opiniões. Afinal, o linchamento que ele recebeu só é conhecido por filmagens amadoras de câmeras particulares de quem participava do episódio.

A própria necropsia do seu cadáver foi inconclusiva, pois o médico responsável foi ameaçado de morte e teve que destruir os resultados. O que se sabe são as palavras finais do ditador, que implorava por misericórdia: “O que eu fiz para vocês?”.


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2. Die letzte Nacht des Muammar al-Gaddafi, de Yasmina Khadra (2016) - https://amzn.to/2OZtJdv

3. Gaddafi's the Green Book, de Muammar al-Gaddafi (2016) - https://amzn.to/2VTvpa1

4. History of Libya Under Muammar al-Gaddafi, de Frederic P. Miller, Agnes F. Vandome e John McBrewster (2011) - https://amzn.to/2J3SUYR

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