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Museu Verreaux: O filho da África empalhado

Em pé em sua vitrine, ligeiramente inclinado e com um olhar angustiado, o homem representava os aspectos mais sombrios e terríveis do passado colonial europeu

M. R. Terci Publicado em 16/04/2020, às 11h00

Homem empalhado no Museu Verreaux
Homem empalhado no Museu Verreaux - Divulgação

Os registros de época, muitas vezes têm feições distintas, assombrosas e desumanas. Grande parte dos documentos históricos, no final do século 18 e início do século 19, se deve às impressões pessoais de viajantes, aventureiros e soldados que, para além do espírito desbravador e prático de diagnosticar riquezas em terras longínquas, mesmo com limitados conhecimentos, tiveram um viés utilitário que contribuiu para forçar as barreiras que imobilizavam a ciência natural. 

À imaginação dos aventureiros, ajuntara-se a tradição das cidades abandonadas, dos templos perdidos e cemitérios proibidos, à semelhança daqueles que nos planaltos andinos desafiavam a ciência do arqueólogo e a contemplação estupefata dos viajantes.

Naquele século, suas obras passaram pelo crivo da ciência emergente e os aventureiros tornaram-se naturalistas. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, conhecer a mais terrificante de suas aventuras.  

Em 1830, interessados em ampliarem a coleção de animais exóticos exibidos na Europa, dois irmãos franceses, Edouard e Jules Verreaux, viajaram para a África do Sul.

Os irmãos Verreaux trabalhavam na Maison Verreaux, uma empresa familiar fundada por seu pai em 1803, em Paris, conhecida por ser a primeira empresa no mundo a lidar com objetos da história natural. A família Verreaux, assim, financiava e supervisionava expedições em várias partes do mundo, terras distantes localizadas na África, América do Sul e Austrália.

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Homem empalhado / Crédito: Divulgação

Naquela época, quando a fotografia ainda não havia sido aprimorada o suficiente, nem sempre se podia transportar animais vivos, e uma das maneiras de saciar a curiosidade do público europeu, para além do desenho e da pintura, era a taxidermia. De fato, no museu da família Verreaux, os visitantes podiam apreciar de perto exemplares empalhados de leões, girafas, elefantes, rinocerontes, macacos e aves de todos os tipos e portes.

Quando viajaram para Botsuana, na África Austral, ao passarem por uma das aldeias, os irmãos Verreaux testemunharam o enterro de um guerreiro tswana. O funeral feito com grande pompa – o que incluía o sacrifício de um boi – atraiu a atenção dos irmãos que resolveram pernoitar nas proximidades. Mais tarde, um dos guias tomou conhecimento de que o guerreiro havia sido morto durante uma disputa tribal. Tratava-se, então, de um guerreiro destinado a ser lembrado e celebrado pelas gerações futuras dos tswana.

Os irmãos Verreaux decidiram que toda a Europa deveria conhecer e celebrar a história do finado e que o cadáver daquele homem seria o butim natural de sua aventura na África. Sob o manto da noite, retornaram ao local do sepultamento sob o pretexto de desenterrar o corpo do africano, roubar a pele, o crânio e alguns ossos.

Logo, diante da temeridade do ato, correndo o risco de serem descobertos e mortos por algum vigia da aldeia, fugiram dali levando o corpo consigo.

Os irmãos pretendiam enviar o cadáver intacto de volta a França, mas o clima do continente aliado ao tempo da viagem não facilitaria as coisas. Jules, então, preparou e preservou o cadáver do guerreiro fazendo uso de algumas técnicas da taxidermia e outras mais, incluindo fios de metal, tábuas de madeira e enchimento de jornal. Logo que se sentiram confiantes, os irmãos despacharam o corpo para Paris, escondido numa caixa, junto a um lote de animais empalhados.

O showroom nº 3 do Museu Verreaux foi aberto ao público numa tarde de verão de 1831. Em pé em sua vitrine, ligeiramente inclinado e com um olhar angustiado, aquele homem representava os aspectos mais sombrios e terríveis do passado colonial europeu. Uma lança em uma das mãos, escudo na outra; um registro de época com feições bem distintas.

O público gostou. Filas se formavam do lado de fora, pessoas se acotovelavam diante da vitrine para ver o homem empalhado, filho da África sequestrado de sua sepultura.

Jules Verreaux viajou para a Austrália em 1842 para coletar plantas, retornando à França apenas em 1851 com uma coleção de história natural que continha 15 mil itens. Mas após um homem empalhado, ficou difícil renovar o interesse do público. Em 1864, Jules se afastou dos negócios da família e se tornou naturalista assistente no Museu de Paris.

Como um faraó vilipendiado de sua tumba, o guerreiro carregava consigo a maldição que atiçou o enfado parisiense. Se por um lado o sucesso do homem empalhado rendeu fortuna aos irmãos Verreaux, por outro, a má administração da fortuna por Edouard e o fastio do público – sempre carente de novidades – levaram o Museu à falência.

Edouard Verreaux vendeu parte de sua coleção, incluindo o guerreiro tswana, a Francesc Darder, veterinário catalão, primeiro diretor do zoológico de Barcelona. Após 1916, no Museu de Banyoles e mais tarde no Museu da Catalunha, o homem empalhado foi exposto novamente ao público.

Uma das amostras do museu / Crédito: Divulgação

 

Mesmo ali, ninguém celebrava sua história. A vida do guerreiro, do pai, do filho, do irmão, marido, do homem que era, ninguém jamais soube. Sua fama veio de suas viagens póstumas - que duraram 170 anos - como as para exibições subsequentes em museus da Espanha. Pelas cidades que passava, ganhava fama a nomenclatura desumana que lhe afiançaram: El Negro, um dos mais famosos e menos invejados filho da África.

Gerações de europeus ficaram boquiabertas com o corpo seminu, que havia sido empalhado por um taxidermista. Ali ele ficou, sem nome, exibido como um troféu, atração principal do cortejo de horrores chamado naturalismo.

Em 1992, contudo, um médico haitiano chamado Alphonse Arcelin sugeriu, em cartas para os jornais espanhóis, que El Negro deveria ser retirado do museu. Os Jogos Olímpicos estavam vindo para Barcelona naquele ano e “com certeza”, escreveu ele, “atletas e espectadores que visitassem o museu local poderiam se sentir ofendidos com a visão de um homem negro empalhado”.

El Negro se tornou um embaraço. Não só houve aumento de culpa e consciência sobre o fato de que seu corpo e túmulo haviam sido violados, como ficou clara a ideia de que ele, como um artefato europeu do século XIX, refletia ideias que haviam se tornado universalmente insustentáveis.

O pedido de Arcelin foi apoiado por nomes importantes, como o do pastor americano Jesse Jackson, e o jogador de basquete Magic Johnson. O ganês Kofi Annan, então secretário-geral assistente da ONU, condenou a exibição dizendo que ela era "repulsiva" e "barbaramente insensível".

Com a pressão pública gerada, o homem empalhado foi retirado da exposição, mas em 1997 voltou a ser exibido ao público. O povo catalão havia abraçado El Negro como um tesouro nacional e somente em 2000, após longas consultas com a Organização para a Unidade da África, a Espanha concordou em repatriar os restos humanos para Botswana, de modo que se celebrasse um novo enterro cerimonial em solo africano.

Seu corpo empalhado foi desprovido de tudo que havia sido adicionado anteriormente por Jules Verreaux, jornais, madeira, arame e olhos de vidro. Seus restos mortais foram velados na capital Gaborone, onde mais de 10 mil prestaram suas últimas homenagens ao guerreiro.

No 5 de outubro de 2000, houve bênçãos, cantos e danças e ele foi enterrado em uma área cercada no Parque Tsholofelo, diante de uma placa memorial onde se pode ler: “O Negro. Ele morreu em 1830. Filho da África. Seu corpo foi levado para a Europa. Ele retornou em 2000 para o solo africano”.

Um longo caminho de volta para casa.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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