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“Ingredientes que levaram à construção de campos ainda existem”: Os 76 anos da libertação de Auschwitz

Em entrevista exclusiva, Carlos Reiss, Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, fala sobre a importância de discutir os motivos que levaram ao Holocausto

Fabio Previdelli Publicado em 24/01/2021, às 00h00

Prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz
Prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz - Getty Images

O próximo dia 27 de janeiro marca os 76 anos da libertação de Auschwitz. Quando o Exército Vermelho chegou aos campos poloneses, que eram comandados por nazistas, somente os enfermos haviam sido deixados para trás. Gravemente feridos e doentes, eles foram largados à própria sorte.  

Segundo estima a Enciclopédia do Holocausto, do United States Holocaust Memorial Museus (USHMM), somente no complexo de Auschwitz (o que inclui Birkenau, Monowitz e seus subcampos), aproximadamente 1 milhão de judeus foram mortos pelos comandados pelo Führer — o que representa cerca de 1/6 do total de judeus mortos durante o Holocausto.  

Entrada do campo de concentração de Auschwitz / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, será que após mais de sete décadas de um dos maiores genocídios da história, as pessoas, ainda hoje, possuem real dimensão das atrocidades que foram cometidas na Segunda Guerra?

Será que o crescimento do antissemitismo no mundo, e de outros crimes de ódio contra minorias, podem, um dia, se assemelhar com a brutalidade cometida por Hitler

Pensando na data, o site Aventuras na História conversou com Carlos Reiss, Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba. Diante da pandemia do novo Coronavírus, a instituição não abriu as portas, contudo, o trabalho de dar voz aqueles que foram silenciados no passado tem sido feito de maneira virtual. 

“O Holocausto é uma ferramenta educativa poderosa para que, por meio das histórias pessoais, possamos transmitir valores: como a tolerância, democracia, liberdade, pluralidade, alteridade, direitos humanos, equidade, diversidade, justiça, resistência, resiliência, o valor da vida, entre outros”, explica Carlos. 

Para ele, é importante entender que a memória de qualquer evento histórico é sempre uma contrução constante. Em outras palavras, nós não guardamos nem resguardamos memórias, e sim a constuímos diariamente. 

Assim, é possível fazer conexões com o passado para entender o que acontece no presente e, até mesmo, para desenhar o que pode se desenrolar no futuro.  

“Falar sobre o Holocausto precisa estar ligado às narrativas sobre o Racismo (estrutural e intenso), sobre a violência contra a mulher, a LGBTIFobia, a intolerância religiosa, a xenofobia, o Antissemitismo, a outros genocídios, o acolhimento a refugiados, a inclusão de pessoas com deficiência”, diz Reiss. “Universalizar a memória da Shoá é decodificar a tragédia e retirar dela esses valores, que podem ser compartilhados”.  

Entretanto, para isso, Carlos acredita que nosso sistema educacional precisa tratar o assunto mais do que um simples “rodapé de livro”, para poder lidar com as “lições que o Holocausto pode nos proporcionar”.  

 
 
 
 
 
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Ele acredita que o tema não deva ser conectado, exclusivamente, à 2ª Guerra Mundial. “A conscientização só vai existir se traçarmos paralelos constantes com a atualidade e desenvolvermos a empatia dos jovens por meio de histórias pessoais. Para isso, precisamos de educadores que compreendam a transdisciplinaridade e como o tema perpassa por tantos aspectos das nossas vidas”, explica. 

O antissemitismo

Dados analisados pela Universidade de Tel Avivi em 2018, que foram divulgados em 2019, mostram que, ao redor do mundo, mais de 400 atos antissemitas foram registrados, o que representa uma taxa 13% maior em comparação ao ano anterior.

O índice, inclusive, foi debatido por Moshe Kantor, ativista e fundador do World Holocaust Forum, durante o início das comemorações internacionais do fim do holocausto em Jerusalém no ano passado. 

“Os números mostram que o Antissemitismo cresce, e sempre nos preocupa e sempre nos vai preocupar. Porém, o problema é mais complexo do que analisar apenas o crescimento — já que os números do Racismo e dos ódios como um todo também estão crescendo na mesma proporção. É um fenômeno mundial e os dados são alarmantes”, avisa Reiss

Túmulos de judeus vandalizados por neonazistas / Crédito: Divulgação

 

Para o Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, o antissemitismo, ainda, se manifesta de muitas formas, não apenas em comentários preconceituosos na internet ou ataques a símbolos judaicos.

“Existem os fenômenos do negacionismo (e não só a negação do Holocausto), do antissionismo (que pode ou não estar vinculado ao Antissemitismo), do neonazismo e dos grupos skinheads. Existe a perpetuação de mitos antissemitas, do judeu subversivo, do judeu conspirador, do judeu pária, tudo se manifestando em formas, fontes e objetivos diferentes”, explica. 

Para ele, a negação e a manipulação da História e da Ciência têm sido analisadas a olho nu e se misturam com questões políticas e econômicas, de cunho nacionalista e racista. “O negacionismo não é um ‘privilégio’ nefasto apenas do Holocausto”. 

A perseguição

Uma das propostas do Museu do Holocausto de Curitiba é a de resgatar e contar histórias de vítimas do genocídio nazista seguindo o propósito de atuar como agente transformador da sociedade a partir dos direitos humanos. Assim, é possível combater o desprezo social e desumanização atreladas a preconceitos debatidos atualmente. 

“É assombroso, em pleno século 21, ainda termos que convencer parte da sociedade e dos governantes de que a intolerância religiosa não apenas existe, como é nociva a todos nós”, diz ao explicar que a intolerância às religiões de matriz africana é um retrato do racismo presente desde os tempos da colonização.  

“É importante que as pessoas saibam que a intolerância às religiões de matriz africana não está ligada apenas a uma questão teológica, de uma crença diferente, e sim de uma questão absolutamente racista. Esta forma de intolerância afirma explicitamente que a população negra não pode manifestar sua crença apenas pelo fato de serem negros. E isso é ao mesmo tempo triste, preocupante e perigoso”. 

São essas possibilidades, de traçar paralelos entre o que acontece hoje com eventos históricos, que levam Carlos a afirmar que crueldades, como as registradas em Auschwitz, não apenas têm chance de ocorrerem novamente, como presenciamos várias vezes por dia em diversas partes do mundo e não damos conta.  

Entrada de trem de Auschwitz / Crédito: Getty Images

 

“Auschwitz faz parte de um processo que nós convencionamos chamar de ‘genocídio’ e que possui fases, etapas planejadas. Dentre elas, a identificação de indivíduos, a discriminação, a marginalização e a perseguição”, explica. 

“Se pensarmos nesse processo... A ideia de que pessoas se sintam superiores a outras continua existindo. Seja em função da orientação sexual, da religião, da cor da pele, da nacionalidade ou por qualquer outro aspecto sociocultural, os ingredientes que levaram à construção de campos de extermínio nazistas ainda existem”, conclui.


Em virtude da pandemia do novo coronavírus, o Museu o Holocausto de Curitiba permanece fechado por tempo indeterminado. 

 
 
 
 
 
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Você pode conhecer mais sobre o Museu do Holocausto de Curitiba através das redes sociais (Instagram, FacebookTwitter).


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