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Luz, câmera e despotismo: o diretor e a atriz que foram sequestrados pelo pai de Kim Jong-Un

Kim Jong-il fez de tudo para inflar a indústria cinematográfica da Coreia do Norte — até quando isso significou filmar à força

Vanessa Centamori Publicado em 28/07/2020, às 17h18

Cena do documentário The Lovers and the Despot
Cena do documentário The Lovers and the Despot - Divulgação/Magnolia Pictures & Magnet Releasing

Na década de 1990, Kim Jong-il, o pai hoje já falecido do ditador Kim-Jong-Un, começou a assumir a mãos de ferro a diretoria da Divisão de Cinema e Artes da Coreia do Norte. Não por acaso, a pasta governamental pertencia ao Departamento de Propaganda e Agitação. Ou seja, de arte pura não restava quase nada: a indústria cinematográfica do regime ditatorial estava sob o domínio propagandístico.

Tratava-se de um instrumento de doutrinação. Logo, o cinema deveria ser muito bem manipulado pelo líder supremo vigente. Convencionalmente, Kim Jong-il era um grande apaixonado por filmes: havia cerca de 15 mil em sua biblioteca pessoal.

Essa paixão, somada à megalomania do seu centralizado sistema de poder, geraram uma soma excessiva. Mas nada era demais aos olhos ambiciosos do ditador, que mandou sequestrar um casal — um diretor e uma atriz — para que a Coreia do Norte fosse destaque no cenário cinematográfico mundial. 

Propaganda do regime de Kim Jong-il / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Luz e câmera

A primeira a ser vítima do sequestro foi a atriz sul-coreana Choi Eun-hee, que foi enganada com uma proposta ilusória de dirigir um filme em Hong Kong, em 1978. Espiões norte-coreanos acabaram a persuadindo. Ela estava indo até uma falsa reunião quando o seu suposto guia (que trabalhava para a Coreia do Norte) a transferiu para um navio cargueiro.

O destino da atriz foi a nação comandada por Kim Jong-il. Por lá a profissional ficou alojada em uma casa de luxo, sendo orientada por um tutor para que ela obedecesse corretamente às ordens do déspota. O próprio mais tarde a levou para ver filmes, óperas, musicais e festas.

Por cinco anos, no entanto, a atriz não ficou ciente de que estava sendo abduzida, mas logo a revelação chegou, em parte por influência do seu companheiro de cárcere. Ele era Shin Sang-ok, seu ex-marido e diretor, que depois do sumiço, resolveu procurá-la. As circunstâncias sob as quais o diretor foi capturado até hoje são nebulosas.

Choi Eun-hee e Shin Sang-ok, o casal que foi sequestrado por Kim-Jong-il / Crédito: Divulgação/Magnolia Pictures & Magnet Releasing

 

Déspota em ação 

 A dupla permaneceu sob o cárcere do ditador da Coreia do Norte por oito anos. As vítimas tiveram que se adaptar à situação, tentando impressionar Kim Jong-il ao máximo para não haver represálias. O caso foi descrito por Paul Fischer no livro Uma Produção de Kim Jong-il (2016).

Segundo o autor, a rotina dos prisioneiros "era a mesma, dia após dia, confinados em casa e assistindo a cerca de quatro filmes por dia. Os filmes eram escolhidos para eles, sem que fossem consultados, e incluíam títulos da União Soviética e do Leste Europeu, assim como dois americanos, Dr. Jivago e, estranhamente, Papillon". 

Sob esse dia a dia, Shin Sang-ok e Choi Eun-hee foram encaminhados até os escritórios do Grupo Criativo Paekdu, que ficava em Pyongyang, onde substituiriam a antiga equipe cinematográfica. Embora tivessem sido forçados a trabalharem para Kim, nunca tinham o conhecido de fato. 

Após longa espera para encontrarem pela primeira vez o ditador cara a cara, a dupla finalmente se reuniria com Kim Jong-il em 19 de outubro de 1983. O diretor estava determinado a perguntar ao líder supremo porque havia os sequestrado e tinha um plano em mente.

Trouxe à reunião um gravador que manteve escondido na bolsa de Choi para registrar o momento para a ocasião de uma futura fuga. "Queria razões, mas também provas, no caso de conseguirem sair da Coreia do Norte, de que não haviam desertado", explicou Fischer, no livro. "Ele precisava de provas saídas diretamente da boca de Kim Jong-il".

 Kim Jong-il com apoiadores / Crédito: WIkimedia Commons 

 

Gravar secretamente o ditador, entretanto, era considerado uma grave infração. Ainda assim, por sorte, os raptados não foram pegos e Choi registrou 45 minutos das duas horas de um egocêntrico discurso sem pausas de Kim Jong-il.

O líder norte-coreano admitiu que a escolha da captura foi feita sob o critério de que Shin Sang-ok era o melhor diretor da Coreia do Sul (nação historicamente inimiga da Coreia do Norte). Disse ainda que tinham trazido antes Choi apenas para tentar o homem, que era o alvo principal.

Além disso, disse que a operação secreta que sequestrou o diretor passou por falhas, já que algumas autoridades se recusaram a acreditarem na submissão das vítimas. "Meus camaradas achavam que, se madame Choi viesse, naturalmente o professor Shin também viria", afirmou Kim, ainda segundo a obra. 

"Mas, como o senhor sabe, nossos oficiais de nível operacional são muito subjetivos e burocráticos e, desse modo, ao lidarem com a questão, não a trataram adequadamente”, completou Jong-il. O ditador assim teria assegurado ao diretor e a atriz que as pessoas responsáveis pela questão haviam sido punidas.

Um golpe contra a ditadura

Enquanto a dupla trocava elogios (falsos) com o soberano da Coreia do Norte, ele tentou convencê-los de fazer propaganda. O casal teve que rodar vários filmes de Kim Jong-il e viajou até festivais de cinema e filmagens, sempre sob a vigia de agentes norte-coreanos.

Além disso, mesmo que fossem divorciados, o diretor e a atriz tiveram até que voltar a se casar durante uma viagem a Hungria a pedido de Kim. Ele prometia proteção aos dois. “Serei seu escudo”, dizia o ditador, segundo Fischer, que reforçou que ambos eram instrumentos de propaganda nas mãos do supremo líder.

Choi Eun-hee, a atriz que foi sequestrada por Kim-Jong-il / Crédito: Wikimedia Commons 

 

“Por que os senhores não fazem o seguinte? Os senhores podem dizer, ao conhecer alguém de fora, que não existe liberdade no Sul, não existe democracia. E que há muita interferência na indústria criativa. Há apenas anticomunismo", exigia o déspota. 

O casal faria isso e muito mais, devido ao medo implantado pelo norte-coreano. No entanto, logo o disfarce caiu um golpe de coragem foi dado. Depois de uma participação no Festival de Berlim, em 1986, a atriz e o diretor lideraram uma fuga espetacular com a ajuda da embaixada dos Estados Unidos em Viena. Estavam finalmente livres das exigências definitivas de Kim Jong-il.

Os dois moraram nos Estados Unidos por mais de uma década e voltaram a Coreia do Sul em 1999. Tiveram finais de vida longe das amarradas da Coreia do Norte. Shin faleceu aos 79 anos em 2006 e Choi morreu em 2018, aos 91 anos. 


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