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O marcador militar do Anjo das Pernas Tortas

A eleição presidencial de 1960, a copa do mundo e a ditadura militar marcaram a vida da cantora brasileira Elza Soares e do jogador de futebol Mané Garrincha.

José Renato Santiago Publicado em 15/01/2019, às 08h09 - Atualizado em 16/01/2019, às 09h58

Elza Soares e Garrincha
Elza Soares e Garrincha - Getty Images

A eleição presidencial em 1960 foi uma das mais marcantes da história do Brasil. Por conta da revolução que viria a acontecer em 1964, que resultaria na instauração de uma ditadura militar, a população brasileira apenas voltaria a ter o direito de votar para presidente da república em 1989, quando Fernando Collor de Mello foi eleito.

Na disputa eleitoral de 1960 o matogrossense Jânio Quadros, do PTN (Partido Trabalhista Nacional), foi o vencedor ao obter 5.636.623 de votos, cerca de 48% do total, à frente do Marechal Henrique Lott e de Adhemar de Barros que ficaram, respectivamente, com 33% e 19% da votação. Em tempos em que o vice-presidente era votado de forma independente, foi eleito o gaúcho João Goulart, o Jango, que já fora vice do presidente anterior Juscelino Kubitschek, à frente de Milton Campos e Fernando Ferrari. Outra característica interessante desta eleição foi o uso de jingles que se tornaram históricos.

O “Varre Varre Vassourinha” de Jânio Quadros ainda hoje é o dos mais lembrados. Mas o de Jango também não ficou muito atrás e com uma melodia ‘grudenta’ conquistou o eleitorado: “Na hora de votar eu vou jangar / Eu vou jangar / É Jango, é Jango / É o Jango Goulart / Para vice-presidente, nossa gente vai jangar / É Jango, é Jango / É o Jango Goulart”.

Uma das jovens cantoras que o gravou foi Elza Soares, então com 23 anos e que começava a se destacar no cenário artístico nacional ao gravar músicas de samba e bossa nova. De origem muito humilde, ela que já era viúva e tinha dado à luz a sete filhos, dois deles mortos antes de sequer ter nomes, era reconhecida como uma nova estrela da música brasileira. Dona de uma beleza brejeira, Elza foi convidada para ser madrinha da seleção brasileira de futebol e a acompanhar à equipe até as terras chilenas onde aconteceria a Copa do Mundo de 1962. Meses antes, no entanto, ela já chamara a atenção de um talentoso jogador do ‘escrete canarinho’, simplesmente do grande Mané Garrincha, o “anjo das pernas tortas”. A paixão foi intensa e proporcionou um romance clandestino, uma vez que Mané era casado, que rendeu tórridas noites de amor vividas pelo casal durante a competição que viria a ser novamente conquistada pelos brasileiros.

Para muitos, a presença de Elza na concentração ajudou Garrincha a se manter sereno e focado no futebol. Não por acaso, ele foi escolhido o maior jogador daquela edição da Copa do Mundo e um dos grande responsáveis pelo bicampeonato mundial da seleção brasileira, cabendo lembrar que Pelé, o maior nome do futebol nacional se contundira ainda na segunda partida da competição. Segundo Rui Castro, autor da biografia de Garrincha, o livro “Estrela Solitária”, muito do empenho de Mané em campo se deveu a sua vontade de impressionar seu grande amor, Elza.

Elza e Garrincha Wikimedia Commons

Anos depois, após a renúncia de Jânio Quadros, que alegou a presença de ‘forças ocultas’, a posse de Jango, de quem havia grande desconfiança por conta de sua suposta proximidade ao comunismo, e sua queda após o golpe militar de 31 de março de 1964, que viria a instalar um regime ditatorial no país, se iniciou uma verdadeira ‘caça as bruxas’ aos que, de algum forma, eram reconhecidos por serem comunistas ou mero simpatizantes. Foram anos de perseguição política que provocou a morte e desaparecimento de muitos, considerados, inimigos do regime. Já com a carreira em declínio, Mané passou a ser sustentado por Elza, uma cantora de sucesso que, politizada, costumava frequentar os mais populares eventos culturais do país juntamente com outros nomes que costumeiramente eram vigiados de perto pelo regime militar. Este fato, associado com sua experiência anterior cantando os jingles de Jango, bem como sua presença em atos de apoio à ele, viriam a causar transtornos na vida do casal.

Em 20 de junho de 1964, eles tiveram sua casa invadida e sofreram ameaças, segundo relato feito por Ruy Castro:

“Os homens que invadiram a casa de Garrincha e Elza podiam pertencer a qualquer um desses grupos (exército e marinha), mas não deixaram registro escrito em nenhum órgão daquela época. E também não apresentaram cartões de visita (…) Na casa estavam Garrincha, Elza, dona Rosária, e três filhos de Elza: Carlinhos, Dilma e Gilson. Os homens os puseram nus contra a parede da sala enquanto reviravam a casa pelo avesso. Não disseram se estavam procurando alguém ou alguma coisa, mas, no meio da confusão, Elza julgou ouvir várias vezes o nome de Jango. Não podiam estar procurando o presidente deposto – este já estava posto em sossego desde o segundo dia do golpe, numa de suas fazendas no Uruguai (…) Aparentemente satisfeitos com o estrago, os sujeitos foram embora. Não levaram nada. Mas, para provar que não estavam brincando, um deles, antes de sair, trouxe a gaiola com o mainá para a sala. Abriu a portinhola e tirou o mainá lá de dentro. Depois de exibi-lo para Garrincha e os outros, torceu-lhe o pescoço. Atirou-o morto no chão e saíram (…) Dois dias depois os jornais deram a notícia, mas convenientemente maquiada: a casa de Garrincha e Elza fora arrombada enquanto eles dormiam. Os ladrões haviam matado o pássaro que ele ganhara de Lacerda. Os homens teriam entrado e saído em silêncio, que só de manhã os donos da casa viram o que acontecera (…) Elza queria evitar que a notícia ganhasse conotação política. Garrincha tentou minimizar a história"

 

O episódio marcou definitivamente a vida de Garrincha, que, pela primeira vez, pode se confrontar com a realidade imposta pelas autoridades do regime militar aqueles que eram enxergados como inimigos. Bicampeão mundial, ainda que já não estivesse no melhor de sua forma física, Garrincha ainda disputou a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, quando a seleção brasileira foi eliminada ainda na primeira fase da competição. Já no princípio do ano de 1970, em meio ao período governado pelo presidente Medici, Garrincha e Elza passaram a receber telefonemas e cartas anônimas ameaçadoras. Por conta disso e ainda tendo na memória todo o terror vivido anos antes, o casal resolveu deixar o país em direção da Itália.

Elza com seu diploma de Embaixatriz do samba, e Garrincha ao seu ladoWikimedia Commons

Foi de um quarto de hotel em Roma, que assisitiram a seleção brasileira se tornar tricampeão mundial de futebol no México. A comemoração, em plena terra dos derrotados naquela final, aconteceu em uma pizzaria na companhia de um amigo ilustre, o comediante Juca Chaves. Este exílio duraria mais alguns meses, período em que Elza fez uma série de shows na Europa, enquanto Mané, recém aposentado dos campos, se limitava a beber nos inúmeros quartos onde fora hóspede. Em outra oportunidade, em Portugal, coube ao apresentador Flávio Cavalcante e Maurício Sherman, que dirigia um programa na extinta TV Tupi, presentearem Garrincha com uma camisa da seleção brasileira como uma forma de homenageá-lo. Mané recebeu o presente com resignação, totalmente apolítico, não compreendia o porque, embora bicampeão mundial, teria que viver longe de seu país.

De volta ao Brasil, Garrincha viria a se despedir oficialmente dos gramados em 19 de dezembro de 1973, em uma partida amistosa realizada no estádio do Maracanã, no chamado ‘Jogo da Despedida’, cuja renda fora plenamente revertida para ele. Os quase 160 mil dólares de arrecadação ajudaram muito sua família, ainda assim, ele viria a falecer pobre em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, em decorrência do alcoolismo. Aos 81 anos, em 2018, Elza Soares ainda é uma das cantoras mais requisitadas do país, vencedora, dois anos atrás, do Grammy Latino pelo melhor álbum de música popular brasileira.