Musashi: A alma do samurai

Neste dia, em 1612, o mais famoso dos samurais vencia o duelo mais célebre de sua carreira — um entre mais de 60 outros

sexta 13 abril, 2018
Musashi é considerado pelos japoneses o maior guerreiro de todos os tempos
Musashi é considerado pelos japoneses o maior guerreiro de todos os tempos Foto:AH

Da sua ascensão à elite do país até o ocaso, os samurais moldaram por 700 anos valores que ainda são caros aos japoneses de hoje. Prova disso é a popularidade daquele que é considerado o maior de todos os samurais, Miyamoto Musashi. Nas narrativas sobre Musashi, ficção e realidade misturam-se para aumentar o mistério em torno dele. Há passagens obscuras em sua vida, a começar pelo local e pela data de nascimento.

Infância e adolescência

A versão mais corrente é a de que ele nasceu em 1584 na província de Harima (atual Hyogo, sudeste do país). Seu nome: Shinmen Musashi No Kami Fujiwara No Genshin. A mãe morreu logo após dar à luz, enquanto o pai, o samurai Shinmen Munisai, foi uma figura ausente. Deu ao filho as primeiras lições de manejo da espada, mas, quando Musashi ainda era criança, desapareceu.

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O ressentimento com o pai pode ter contribuído para o temperamento agressivo de Musashi, que já sofria por causa de sua aparência – tinha cicatrizes na pele provocadas por sífilis congênita. Aos 13 anos, duelou com um samurai já famoso, Arima Kihei. Atacou furiosamente o adversário e o golpeou até a morte.

Aos 16 anos, venceu outro duelo, contra Tadashima Akiyama. “Musashi não tinha técnica alguma e tirava proveito de sua força física”, diz Jorge Kishikawa, mestre em artes marciais e criador do Instituto Niten, representante no Brasil do estilo de luta com espadas desenvolvido por Musashi na maturidade.

Por volta de 1600, Musashi alistou-se nas forças do clã Ashikaga, que brigava pelo poder no Japão. Sobreviveu à derrota na Batalha de Sekigahara, da qual saiu vitorioso o general Tokugawa Ieyasu. Depois disso, Ieyasu e seus descendentes governariam o país com mão de ferro por dois séculos e meio.

No célebre O Livro dos Cinco Anéis (“Gorin no Shô”), obra que escreveu no fim da vida, Musashi não faz qualquer menção à batalha, na qual se estima que morreram cerca de 70 mil homens. O livro de Yoshikawa, no entanto, afirma que Musashi sobreviveu à batalha e passou a vagar como um ronin (samurai sem um senhor a quem servir). Na época, Tokugawa tinha os daimiôs (senhores feudais) sob controle, o Japão estava em paz e muitos samurais tornaram-se burocratas ou passaram a dedicar-se às artes.

A vida como Ronin

Outros, como Musashi, levavam a vida perambulando pelo país à procura de adversários para medir forças. Mas, ao contrário de muitos ronins, Musashi não encarava esses combates como um passaporte para a fama ou para um bom emprego nos palácios. Ele queria era desenvolver sua técnica de esgrima.

“Musashi não teve mestre e aprendeu a manejar a espada na prática. Foi pela experiência que compreendeu a profundidade do caminho do guerreiro”, diz Jorge. Esse caminho tem um nome em japonês: bushidô. Ele é um código de honra não-escrito que rege a conduta dos samurais.

Ficção e realidade misturam-se para aumentar o mistério em torno de Musashi AH

Reunindo princípios do xintoísmo, budismo e confucionismo, o bushidô enfatizava valores como bravura, justiça, lealdade, autocontrole e senso de gratidão. Para os samurais, aperfeiçoar-se no manejo da espada era uma forma de fortalecer o espírito e alcançar essas virtudes.

É claro que, no início de sua carreira de espadachim, Musashi ainda não tinha noção de tudo isso.

Duelos

Em 1605, aos 21 anos, partiu em peregrinação para Kioto, então capital do país. Logo ao chegar, desafiou Yoshioka Seijuro, um respeitado instrutor de esgrima cuja família teria, no passado, tido um entrevero com Munisai, o pai de Musashi. Munisai teria abatido dois membros da família Yoshioka em duelos. Na terceira luta, porém, teria sido derrotado.

Musashi enfrentou Seijuro num duelo e o venceu usando apenas um bokken (espada de madeira, usada para treinos). Humilhado, Seijuro renunciou à vida de samurai. Coube ao irmão dele, Denshichiro, desafiar Musashi para salvar a honra da família. Demonstrando sua noção de estratégia, Musashi chegou deliberadamente atrasado ao local da luta, o que irritou Denshichiro e lhe tirou a concentração. Musashi o matou com um golpe na cabeça, novamente com um bokken.

Os Yoshioka lançaram então novo desafio em nome de Hanshichiro, um menino de 11 ou 12 anos, que seria acompanhado por um grupo de samurais. Consta que a intenção era preparar uma emboscada para Musashi. No entanto, ele mudou de tática e, dessa vez, chegou cedo ao local do duelo e se escondeu. No momento certo, saiu do esconderijo e surpreendeu os adversários. Matou Hanshichiro e, com uma espada em cada mão, enfrentou todos.

Na época, os samurais eram os únicos que podiam portar espadas. Costumavam levar duas delas à cintura: o kataná (com 60 a 90 centímetros de comprimento) e o wakizashi (30 a 60 centímetros). Este era usado apenas em lutas em ambientes fechados.

Em geral, os samurais seguravam o kataná com as mãos, mas Musashi desenvolveu um novo estilo que ficou conhecido como nitô ichiryu (“duas espadas, uma escola”) ou niten ichiryu (“dois céus, uma escola”). Ele usava esse recurso quando enfrentava mais de um opositor, tirando proveito do porte avantajado (ele tinha mais de 1,80 metro), o que o permitia segurar uma espada em cada mão.

Depois dos embates com os Yoshioka, Musashi enfrentou samurais dos mais diferentes estilos. Ao todo, foram mais de 60 duelos. Em O Livro dos Cinco Anéis, Musashi afirma que jamais foi derrotado. Mas há controvérsias.

Musashi enfrentou samurais de diversos estilos em mais de 60 duelos AH

Segundo outra versão, relatada em Kaijo Monogatari, em obra apócrifa de 1629, ele enfrentou duas vezes um guerreiro chamado Muso Gonnosuke, em 1605. Na primeira, Musashi foi o vencedor. Na revanche, Gonnosuke usou uma nova arma, o jô, um bastão de madeira, e derrotou Musashi. Os dois teriam se tornado amigos desde então.

O mais célebre duelo de Musashi foi contra outro espadachim de renome, Sasaki Kojiro, e ocorreu em 14 de abril de 1612, em Funajima, uma ilhota na região de Kyushu, no sul do país. De acordo com o relato de Yoshikawa, Musashi repetiu a tática de atrasar-se para o duelo com o objetivo de enervar seu oponente. Durante a travessia até a ilha, esculpiu uma espada com o remo do barco. Estava sujo e despenteado e surpreendeu Kojiro com sua aparência. Correu em direção ao rival e Kojiro atingiu a faixa que Musashi usava na cabeça. No instante seguinte, Musashi derrubou Kojiro com um golpe certeiro no crânio. (Veja mais detalhes da luta ao final da matéria.) 

Futuro incerto

Depois desse duelo, Musashi sumiu do mapa. Segundo Yoshikawa, pouco se sabe sobre a vida dele depois disso. O samurai nunca se casou, mas adotou um menino chamado Iori. Há relatos de que, em 1614 e 1615, Musashi se juntou às tropas de Tokugawa Ieyasu no cerco ao castelo de Osaka, onde o clã Ashikaga havia se sublevado (Musashi lutara ao lado dos Ashikaga na Batalha de Sekigahara).

Em 1637 e 1638, Musashi ajudou a sufocar uma rebelião de camponeses cristãos em Shimabara, no sul do país. Na época, o filho Iori ocupava um importante cargo a serviço do daimiô Ogasawara Tadasane, simpático ao regime de Tokugawa.

Em 1640, Musashi tornou-se hóspede no castelo do daimiô Hosokawa Tadatoshi, em Kumamoto, no sul do Japão. Ali, trabalhou como instrutor de esgrima e desenvolveu seus outros talentos. Longe dos combates, produziu caligrafias, pinturas e esculturas – algumas são consideradas obras-primas e podem ser vistas ainda hoje no Japão, em especial no Museu de Artes de Shimada, em Kumamoto.

Em 1643, Musashi foi viver como eremita na caverna de Reigando, localizada na mesma região. Dedicou-se a escrever O Livro dos Cinco Anéis, uma obra de estratégia que, três séculos mais tarde, se tornaria o livro de cabeceira de empresários do mundo inteiro interessados em aprender táticas para superar a concorrência na disputa por mercados.

Musashi finalizou a publicação poucas semanas antes de morrer, em 19 de maio de 1654. Sua morte também está envolta em brumas. Só em Kumamoto há cinco sepulturas onde supostamente se encontram seus despojos. Mas alma do samurai não está em nenhuma delas.


Musashi vs Kojiro

Por Lira Neto

Na noite que antecedeu ao mais importante duelo de sua vida, em 13 de abril de 1612, Miyamoto Musashi, considerado o maior samurai de todos os tempos, desapareceu sem deixar rastros. O adversário, Sasaki Kojiro, outro mestre imbatível na arte das espadas, interpretou o sumiço como uma declaração de covardia. Imaginou que Musashi, que ao longo da vida já fizera jorrar o sangue de mais de 60 contendores com a lâmina afiada de seu sabre, finalmente encontrara um antagonista à altura e, ciente disso, fugira do embate.

Na manhã seguinte, Kojiro chegou cedo à ilha de Funashima, local do grande confronto, marcado para a “hora do dragão” – 8 horas, nos relógios ocidentais. Por lá, nenhuma sombra de Musashi. Parecia certo: o grande samurai preferira a humilhação da fuga a morrer de forma honrada.

Mas, quando o sol já se encontrava quase a pino, pouco antes das 11 horas, Kojiro avistou, da praia, o barco que trazia Musashi. Ele se atrasara propositalmente, numa estratégia calculada, para quebrar a concentração do oponente, fazendo-o desperdiçar paciência e energia.

O aguardado duelo demorou poucos minutos. Na embarcação, a caminho do confronto, Musashi esculpira um velho remo de madeira e transformara-o em arma mortal. Mas, tão logo desceu do barco e pôs os pés na água rasa da praia, viu-se alvo de um golpe da espada de Kojiro. Esquivou-se a tempo. Os dois miravam-se em silêncio. Para vencer o inimigo, a filosofia samurai recomendava que todo o ímpeto dos músculos deveria atuar em consonância com a serenidade de espírito.

Por fim, Kojiro desferiu o que imaginou ser um um golpe fatal. A espada passou rente à cabeça de Musashi, chegando a partir a faixa cor de ferrugem que ele amarrara à testa, para prender os cabelos. Kojiro comemorou. No calor da luta, a faixa rubra, arrancada no ar, pareceu-lhe o sangue do adversário esguichando na ponta da arma. O engano custou a Kojiro a própria vida. Musashi aproveitou o momento de desconcentração do inimigo, fruto da falsa certeza da vitória, para acertar-lhe com o remo entalhado em forma de espada. Kojiro caiu morto, o crânio partido em mil pedaços. Nos lábios, trazia o sorriso de quem morrera imaginando ter ganho o maior duelo já travado entre dois mestres samurais.

Redação AH


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