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Nelson Rodrigues também não acreditava em tortura na Ditadura, até que aconteceu com quem ele amava...

O famoso cronista e dramaturgo brasileiro negava publicamente os crimes do governo, mas tudo mudou quando pegaram o Nelsinho

André Nogueira Publicado em 28/03/2019, às 10h19

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A dificuldade de descrever Nelson Rodrigues é impressionante. O escritor, famoso por suas crônicas ácidas e roteiros inovadores, gera muita polêmica. Nelson era um reacionário, um conservador de extrema-direita com sérias repulsas a muitos movimentos sociais, com uma visão extremamente pessimista da realidade burguesa brasileira e um afinco muito grande ao anti-comunismo.

Além disso, Nelson Rodrigues é um gênio singular. Sua obra extremamente inovadora e dramática faz dele, talvez, o maior dramaturgo da história brasileira e um dos mais inteligentes e sagazes artistas brasileiros. Perto de sua obra, artistas renomados (justamente) como Buarque de Holanda e Augusto Boal podem ser acusados de simplismo.

Algumas obras do autor marcaram época e o conhecimento que temos de teatro. Beijo no Asfalto é um tapa na cara da sociedade conservadora e hipócrita de seu tempo. A conversão ao moderno que Nelson faz da tragédia grega faz dela uma renovação da crítica à atualidade. Sua peça Vestido de Noiva marca a fundação de um teatro moderno brasileiro.

Nelson e o filho / Reprodução

E, algumas vezes, seu posicionamento político o colocara em situações complexas. Um desses casos, que beira o limiar, trata do envolvimento público do dramaturgo com os governos militares. Nelson Rodrigues apoiou a ascensão da junta militar em 1964 e se declarava publicamente a favor do novo regime instalado. Diante das contradições dessa defesa culminaram na negação do autoritarismo do governo.

Nisso, Nelson assumiu uma posição, pessoal e pública, em que defendia que não havia tortura no Brasil. Ele dizia que as denúncias de atentados à vida de cidadãos eram exageros sentimentalistas ou mentiras descabidas elaboradas pelos esquerdistas para desestabilizar a junta pseudorrevolucionária que supostamente estaria "reconstruindo o Brasil". Para ele, os testemunhos de tortura eram intencionalmente forjadas em favor da ascensão de uma esquerda comunista.

A negação da tortura é um extremo. É o ápice da defesa engajada do autoritarismo de Estado. E Nelson Rodrigues era um homem extremamente inteligente, e seria tolo apontar estupidez para entender o caso do escritor. Suas posições partem de seus preceitos políticos e perspectivas de vida que, ao culminarem na defesa da ditadura, expõem o lado mais amargo e obscuro deste brilhante artista.

Porém , o problema de Nelson também estava em sua própria casa. O filho dele era um jovem de esquerda que se envolve nos protestos de 1968 (Nelson demonstra sua posição muito bem na brilhante sátira Passeata dos Cem Mil) e, no começo dos anos 1970, ingressa na luta armada pelo MR-8. O choque nunca foi realmente capaz de desatar os laços afetivos entre os dois, mas é inevitável que se gere um certo conflito. Ao contrário, quando seu filho, Nelsinho, viaja após se formar, no momento em que a repressão se acirra no Brasil, o diálogo entre a oposição do filho e o conformismo do pai só aumentava em suas conversas por carta.

Cartaz de peça famosa de Nelson / Divulgação

Nelsinho se torna foragido por suas ligações políticas, fugindo da polícia, com mais de 20 processos legais nas costas, mas ainda se comunicando com o pai. Em 1972, o jovem é preso por um batalhão das tropas da repressão e levado à sala de interrogatório. A primeira sessão, segundo o jovem, já envolveu três dias de "barra pesada de tortura" (citação de carta pública de Nelsinho). Quando perceberam que o jovem era filho de Nelson Rodrigues, o pai pode ter contato com ele, indo à delegacia. Nelson, logo que teve contato com a prisão, avisou aos militares, prezando cautela, pois Nelsinho tinha o peito afundado.

O escritor tenta de alguma maneira intervir, mas tem que esperar. Na primeira oportunidade oferecida, foi de encontro com o filho, que estava abalado e ferido. “Me perguntou [Nelson a Nelsinho]: ‘Você foi torturado?’ Eu disse: ‘Barbaramente.’ A cara do velho. Aí caiu a ficha. A partir do momento em que soube, não deixou de escrever a favor da ditadura, não podia ‘chutar o balde’, até para me proteger, mas mudou em ênfase.”

Foi nesse momento que Nelson Rodrigues percebeu a realidade da tortura no Brasil, refletindo sobre a organização mental que o levara antes a argumentar contra a existência dela. Ele nunca foi a favor da censura ou da opressão. Mas sua defesa do governo militar direitista criou uma cegueira drástica que o fazia argumentar em favor do encobrimento de absurdos. Quando Caetano Veloso foi preso, ele saiu publicamente em defesa da liberdade de expressão. Dizia que ninguém poderia ser reprimido por falar e cantar.

A Passeata dos 100 Mil / Wikimedia Commons

Depois da descoberta da tortura, Nelson incitou uma campanha, mesmo antes disso ser pauta nos protestos pela Anistia, que pedia que se negasse anistiar torturadores. Vê-se que Nelson Rodrigues não era burro, mas também era uma pessoa bastante decente e crítica. Uma experiência quase anedótica sobre os caminhos que nossa ideologia pode nos levar.

A tortura não atingiu somente esquerdistas radicais. Ela também chegou em jovens, crianças, idosos, donas de casa, mulheres grávidas, militares, padres, policiais, jornalistas e até direitistas inconformados. Ela era direcionada a quem discordava do governo e se manifestava por isso, pois guerrilheiros que pegam em fuzis para uma guerra interiorana com baixa capacidade de vitória não são tanta gente assim, enquanto a tortura atingiu muita gente. Nelson Rodrigues percebeu isso.