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O beijo da vida: Um Pulitzer por puro acaso

Como a sorte transformou um fotógrafo de um jornal da Flórida no ganhador do grande prêmio

M.R. Terci Publicado em 10/08/2019, às 07h00

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- O beijo da vida / Crédito: Rocco Morabito

Nesse artigo, eu contarei como o mero acaso transformou o retratista de um semanário da Flórida no ganhador do Prêmio Pulitzer.

Em julho de 1967, Rocco Morabito, fotógrafo do Jacksonville Journal, estava entediado e dirigia seu carro nas proximidades da West 26th Street. Morabito havia sido designado para cobrir um evento de pouca ou nenhuma importância naquele bairro.

Na rua, avistou dois funcionários da companhia elétrica se preparando para efetuar reparos em um poste de alta-tensão, fato para o qual não deu nenhuma atenção porque, do outro lado, um enorme ajuntamento de pessoas causava tumulto.

Tratava-se de uma manifestação de ferroviários e o fotógrafo viu nisso a chance de um furo para o jornal. Estacionou, desceu com sua câmera e após muitas fotos, satisfeito por não ter de ir àquele evento maçante, se preparava para voltar para a redação do jornal.

Um súbito movimento atraiu sua atenção para cima. Morabito viu um dos eletricistas pendurado de cabeça para baixo, suspenso pelo equipamento de segurança, enquanto o outro o beijava.

Instintivamente, suas mãos ergueram a máquina fotográfica, as lentes da objetiva focalizaram a cena e após uns poucos cliques, ele percebeu o que realmente ocorria. Correu para o carro e chamou uma ambulância pelo rádio que utilizava para bisbilhotar a frequência da polícia.

J. D. Thompson e Randall Champion trabalhavam na manutenção de linhas de energia, quando Randall levou uma descarga elétrica de 4000 volts.

“Ele pegou o fio quente com seus quatro dedos”, disse Thompson mais tarde ao jornal — “eu vi a corrente elétrica saindo dele, acho que pelo pé esquerdo. Soprou um buraco feio por onde saiu do pé!”

“Eu achei que ele havia desmaiado. Depois, com o tempo passando, ambulância demorando, achei que tivesse morrido”, recordou Morabito posteriormente.

Crédito: Rocco Morabito

 

Randall estava desacordado, havia sofrido uma parada respiratória e Thompson fazia respiração boca a boca no colega de trabalho perigosamente pendurado. Naquela hora, seu cinto de segurança impediu a queda após o choque. Thompson, que subia abaixo dele, o alcançou e rapidamente pôs em prática os primeiros socorros.

Dadas as circunstâncias, ele não foi capaz de realizar ressuscitação cardiopulmonar, mas continuou com o boca a boca até sentir um ligeiro pulso, depois, soltou o arnês e desceu com ele em seu ombro.

No chão, Thompson e alguns dos ferroviários continuaram com a reanimação cardiopulmonar. Quando os paramédicos chegaram, Randall já tinha sido moderadamente revivido e foi levado para o hospital local.

Além do estado crítico, as lesões do eletricista incluíam uma queimadura gravíssima no pé que exigiu enxerto de pele e meses de cicatrização, mas graças a atitude do colega de trabalho, ele sobreviveu.

“Muitas pessoas não sobrevivem", comentou Randall, muito tempo depois, em uma entrevista. “É só uma questão de quanto tempo você fica preso ao fio, sabe? Muitas pessoas morrem instantaneamente.”

Naquele dia, quando finalmente voltou para a redação, Rocco topou com seu chefe enfurecido. A edição do jornal daquele dia teve de ser fechada às pressas, sem as fotos do tal evento na cidade. O fotógrafo respondeu: “Acho que tenho uma foto muito bonita.”

Sob ameaças de demissão, Morabito revelou o filme e mostrou a foto para o editor. Depois de olhar por um instante, ele sorriu e disse: “Muito boa. Vamos chamar de O beijo da vida e vamos publicá-la, amanhã, na primeira página!”

A foto rodou o mundo e, um ano depois, aquela fotografia lhe garantiu um Pulitzer na categoria Reportagem Fotográfica — anteriormente designada Fotografia de Última Hora.

Assim como na pintura, na escultura e em outras formas de arte, o conceito de belo na fotografia não está relacionado ao que é considerado bonito por determinada cultura ou grupo social ou, ainda, a forma de composição que o fotógrafo utilizou para registrar a imagem, associada à maneira como o espectador percebeu esta imagem.

O conceito de belo vem da história por trás da foto.

Sorte de Rocco Morabito.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.